Livro: Bikenomics: Como a Bicicleta Pode Salvar a Economia de Elly Blue

O uso da bicicleta como transporte público gera um debate acalorado. Dos dois lados, há opiniões apaixonadas, como não podia deixar de ser. Quem é a favor quer mudar o mundo e é movido por uma paixão forte, como toda paixão é. Quem é contra defende um estilo de vida que quer manter e, a cada avanço da agenda da bicicleta, cerra suas fileiras ainda mais, pronto para o combate. E sim, trata-se de um combate, mas um combate de ideias. Nesse contexto, o livro Bikenomics: How Bicycling Can Save the Economy se propõe a ser um raio de luz racional em meio às trevas de um debate muitas vezes desinformado. E o livro cumpre seu objetivo, mas não da maneira mais divertida (para o leitor).

A obra foi escrita por Elly Blue, uma ativista da bicicleta (ou cicloativista, como às vezes chamam por aí) e escritora. Ela vive em Portland, uma das cidades mais amigáveis para o ciclista dos Estados-Unidos. Seu livro mistura sua vida com a causa que defende. Ela conta como começou a andar de bicicleta e porque passou a ver a sua adoção como um dos modais a compor o sistema de transporte público. Elly também argumenta que a inclusão das bicicletas no sistema de transporte pode ser parte de uma solução efetiva para diversas crises enfrentadas pela população dos Estados-Unidos: fiscal, saúde, justiça social, ambiental. Tudo pode ser atacado de bicicleta. Antes de mostrar como, um aviso que me parece necessário, principalmente para quem torce o nariz quando vê um ciclista na rua. Não se trata de queimar todos os carros e seus ocupantes ou forçar as pessoas a pedalarem por duas horas debaixo de um sol escaldante. Trata-se de considerar soluções inovadoras para problemas persistentes. E quais problemas são esses?

Em primeiro lugar, o tráfego nas grandes cidades. A solução preferencial dos governos (e do cidadão médio que ele representa) para engarrafamentos é a construção de mais ruas. Porém, isso vem sendo feito há muito tempo e os engarrafamentos continuam por aí. Além de custarem extremamente caro, essas megaobras não resolvem o problema porque, entre outros motivos, tornam ainda mais atrativo o uso do carro. Ou seja, mais gente passa a ocupar o novo espaço disponível, o que cria os engarrafamentos. Assim, o livro propõe uma abordagem diferente, o incentivo ao uso de outros meios de transporte. É uma questão de igualdade. Hoje, o transporte de carro é subsidiado por quem não dirige — quem dirige não paga o suficiente para cobrir os custos do que usa. Nada mais justo do que concentrar recursos nessas outras pessoas. Se isso é verdade nos Estados-Unidos, cenário dos dados apresentados por Elly, imagina no Brasil onde a desigualdade de renda é muito maior?

Essa questão tangencia outra: o orçamento apertado dos poderes públicos para investimentos (o que é especialmente importante em tempos de crise como os nossos). Para usar um clichê típico do meio empresarial, as dificuldades financeiras podem e devem ser transformadas em oportunidades. No caso, é uma oportunidade para o incentivo ao uso da bicicleta já que a construção de ciclovias e outras infraestruturas que incentivam o pedal são infinitamente mais baratas do que alguns poucos metros de rodovias.

A autora explora também dois outros ganhos advindos do uso da bicicleta. A melhoria na saúde e os benefícios para o meio-ambiente. Creio que os dois pontos são os mais visíveis quando se fala sobre o assunto e, por conta disso, não vou me estender em relação ao assunto. Queria deixar apenas um dado complementar: um relatório do Programa das Nações Unidas para o Desenvolvimento (Pnud) indicou que 15% dos custos do Sistema Único de Saúde (SUS) com internações em 2013 foram atribuíveis à inatividade física. Para se ter uma ideia, o orçamento do SUS em 2015 foi de R$ 98,4 bilhões. Assim, a economia hipotética seria perto de R$ 15 bilhões por ano.

Ao cabo, o livro é interessante e enriquecedor. Ele traz muitos dados amplamente referenciados e pode ser uma boa base para aquela discussão na mesa de bar (e outras mais sérias também, claro). Entretanto, ele peca por ser enfadonho em diversos momentos e até mesmo repetitivo. Ou seja, não se sinta culpado em pular alguns parágrafos aqui e ali. Além disso, o livro trata de uma realidade bem diferente da brasileira. As cidades de lá são diferentes das cidades daqui e, assim, os dados não podem ser tomados pelo seu valor de face. As nossas soluções precisam ser criadas por nós e para nós.

E você, o que acha da bicicleta como transporte público?

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