A modernização das antigas profissões

O mercado de trabalho gira em torno de uma crise, que traz instabilidade em diversas áreas e profissões. Segundo a Confederação Nacional da Indústria, o aumento do custo para manter empresas nos últimos anos se eleva com a atual crise financeira. Algumas profissões existem há muito tempo e, hoje, a necessidade de se renovar é maior. Os trabalhos manuais são exercidos há séculos em todo o mundo e precisam se reinventar para manter e atrair novos clientes. O fato seria um dos motivos para a expansão do empreendedorismo no Brasil.

Segundo o Serviço Brasileiro de Apoio às Micro e Pequenas Empresas (Sebrae), foram criadas 11 milhões de empresas no Brasil nos últimos anos por pessoas que precisavam de trabalho ou largaram tudo para atuar no que gostam. A inovação e sofisticação das profissões mais tradicionais estão cada vez mais em alta e é comum vermos os trabalhadores modificando os serviços que oferecem. O ofício de barbeiro, por exemplo, é alvo de uma transformação com as novidades da modernidade. Já passou a época em que se preocupar com a aparência só fazia parte do universo feminino. O público masculino se rendeu aos hábitos que visam beleza e bem-estar.

Conforme a ABF — Associação Brasileira de Franchising, o segmento de saúde, beleza e bem-estar teve crescimento médio de 10% na última década, chegando a atingir um faturamento de R$ 100 bilhões, sendo que 30% desse valor vem do público masculino. Atentos à vontade do homem em cuidar mais da beleza, antigos barbeiros e cabeleireiros têm criado novas e personalizadas barbearias, com o objetivo de desenvolver um serviço diferenciado. “É bom ver a mudança nos homens. Aqui o tratamento e o serviço que eles recebem é diferente. Sinto que saem daqui muito satisfeitos e com a autoestima renovada. Isso também nos deixa muito satisfeitos. ”, afirma o barbeiro Yan Oliveira, de 21 anos.

Os serviços oferecidos dentro das novas barbearias vão além do corte de cabelo e barbear. Os clientes procuram tratamentos estéticos e faciais, tais como cortes diferenciados para o cabelo, como coloração e alisamento. Além de atividades de beleza, as barbearias apostam em um atendimento com cortesia de bebidas, espaço de tatuagem, bar e restaurante, entre outros. Essa nova proposta de oferecer um atendimento de estética além dos padrões tradicionais aos homens está ganhando espaço. “Procuramos ser uma barbearia de uma forma moderna, cuidar melhor da estética dos homens. Eles se sentem mais à vontade em um ambiente próprio masculino”, explica Sandro Oliveira, empresário, dono de uma barbearia em Canoas.

O doce sabor de empreender

Bruna Longarai é proprietária de duas lojas que levam seu nome, uma em Porto Alegre e outra em Canoas.

Com toda a dificuldade existente no atual mercado de trabalho, há pessoas que buscam formas de complementar o faturamento mensal através da venda de produtos gastronômicos. É o caso de Bruna Tossi Longarai, que começou a vender trufas pela necessidade de aumentar a renda no período em que saía de casa e ingressava na faculdade. Vendendo as trufas na faculdade, aos 19 anos, a doceira se surpreendeu com o sucesso das vendas e com o aumento da renda.

Em julho de 2016, Bruna inaugurou a primeira loja em Porto Alegre e, logo após, em novembro, abriu a filial em Canoas. Hoje, a empreendedora trabalha em cima da parte de fornecedores e de inovação da microempresa. Durante a semana, o comando é feito por meio de ligações e do WhatsApp; já aos fins de semana, Bruna está nas lojas para administrar pessoalmente as vendas. Apesar de toda a agitação da rotina, do trabalho de segunda a segunda, e da filha de dois meses, a confeiteira trabalha com o que gosta e aposta na inovação:

“Eu e minha equipe buscamos sempre inovar. Toda semana, eu procuro colocar algum produto novo, ou o mesmo produto, porém com um sabor novo, pois quando fizemos o que amamos e organizamos a questão interna, conseguimos atender melhor nossos clientes”.

Inovação parece ser a palavra que caracteriza os micro empreendimentos dos últimos tempos. Segundo a mestre em Administração de Empresas e professora da PUC-Rio, Patricia Itala, após uma era de padronização da oferta de bens e serviços, houve uma reviravolta no sentido oposto. Há uma demanda por serviços individualizados:

“Acredito que a geração Y, por ter sido bastante protegida e mimada pelos pais, representa este tipo de novo consumidor, que se acha especial e demanda atendimento igualmente especial”, argumenta.

