Homofobia no futebol: o ódio posto em prática nas arquibancadas

Gritos de “bicha”, perseguição a jogadores, cantos homofóbicos, manifestações de ódio. Como os estádios brasileiros tornaram-se palco para a homofobia.

Por Diego Silveira

O jogo era Corinthians x Internacional, válido pela Copa do Brasil de 2017. Marcelo Lomba, heterossexual, se prepara para a cobrança de mais um tiro de meta na partida. Ao encostar o pé na bola, ouve-se dos mais variados setores da Arena Corinthians um grito ensurdecedor de “bicha!”, vindo dos corintianos. Tal grito aos goleiros, muito comum em estádios paulistas, é herança da última Copa do Mundo — mexicanos possuem essa tradição e a trouxeram para o Brasil.

Porém, práticas homofóbicas nos estádios não se resumem a um “costume paulista”. Estendem-se a todos os estados brasileiros, geralmente direcionados a rivais. No Rio Grande do Sul, colorados chamam gremistas de “gazelada”. Gremistas se referem a colorados como “coloridas”. E em todos os estados este fenômeno se repete.

Casos recentes no futebol brasileiro demonstram isto. Em maio de 2017, torcedores do Guarani protestaram contra a contratação do volante Richarlyson, pela sua suposta orientação sexual. Richarlyson nunca assumiu publicamente ser homossexual. Torcedores em uma moto atiraram pelo menos 5 bombas no estádio Brinco de Ouro contrariados com a aquisição do jogador.

Richarlyson assina contrato com o Guarani. Foto: Gabriel Ferrari

Na partida entre Internacional x ABC no Estádio Beira-Rio válida pelo Campeonato Brasileiro da Série B, uma bandeira com as cores LGBT foi queimada no pátio do estádio colorado.

Para o Mestre em Educação pela UFRGS e estudioso dos fenômenos homofóbicos no esporte, Gustavo Bandeira isto se justifica pela necessidade de reafirmação da masculinidade dentro destes espaços. “Os esportes, em geral, e o futebol em específico acabam valorizando de maneira demasiada as construções de masculinidades. Na nossa cultura e na maioria das culturas contemporâneas, uma masculinidade “adequada” só faz sentido se não fugir da heterossexualidade.” afirma.

“E a principal estratégia para garantir essa heterossexualidade é marcar na identidade do outro, do diferente aquilo que eu não sou. Por isso conteúdos homofóbicos são tão recorrentes.” completa Bandeira.

Sobre os cânticos homofóbicos nos estádios brasileiros, Gustavo Bandeira afirma que “fica evidente que a construção de masculinidade se faz a partir de dois personagens antagônicos: a nossa torcida e a torcida deles. A torcida deles acaba sendo a depositária de tudo de ruim que não queremos para nossa masculinidade. Ela é covarde, sexualmente passiva, não incentiva tanto como a nossa, tem medo de brigar, não bebe tanto como nós.” explica.

Os cânticos homofóbicos dentro das torcidas brasileiras, especialmente no Rio Grande do Sul é uma realidade presente e costumeira de muito tempo. Na torcida do Inter, por exemplo, há cânticos que problematizam a existência da torcida organizada Coligay (do Grêmio), nos anos 70: “É o clube da coligay(…) essa mancha nunca iremos esquecer”.

Lueci Silveira, participante do movimento Povo do Clube do Internacional, acredita que o “fator Coligay” naturaliza ainda mais as práticas homofóbicas dentro da torcida colorada. “A homofobia é algo muito presente também no Beira-Rio, agravada pelo fato de ter existido uma torcida organizada de homossexuais no nosso principal rival. Dentro do folclore da rivalidade Grenal, ser gay é coisa de gremista. Isso se expressa em diversos cantos da torcida.” afirma.

Coligay: Uma história de resistência

Divulgação — LIBRETOS

No ano de 1977, em pleno período de Ditadura Militar, surge em Porto Alegre e no bairro da Azenha um movimento que torna-se um símbolo de resistência no esporte. A torcida Coligay, do Grêmio, notabilizou-se pela alegria que levava aos estádios apesar dos nítidos olhares desconfiados dos tricolores e das gozações dos colorados.

A Coligay deu as caras pela primeira vez em um domingo de Páscoa, em um jogo de Campeonato Gaúcho. E deu pé quente: vitória tricolor pelo placar de 2x1, frente ao Santa Cruz. Curiosamente, a criação da torcida representou uma retomada ao cominho dos títulos para o Grêmio: no mesmo ano, o time gremista quebraria uma hegemonia de oito anos do Inter, sagrando-se campeão estadual.

No ano de 2014, foi lançado o livro Coligay: Tricolor e de Todas as Cores, do jornalista, escritor e gremista Léo Gerchmann. No livro, ele relata a história da torcida e seu pioneirismo dentro do futebol gaúcho e brasileiro. Léo Gerchmann afirma que a torcida foi acolhida pelo clube, que forneceu inclusive suporte dentro do Estádio Olímpico para a organizada guardar seus materiais. “O livro sobre a Coligay é uma grande reportagem contando a linda página gremista de ter aberto as portas para a diversidade e o respeito às diferenças. E tudo isso ocorreu em plena ditadura militar, o que só valoriza ainda mais essa sadia ousadia.” salienta Gerchmann.

Recentemente na partida entre Grêmio x Deportes Iquique válida pela Libertadores deste ano, os 40 anos da Coligay foram lembrados nas cadeiras superiores da Arena.

Foto: Bruno Zaltzmann

“Cada vez fica mais claro aos gremistas que a Coligay é motivo de orgulho intenso, e aos colorados que o eventual deboche é um tiro no próprio pé, pois a diversidade é um valor essencialmente humano, e preconceitos como a homofobia são justamente o oposto disso.” completa Gerchmann.

Gustavo Bandeira, que é gremista, afirma que por muito tempo, o Grêmio e sua torcida tentaram “esconder” a Coligay. “É fácil perceber que existiu um forte investimento do clube em apagar essa página da história da torcida do Grêmio. Comecei a ouvir falar da torcida com mais frequência apenas nesta década. Até então era um assunto proibido na torcida do Grêmio e, talvez ainda seja.” explica.

A visão de um homossexual sobre o futebol

A masculinidade exacerbada no futebol, referida anteriormente, é um repelente natural para os homossexuais. Christian Gonzatti, 24 anos, homossexual assumido é mestrando em Ciências da Comunicação e formado em Publicidade e Propaganda. Em um texto de sua autoria de título “Por que eu não gosto de futebol?”, publicado na página Diversidade Nerd no Facebook, ele conta vários aspectos que o fizeram afastar-se do esporte.

Ele cita o exemplo do próprio pai, que o forçava a gostar de futebol e ter algum time. Era geralmente o último a ser escolhido para as partidas na escola. Ao ser indagado se era gremista ou colorado, ele observa que sua resposta seria motivo de deboche por alguma parte da classe: caso se assumisse gremista, por exemplo, estes seriam zombados pelos colorados da turma. O texto completo pode ser conferido aqui: http://bit.ly/2sS5e6R.

Christian não possui nenhum tipo de relação com o esporte hoje em dia. Ele conta que não convive com heterossexuais que são fãs de algum time, devido a esses eventos marcantes no Ensino Médio e o que considerou como “signos de masculinidade impostos ao meu corpo, a partir do futebol”.

Ao ser indagado sobre iniciativas como as da Coligay, ele responde que considera essas práticas fundamentais para o esporte e para a sociedade. “Considero que são iniciativas que devem acontecer para desmistificar a masculinidade compulsória nesses espaços futebolísticos.” afirma. “Acho importante também iniciativas de mulheres, como existe no Inter, uma torcida organizada com viés feminista (a torcida Força Feminina Colorada, originada em 2009). (…)É a partir dessa ocupação de pessoas à margem dentro do futebol que as coisas podem se modificar” finaliza.

A relação entre racismo e homofobia dentro da torcida colorada

O Internacional sempre se caracterizou como sendo um clube de raízes populares dentro do futebol porto-alegrense e gaúcho. Inicialmente fundado com o intuito de receber a todos e a todas sem qualquer distinção, o clube do Beira-Rio consolidou sua torcida a partir dos anos 40 principalmente nos bairros negros de Porto Alegre. A visível preferência da população negra da capital pelo Inter em relação ao Grêmio, culminou em uma série de prosseguimentos.

Uma parte da torcida gremista passou a chamar o Inter de “clube dos negrinhos” e mais à frente, utilizou o termo “macaco” para referir-se aos colorados de forma pejorativa. Esse termo é utilizado até os dias de hoje como “apelido” aos colorados, que por sua vez, assimilaram a alcunha como forma de defesa.

O mascote Escurinho, do projeto Interagir ligado ao Inter. O personagem já foi abolido. Foto: Wesley Santos

Por outro lado, em resposta ao “macaco”, colorados passaram a referir-se aos gremistas como “gazelas”, devido principalmente à existência da Coligay. O termo “gaymista” também é altamente utilizado.

A reportagem fez um questionamento sobre essa questão em um grupo do Facebook relacionado ao Internacional. Chamar um colorado de macaco e um gremista de gazela tem a mesma gravidade? As respostas foram diversas.

Selecionamos algumas respostas:

A postagem teve 99 respostas ao todo e muita discussão. Georgio Motta tem 34 anos, é torcedor colorado e faz parte do movimento Inter Antifascista. Sobre o assunto homofobia/racismo dentro do Inter, a reportagem questionou se tal fator tornaria impossível uma espécie de “Coligay colorada”. “Infelizmente, hoje no Beira-Rio teria muita resistência de uma boa parte da torcida (uma torcida gay). Minha opinião sobre ter uma torcida gay é não ter uma torcida gay, não ter uma torcida somente de mulher, somente de branco, somente de negro e etc. (…) Luto por uma torcida heterogêneoa e diversificada com respeito mútuo entre todos os componentes, uma torcida que não fecha os olhos com os problemas do portão para fora do estádio.” completa.

Lueci Silveira, do Povo do Clube vê avanços da direção colorada em relação ao combate à discriminação. “A gestão deu alguns sinais de que pode se abrir mais para o enfrentamento da homofobia. