Ready made in Brasil

Marcel Duchamp- A Fonte, 1917

Nas ruas, nos becos, vielas e avenidas, nos deparamos com grafites, poesia e até mesmo abstrações, e a pergunta que- ás vezes inconscientemente- nos vem a cabeça é: isso é arte? Tal questionamento nem de longe pode ser dito como atual. Desde 1916, artistas como Marcel Duchamp, se questionam a respeito do que pode ser proferido como arte e porque existem determinados padrões artistícos. Pensando nisso, e na sublime obra “Fonte” de Duchamp- a qual completou 100 anos atualmente- o Sesi- SP junto ao Centro Cultural Fiesp realizou uma exposição gratuita- que está aberta ao publico do dia 10 de outubro a 28 de janeiro- homenageando o célebre artista e a influência de seu conceito artístico ready made no Brasil.

Paulo Bruscky- Marcel Duchamp x Rrose Sélavy, 2010.

A arte como liberdade de criação nem sempre foi possível. Tal maneira de se fazer arte tornou-se viável devido ao conceito- o qual Duchamp batizou de ready made, que caracteriza o espírito do dadaismo. A vanguarda dadaísta transforma um objeto de arte para realizar uma crítica ao sistema artístico. Trata-se de ressignificar utensílios, que diariamente são vistos como banais, mas que ao ganharem uma boa iluminação e uma autoria adquirem o valor de arte.

Antonio Dias- Satélites, 2002.

Rompendo com a arte retiniana e olfativa, Marcel Duchamp pode ser considerado, de fato, um divisor de águas na esfera artística. A arte pós Duchamp, podendo ser dita como arte contemporânea, conduziu a produção artística ao âmbito do humor, da ironia e até mesmo do deslocamento, tornando-se referência para as artes em geral. Artistas brasileiros como Nelson Leirner, Waldemar Cordeiro e Cildo Meireles- entre outros- foram inspirados pelo conceito ready made e algumas de suas obras encontram-se na exposição, que busca retratar o procedimento duchampiano em importantes obras de diferentes artistas e gerações.

Ao visitar tal universo artístico, limitado a algumas paredes apenas para aqueles que não se deixam levar pela imaginação, experimentei o gostinho da revolução duchampiana ao observar curiosa e atentamente determinadas obras, dentre elas:

Cildo Meireles- Zero Real, 2014

A obra Zero Real de Cildo Meireles, me levou a pensar a respeito do valor que os utensílios possuem atualmente. Uma cédula é capaz de ser diversos objetos que podem ser adquiridos com ela, ou apenas um pedaço de papel. Existem moedas, por exemplo, que para o mercado já não possuem valor algum, mas que para colecionadores representam valores sentimentais que jamais poderiam ser comparados a contas bancárias. A cédula real possuí zero valor real, ela nos trasporta para um local paralelo, no qual não se encontram artistas e amantes de poesia, apenas a mercantilização de tudo que nos rodeia.

Marcos Chaves- Não Falo Duas Vezes, 1995

Não Falo Duas Vezes de Marcos Chaves, me fez pensar a respeito do poema Procura da Poesia de Carlos Drummond de Andrade, mais especificamente a estrofe abaixo, pois dependendo do ângulo em que se observa a obra, não conseguimos enxergar a sombra das palavras nela contida- e a sombra das palavras representam uma face da mesma que necessita ser descoberta e admirada.

“(…) Chega mais perto e contempla as palavras.
Cada uma
tem mil faces secretas sob a face neutra
e te pergunta, sem interesse pela resposta,
pobre ou terrível, que lhe deres:
Trouxeste a chave?(…)”

O desenhista, pintor e escultor Felipe Cohen, em sua obra Ampulheta, aborda- além do conceito ready made- a perspectiva e como olhares diferentes para um mesmo objeto, pode mostrar objetos distintos. Isso me fez lembrar o seguinte trecho do texto A complicada arte de ver de Rubem Alves:

Felipe Cohen- Ampulheta, 2013
“(…) Ver é muito complicado. Isso é estranho porque os olhos, de todos os órgãos dos sentidos, são os de mais fácil compreensão científica. A sua física é idêntica à física da óptica de uma máquina fotográfica: o objeto do lado de fora aparece refletido do lado de dentro. Mas existe algo na visão que não pertence à física.
William Blake sabia disso e afirmou: “A árvore que o sábio vê não é a mesma árvore que o tolo vê”. Sei disso por experiência própria. Quando vejo os ipês floridos, sinto-me como Moisés diante da sarça ardente: ali está uma epifania do sagrado. Mas uma mulher que vivia perto da minha casa decretou a morte de um ipê que florescia à frente de sua casa porque ele sujava o chão, dava muito trabalho para a sua vassoura. Seus olhos não viam a beleza. Só viam o lixo. 
Adélia Prado disse:” Deus de vez em quando me tira a poesia. Olho para uma pedra e vejo uma pedra”. Drummond viu uma pedra e não viu uma pedra. A pedra que ele viu virou poema.(…)
Cao Guimarães- Gambiarra #50 e #42, 2005

As obras intituladas como Gambiarra de Cao Guimarães, sugerem- ao meu ver- o ato de olhar para o mundo e ver tudo, menos o mundo. É o procurar nas coisas e nas pessoas, o lúdico, o inesperado, o surpreendente. É fazer da vida uma crônica lírica, na qual a poesia tem espaço para o começo, meio e fim, sendo o último verso secreto e eterno.

Em suma, a exposição, bem como o conceito de dadaísmo e readymade, foi para mim um exemplo de deixar-se surpreender pela vida e ganhar de presente a arte de viver.

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