Esta mesma exigente geração Y tem modificado também o atual mercado de trabalho. Décadas atrás, era difícil imaginar que trabalhos manuais como o de confecção e venda de doces, barbeiros ou cozinheiros, seriam profissões almejadas por jovens com altos níveis de formação. “Apesar das áreas possuírem baixa especialização, os jovens estão criando diferenciais e gourmetizando itens que no passado eram mais baratos e menos sofisticados”, afirma Patricia.

Fatores como a limitação da liberdade de ação e atuação, dificuldade de ascensão profissional e falta de diversidade, fazem com que estes jovens acabem por evitar estruturas organizacionais mais formais. Nesta nova lógica econômica, não existem mais empregos “bons” ou “ruins”, mas sim aqueles que satisfazem desejos profissionais e pessoais, ou não. Empreender surge como aspiração de dois em cada três jovens brasileiros, segundo recente pesquisa da Federação das Indústrias do Estado do Rio de Janeiro (Firjan).

As mudanças impostas pelo mercado

No contexto empresarial, o ato de inovar significa buscar caminhos e estratégias diferentes para atingir determinado objetivo em um negócio. Acompanhando novas tendências no ramo de alimentação, principalmente os novos modelos de venda de comida de rua surgidos nos Estados Unidos pós-crise de 2008, Fábio Wilkens, 31, apostou em uma modalidade de comércio que rapidamente viraria febre no Brasil, o Food Truck. Localizada no centro de Gravataí, a Social Kombi oferta bebidas e lanches práticos, porém o destaque da casa fica por conta do crepe francês.

O empreendimento de Fábio Wilkens é localizado na R. Ernesto Fonseca, número 42, no centro de Gravataí/RS.

Há alguns anos, quem circulava pelos arredores do local onde hoje localiza-se a Social Kombi, encontrava uma proposta de comida de rua bem diferente. Nada de crepes franceses ou lanches “sofisticados”. As ruas eram tomadas por carrinhos de cachorro quente ou de opções de cardápio que, em sua maioria, não excediam o preço de uma dezena de reais. Para o pesquisador do Instituto de Economia (IE) da Unicamp, Valter Palmieri Júnior, a transformação dos carrinhos em Food Trucks acontece pela necessidade de diferenciação de posição social, trata-se de um produto mais rebuscado, destinado a pessoas com um gosto mais refinado, declara Valter.

Segundo o sociólogo norte-americano Richard E. Ocejo, autor do livro Masters of Craft: Old Jobs in the New Urban Economy, as reconfigurações na demanda de novos produtos e serviços acontecem, dentre outros motivos, por causa do processo de gentrificação. O fenômeno refere-se à reestruturação dos espaços urbanos residenciais e comerciais ocasionada pela especulação imobiliária, resultando assim na compra de pequenas lojas e antigas residências por proprietários com maior poder aquisitivo. Portanto, segundo Ocejo, não há nova demanda de consumidor, mas novos consumidores que forçam a economia local a reestruturar-se segundo novos padrões de consumo.

Processo de gentrificação ilustrado em 4 frames. Foto: Reprodução Internet

Segundo o Global Entrepeneuship Monitor (GEM), a maioria dos pequenos negócios no Brasil oferece produtos muito simples, principalmente, voltados ao atendimento das necessidades básicas do mercado interno. Ainda, segundo o GEM, a “qualidade” do contingente de empreendedores brasileiros é inferior à dos demais países, quando considerados itens como inovação e competividade. O Global Entrepeneuship Index, que mede a qualidade do empreendedorismo, confirma a baixa qualidade do empreendedorismo no Brasil, ao classificá-lo na 98º colocação, em um ranking de 137 países.

Nem tudo é fácil no começo de uma empresa. Até mesmo Luiza Trajano, proprietária da rede de lojas Magazine Luiza , em entrevista ao Estadão, declarou que há dificuldades com a burocracia e com o crédito inicial necessário para abrir uma empresa. Com uma perspectiva boa para o futuro, Luiza vê nos empreendedores um novo mercado a ser explorado: “ Ações como o Simples e o Microempreendedor Individual, que possibilitam a legalização e inclusão de milhares de pessoas”, destaca a empresária.

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