Fundamentos da Argumentação Psicodélica

A locução “Argumentação Psicodélica” refere-se à corrente de ideias, pensamentos e ideologias focadas na total confusão dos interlocutores, de forma a extrapolar os limites da discussão concreta ou abstrata e atingir o sentido mental puro dos conceitos tratados. Ao permitir o livre fluxo de ideias, a Argumentação Psicodélica permite o desenvolvimento de discussões tangentes à natureza das próprias, ao abstrair e extrapolar os conceitos de sentido e coerência linguísticos.

Perspectiva Histórica

Tratando-se de uma nova corrente filosófica, a Argumentação Psicodélica (AP daqui em diante) ainda não encontra obras publicadas. Sua origem, todavia, remete à crise aérea instaurada no Brasil a partir de setembro de 2006 — ocasião da queda do voo 1907, da Gol. Apesar da seriedade e gravidade do ocorrido, a primeira exposição da AP em rede aberta nacional ocorreu através de uma aparente gafe do narrador esportivo Cléber Machado:

“Há uma discussão muito pontual. A pontualidade faz parte, não tenha dúvida. Você não pode esquecer, né. É pontual. Brinquei da crise aérea. Houve uma crise aérea? Houve. A vida inteira? Não. Todo o tempo que o Brasil teve transporte aéreo houve crise? Não. Mas houve uma? Houve! A discussão é pontual? É! Mas não é, porque é estrutural.”

Por trás do discurso ridicularizado por programas humorísticos de televisão e diversos websites com o mesmo teor, entretanto, escondem-se alguns dos fundamentos da AP. Cléber, através do livre fluxo de ideias, é capaz de penetrar na questão com agudez ímpar, abandonando no caminho a coerência linguística esperada num discurso aberto.

A Argumentação Psicodélica sob a ótica da dialética

A dialética clássica, fundada na filosofia grega, baseia-se na contraposição e contradição das ideias, racionalmente. Tal processo não pode, em tese, ser demonstrado, uma vez que trabalha com a chamada “lógica do provável”. O conceito dialético é resgatado na filosofia moderna e contemporânea, sobretudo na escola alemã — primeiramente com Kant e Hegel, em seguinte com Marx e Engels. O leitor é encorajado a compreender os conceitos básicos através das diversas obras disponíveis sobre o tema.

O materialismo dialético insere-se na lógica contemporânea com os fundamentos sobre compreensão da sociedade, economia e sobretudo a dinâmica da história. Para Marx, as ideias — percepção do mundo, em nível último — nascem unicamente do material — sejam as relações sociais ou objetos em si.

A psicodelia dialética propõe, por outro lado, que as ideias e percepções nascem do puro caos, sendo portanto impossível entender de modo exato as interações. A maneira de se atingir o nível mais alto possível de compreensão é, deste modo, usando o próprio caos. A libertação mental caótica possibilita todos os choques de teses e a destilação dos imprevisíveis resultados em pequena escala; todos os confrontos e contradições importam e são computados no resultado final.

A analogia física da psicodelia dialética

As principais etapas da dialética podem ser explicadas utilizando o recurso pedagógico da analogia. Pode-se observar certa simetria entre a física e a filosofia nas três etapas da dialética:

  • Cinemática, ou grega
  • Dinâmica, ou materialista
  • Quântica, ou psicodélica

A dialética grega aproxima-se do que os físicos definem como a cinemática: estudo do movimento dos corpos. Nesta área, toda a evolução do sistema é função algébrica unicamente dos parâmetros envolvidos; todos os resultados são previsíveis e unicamente determinados.

Já a etapa materialista inclui uma equação dinâmica, ou diferencial em linguajar matemático: HIPÓTESE + DESENVOLVIMENTO + TESE + ANTÍTESE + DIALÉTICA = SÍNTESE. Tal equação é diferencial pois, segundo Marx, a síntese em si é uma nova tese, e carrega consigo uma antítese; gera, portanto, uma nova síntese. A evolução no tempo do sistema, portanto, não depende mais apenas de seus parâmetros, mas também de como o próprio sistema evolui naquele instante — ou seja, sua derivada no tempo. Entretanto, esta modelagem simples ainda é determinística; uma vez que os parâmetros estejam determinados, a solução é única, assim como na física.

Por fim, a etapa psicodélica da dialética aproxima-se da quântica. Postula-se que toda ideia carrega consigo incertezas inerentes; as ideias, conceitos e definições sempre podem ter caráter múltiplo, dependendo de como são observadas. Nada é, portanto, absoluto. Mesmo que todas as variáveis do sistema sejam conhecidas, o resultado é imprevisível, uma vez que o melhor resultado deduzível é a função ideológica de onda — que representa a grosso modo uma probabilidade.

Aspectos operacionais teóricos da AP

A argumentação psicodélica encoraja que seus praticantes desenvolvam metodologias próprias para a aplicação dos conceitos tratados; a imprevisibilidade caótica é sempre estimulada, visto que incita o aumento da criatividade e expansão das capacidades mentais e de discurso. Em todo caso, o fundamentos conceituais da operação típica da AP podem ser determinados em primeira instância. Modificações e adaptações devem ser adicionadas em estudos futuros.

A sequência base proposta é a seguinte:

  • Ideia: A etapa inicial, a fagulha na palha mental que habita a cavidade craniana dos interlocutores. Pode surgir de uma observação qualquer, uma pergunta ou uma indagação sobre um assunto arbitrário. Neste momento, o universo semântico da ideia deve ser capturado, assim formando a base da próxima etapa.
  • Confusão: Marca o início da reação em cadeia, que forma o cerne da AP. Os choques entre ideias ocorrem nesse estágio e estabelecem as bases para a evolução da discussão e a subsequente sintetização. Deve-se buscar o confronto de conceitos e a captação dos resultados iniciais — atentando à minima interferência no processo quando da coleta dos dados.
  • Livre fluxo: Continuidade e expansão da etapa anterior. Nesta etapa, a extrapolação das ideias tratadas anteriormente deve ser feita. A digressão, quando utilizada através dos preceitos argumentativo psicodélicos, é um método eficaz para a captura de conceitos previamente não associados ao assunto tratado. Deste modo, a completude da análise pode ser aproximada de forma contundente.
  • Tese: Deve-se determinar, primeiramente, um critério de parada para o fluxo anteriormente estabelecido. Como regra prática, quando não observa-se mudança significativa na captura e síntese de novas ideias, estabelece-se que o fluxo deve ser terminado. Isto pode ocorrer também por conta de uma fonte externa, interrompendo propositalmente ou não a geração. Após o término, os resultados devem ser coletados e processados de forma consciente. Como diretriz, um processo típico de AP pode levar entre 5 minutos e uma hora, de acordo com o nível de profundidade alcançado.

O método proposto, todavia, não garante a convergência da solução, dado que os interlocutores podem chegar em “becos sem saída” mentais.

Conclusões

Tratando-se de um estudo filosófico e metafísico generalizado, a AP propõe-se a ser aplicável em todas as áreas de conhecimento. Através da sequência operacional IDEIA — REFLEXÃO — CONFUSÃO — LIVRE FLUXO — TESE, é possível atingir a verdade psicodélica, ou real. Deve-se notar, por outro lado, que a realidade é caótica e evolutiva; a verdade psicodélica é portanto tão efêmera quanto.

O campo de aplicação é demonstradamente largo, com aplicações da AP já encontradas em reflexões individuais, discussões em pequenos grupos e discursos abertos. É importante notar que todos os interlocutores devem estar cientes dos fortes requisitos físicos e mentais para tanto — é uma jornada um tanto quanto indigesta.