Wall.E,

O Novo Pinóquio

“Tem muito lixo no pedaço? Tem muito espaço no espaço? Espaçonaves BNL partindo a toda hora! Nós limpamos a bagunça enquanto você estiver fora! (…) O espaço não é a fronteira final” — Wall.E.

O gênero sci-fi (science fiction, ou, como diremos com mais frequência nesse texto, ficção científica) é comumente reconhecido como histórias futurísticas, com muita viagem no espaço e ampla discussão sobre tecnologia e diferentes universos.

No entanto, a New Wave expandiu ainda mais esse gênero quando, nos anos 60 do séc. XX, como afirma Fátima Régis, em seu livro “Nós, ciborgues: Tecnologias de Informação e subjetividade homem-máquina”: “A partir da New Wave, as abordagens teóricas sobre ficção científica escapam das propostas simplificadoras que a reduziam ao caráter científico e buscam compreender e aprofundar as interfaces entre ciência, tecnologia, humanos e sociedade, sob a égide das ciências teórico-experimentais, humanas e sociais”. Nesta análise, pensaremos em cima de um filme que não é apenas o retrato de um mundo onde a inteligência artificial é regra, mas um apelo ao público para que, ao chegarmos lá, não percamos tudo o que temos hoje e nos define como humanos.

Em 2008, ano de lançamento do longa-metragem de animação Wall.E, produzido pela Walt Disney Studios em conjunto com a Pixar Animation Studios, a discussão sobre aquecimento global, tecnologia, lixo e a forma errônea com a qual a humanidade vem tratando o planeta pelos últimos séculos não era nenhuma novidade. A unicidade do filme está simplesmente na abordagem e, sim, no público que ele atingiu. Que melhor maneira de se discutir o futuro do que fazê-lo com aqueles que o viverão?

O filme conta a história de Wall.E, um robô criado para compactar o lixo deixado pela humanidade em uma Terra distópica, desflorestada e inabitável. Defeituoso, Wall.E adquire características humanas, como colecionar objetos descartados que o interessam, assistir a filmes musicais e até mesmo criar um bicho de estimação — uma barata que o segue e mora junto a ele em um contêiner.

Centenas de anos depois de ser deixado na Terra com sua missão — vale ressaltar que era apenas um de inúmeros outros robôs do tipo Wall.E, mas o único que “sobrevive” por tanto tempo — tem sua vida mudada quando descobre uma pequena muda de planta e conhece EVA, um moderno robô enviado para vasculhar a Terra em busca de sinais de vida.

Neste texto, deteremo-nos em dois pontos cruciais da narrativa desta obra: a humanização dos robôs e a principal indagação do filme — como podemos impedir que o futuro de nosso planeta e de toda a vida existente nele se torne uma distopia? — partindo do pressuposto de Fátima Régis de que: “as obras de ficção científica, longe de serem narrativas infantis e escapistas, produzem deslocamentos nas fronteiras entre subjetividade, saber e espaço-tempo como estratégia de interrogação de nossa própria humanidade”.

1. Os Robôs Humanizados

Como Gepeto o fez, no clássico filme da Disney, os criadores de Wall.E criaram um protótipo e o chamaram de humano. Iremos agora analisar o nosso protagonista, o mais humano de todas as máquinas: Wall.E. Já velho e enferrujado, tem como “principal defeito de programação” suas características humanas. Em compensação, foram essas as que o fizeram perdurar por séculos a fio.

Relembrando a ressalva acima, Wall.E é o único “sobrevivente” de seu tipo — os robôs Wall.E, deixados na Terra para compactar o lixo e organizar o planeta, verdadeiro lixão a céu aberto cheio de gases tóxicos criado pelos seres humanos ao longo de milênios de descaso com o meio ambiente, enquanto a humanidade desfruta de um confortável retiro a bordo de naves espaciais no espaço sideral — pelo simples fato de que troca suas peças com constância, tendo organizado todo um estoque das mesmas em sua casa.

Sim, Wall.E tem sua própria casa, a qual entulha com objetos diversos encontrados e coletados por ele pela cidade na qual vive e trabalha. Quiçá, nesse contexto, entulhar não seja a palavra certa. Fiquemos com preencher. Assim como os seres humanos o fazem, Wall.E preenche sua casa com as coisas que ele considera preciosas, bonitas e/ou funcionais. Dentre as várias prateleiras e estantes, ele coleciona garfos, relógios velhos, caixas, bonecos quebrados, abajures, garrafas coloridas, utensílios de cozinha, plástico-bolha, piscas-piscas, cubos mágicos e ainda tem duas que servem de cama para ele e sua barata de estimação. Acorda esgotado, repõe suas baterias com energia solar e vai para sua rotina diária, como qualquer trabalhador.

