MUROS, Rafael Hayashi

Luíza Buendia Takeshita

Luíza Buendia Takeshita, Cinema CCM, Estética.

A exposição “Muros”, do artista brasileiro Rafael Hayashi, trabalha com a pintura de corpos em movimento e expressões faciais marcantes. Todas as pinturas são feitas a partir de cor monocromática, e o delineado se dá pela intensidade da pincelada. Rafael Hayashi quer expressar o conflito entre a sociedade e o indivíduo, a luta que trava contra a cidade e a força que faz para que não seja engolido por ela são características gritantes de suas obras. Com massas de tinta, molda a tela e constrói com suas mãos as luzes, volumes e movimentos de suas cenas emolduradas. É influenciado pela arte oriental e pela pintura contemporânea; tem marca do ukiyo-e (gravura japonesa).

O autor diz que não quer expressar na pintura fraqueza. Diz que, ao invés do que muitos artistas costumam fazer, revelando suas sombras e vulnerabilidades, apresentaria sua força, integridade e indestrutibilidade. Com suas obras, acreditaria trazer o vigor que ele tem diante de si mesmo, empoderando-se.

A única cor utilizada é o vermelho. Com traço escorrido, o vermelho apenas consegue me remeter à sangue, fúria, vingança, fervor. As linhas de expressão sangram. A espessura larga do traço reforça a brutalidade do combate, da violência, do cortante. É de vivacidade gritante, a pintura salta da tela pelo relevo construído pelo artista.

Homem em Fúria | 60x45cm.

Sombras e luzes são elaboradas a partir da intensidade do vermelho utilizado, delineando rostos, corpos e confrontos. O movimento fluido da pincelada é o próprio fluxo do sangue que sobe e circula em nosso corpo fortemente quando estamos em adrenalina, ativos e em alerta. Apesar do artista assumir que não demonstra o seu emocional a partir de pinturas que enaltecem sua força, a sensibilidade e a fragilidade se encontra na entrelinha.

O simples fato de alguém precisar firmar-se como uma figura de guerra num contexto em que claramente isso não é requerido, revela uma insegurança. O medo de ser visto como alguém sujeito aos sofrimentos da vida o faz querer afundar os pés no chão, assumindo uma postura estóica.

A obra, portanto, que significaria o torpor da fúria do artista, mostra também seu medo de não conseguir ser aquilo que projeta; por isso os traços tão fortes e destacados, para que essa projeção se espelhe, salte, para fora do quadro e o alcance. A realidade de um homem finito, vulnerável, sensível e imperfeito luta contra si mesmo, luta contra a fraqueza que enxerga em sua efemeridade. Apenas consegue eternizar-se em sua obra, onde sua força sempre o acompanha, onde sua força internaliza-se em si.

Homens Duelando | 90x80cm

Rafael Hayashi traça uma luta contra si mesmo, contra o mundo e contra as aparências. A resistência para não ceder ao que os outros querem ver requer força, força tamanha que se sente esmagado. Há um peso enorme diante de si, que precisa aprender a suportá-lo e ultrapassá-lo. Não quer ser engolido pelo mundo, quer que as pessoas o vejam. Mas como as pessoas poderiam vê-lo, se apenas esperam pelo que estão a procurar? O ódio, a teimosia e o temor tomam conta de um ser que não consegue ser visto e está constantemente sobre pressão.

As pinceladas são impactantes, as obras saltam para seus olhos e te acertam diretamente, certeiramente. É um tiro. Não há nada no salão que se preferirá olhar, pois essas obras, essas são as que incomodam. Que machucam. Que ferem. Ao mesmo tempo que Rafael fere a si, fere a nós, que colocados em sua percepção de mundo, nos sentimos encurralados, presos, sufocados. O vermelho ressalta todas essas afirmações a cada instante. É uma experiência vívida e visceral, machuca os olhos e desordena os pensamentos.

Serviço da exposição:

Quanto: Gratuito.
Onde: Rua Harmonia, 95B, Vila Madalena — A7MA Galeria.
Até quando: Segunda semana de Outubro.
Links relacionados: http://a7ma.art.br/muros-rafael-hayashi/, http://a7ma.art.br/.

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