Todavia, o que é mais interessante nesse robô não são suas manias, sua rotina, nem sua habitação. São os seus sentimentos que nos saltam aos olhos e fazem com que nos identifiquemos com ele. Wall.E é um robô atípico, curioso, que sente medo, que se anima, que sente apreço pelas coisas a seu redor, que sonha com o mundo que ele tanto assiste na tela de sua televisão, que toma cuidado de seu animal de estimação, que tem coragem e, acima de tudo isso, ele ama e luta por quem ama.

Wall.E conhece EVA, sonda Examinadora de Vegetação Alienígena, um robô mandado de tempos em tempos da nave BNL Axiom, onde os seres humanos residem, para vasculhar o planeta e procurar qualquer sinal de vida que faça fotossíntese — o que significaria o retorno da humanidade ao lar. Assim que a vê, impressiona-se com ela e desenvolve um amor tenro e verdadeiro.

Ao som de La Vie En Rose, ele corre atrás dela como o garoto desajeitado corre atrás da garota popular (sem sucesso algum a princípio), como já foi mostrado em filmes dos mais variados, a exemplo dos casais Peter Parker e Mary Jane (Homem-Aranha), Soluço e Astrid (Como Treinar O Seu Dragão), Marius e Cosette (Os Miseráveis) e Sr. Bingley e Jane Bennet (Orgulho e Preconceito).

Wall.E cuida dela, protege-a do sol, da chuva, das tempestades de areia, esculpe-a em sucata, mostra a ela sua casa e os objetos que escolheu e organizou com todo o cuidado, seu filme preferido (Alô, Dolly!, de 1969), enfim, ele apresenta a EVA seu mundo e a convida a fazer parte dele. O romance é desenvolvido entre os dois e logo se percebe que Wall.E encanta todos os que entram em contato com ele.

Quando a aventura dos dois começa, a bordo da Axiom, tanto os humanos — desacostumados a se verem nos olhos, andar, mastigar, perceber o que está ao redor mesmo dentro da nave — quanto os outros robôs que o conhecem — principalmente os defeituosos — são rapidamente cativados por seu jeito simples e gentil.

Apesar de já ter aparecido a interação de Wall.E e EVA, assim como boa parte das personalidades dos mesmos (se assim podemos chamar), apenas na nave fica concluível que todos os robôs têm um quê de inteligência artificial, a qual os possibilita ter características pessoais além do trabalho que exercem. Mo, por exemplo, um robô encarregado de limpeza, não é visto como defeituoso, mas tem seu próprio jeito de ser — ela reclama e briga com Wall.E por estar todo coberto de terra e fica obstinada a limpar todo o rastro de lama que ele espalha pela nave, criando uma amizade irreverente com o mesmo.

De acordo com Claude Shannon, engenheiro de Telecomunicações e um dos principais articuladores da Teoria da Informação, a informação se mantém intacta independente do meio ou substrato que a transporta, ou seja, ela não é relativa. Contudo, a relação entre animal, máquina e meio é colocada em termos novos pela cibernética. Para ela, de mesmo modo que um animal e um ambiente são sistemas integrados únicos, com funções delimitadas e especificidades ímpares, uma máquina também precisa que todos os seus circuitos estejam integrados de tal modo que possibilite seu funcionamento perfeito. No filme, perceberemos que, assim que Wall.E é desmantelado e reorganizado com um novo painel de controle, ele perde toda a sua “humanidade” e passa a ser um robô como outro qualquer, sem capacidade de pensar o mundo por si próprio, meramente repetindo os movimentos para o qual foi programado: selecionar o lixo, compactá-lo e organizá-lo em pilhas.

As noções de controle, retroalimentação (feedback) e tratamento de informação quantificada aplicadas às máquinas (servo-mecanismos, computadores e robôs) fazem surgir pela primeira vez seres até então inexistentes: máquinas organizadas”. — Fátima Régis

O filme põe em voga a discussão ecológica? Sim. A construção de nossa sociedade? Também. Contudo, acima disto, o que ele mais problematiza é o próprio ser humano. Assim como Pinóquio é um menino, Wall.E se comporta mais como um humano do que como um autômato. Ele se comunica independentemente de sua função inicial, apaixona-se, cria laços e faz uma mudança enorme em uma população humana futura — mas que tem os mesmos problemas e toma as mesmas medidas tomadas pela população atual. Ao entrar em contato com os tripulantes e clientes da Axiom, o pequeno robô muda suas rotinas e os faz repensar o estilo de vida que levam e tudo o que tinham como certo do mundo e do lugar que ocupam no mesmo. Tendo em vista essas interações, vamos para o próximo tópico:

2. A Terra distópica

Em 2105, os seres humanos decidem abandonar a Terra — a princípio, temporariamente — pois sua superfície está tão coberta de lixo que ela se tornou inabitável. Seu ar é cheio de gases tóxicos e a órbita do planeta está repleta de satélites velhos e descartados. Os oceanos estão completamente tomados pelo esgoto, não há grama, nem qualquer tipo de planta. Basicamente, não há como manter a vida no ecossistema inteiro. O problema é que a solução que se encontra é a mesma de sempre: o caminho mais curto. É mais fácil criar robôs para empilharem o lixo do que reflorestar, reciclar, enfim, tomar medidas sustentáveis para reestabelecer o equilíbrio no planeta. 700 anos depois, os seres humanos ainda estão no espaço sideral, esperando que o Projeto Limpeza dê certo.

A peculiaridade do universo de Wall.E é que, tanto para o robô que dá nome ao filme quanto para os seres humanos — como veremos nas cenas do Capitão B. McCrea, nas quais ele pede ao computador informações sobre a vida na Terra séculos antes — a utopia é o passado. Wall.E é apaixonado por objetos antigos e por um filme musical do século XX e o capitão fica fascinado a cada nova descoberta sobre o planeta: mar, terra, dança, agricultura, etc. O que, para nós seria o futuro e para eles é o presente é a distopia.

Antes de continuar a análise, um breve comentário sobre os conceitos aqui utilizados: de acordo com o crítico literário de ficção científica Darko Suvin, utopia seria a construção de um mundo onde as instituições sociopolíticas, normas e relações individuais são organizadas de um jeito mais perfeito do que o da comunidade do autor. Eutopia é quando esse novo mundo é um lugar bom, desenvolvido e melhor do que o nosso. Distopia é o contrário: quando o mundo é pior ou mais caótico. A distopia sempre retrata o pior do ser humano, suas piores características e sua pior imagem.

Portanto, o mundo retratado no filme é um mundo distópico, não só sob o nosso ponto de vista, mas do ponto de vista das próprias personagens — as apaixonadas pela vida no planeta Terra antes do lixo “tomar conta do pedaço”.

Em uma das cenas mais aclamadas do filme, Wall.E e EVA começam a dançar no espaço sideral enquanto dois de seus amigos os olham e o capitão pede ao computador de bordo que defina baile e dança, pois todas essas manifestações culturais foram perdidas ao longo dos 700 anos em que as pessoas ficaram sentadas em suas poltronas flutuantes, conversando via computador umas com as outras, sem sequer prestar atenção ao que acontecia na própria nave.

Wall.E, mais do que ser um simples longa-metragem sci-fi ou um filme infantil, faz com que nós reconheçamos e questionemos todo o conceito de humanidade, no qual tanto nos apoiamos e nos orgulhamos. Quando uma máquina, criada por humanos, aparenta mais “humanidade” do que os próprios espécimes, o que estamos fazendo de errado? Será que realmente merecemos todos os privilégios de que dispomos (e criamos) no nosso ecossistema se não o tratamos com o respeito devido ao lugar que chamamos de lar? E mais: é certo deixar que os nossos erros sejam compilados e resolvidos por máquinas, não por nós?

O filme nos convida a ter a mesma epifania que o Capitão B. McCrea, ao regar a muda de planta em suas mãos: “Pronto, plantinha, você veio de tão longe para receber um pouco de água. Só queria que alguém cuidasse de você… Nós temos que voltar” — termina, olhando para o globo terrestre em sua cabine. Tomara que, mais do que ser mais um maravilhoso filme de animação, Wall.E possa cativar também seus infantes espectadores e os passe verdadeiramente a mensagem de que não precisamos estar dentro da baleia para começarmos a dar valor ao que temos. Nossa eutopia está acontecendo aqui e agora e cabe a nós fazer com que ela permaneça assim.

Para finalizar, de acordo com Hugo Gernsback, “Por ‘ciência-ficção’, eu me refiro ao tipo de história de Júlio Verne, H. G. Wells e Edgar Allan Poe: um romance encantador combinado com um fato científico e uma visão profética […] Essas histórias extraordinárias não apenas rendem uma leitura interessante […] elas sempre são instrutivas. Elas fornecem conhecimento […] numa forma muito palatável […] Novas aventuras retratadas para nós na ciência-ficção de hoje não são completamente impossíveis de concretização amanhã […]”. O que estamos esperando?

Ficha Técnica

Título: WALL·E (Original)
Ano de Produção: 2008
Dirigido por: Andrew Stanton
Estreia: 27 de Junho de 2008 (Brasil)
Duração: 98 minutos
Classificação: L — Livre para todos os públicos
Gênero: Animação
Países de Origem: EUA

Referências Bibliográficas

RÉGIS, Fátima. Nós, ciborgues: tecnologias da informação e subjetividade homem-máquina. Curitiba: Editora Champagnat, 2011.

WEGNER, Phillipe E. Imaginary Communities: Utopia, The Nation, and the Spatial Histories of Modernity.

http://www.adorocinema.com/filmes/filme-123734/criticas-adorocinema/

http://www.imdb.com/title/tt0910970/

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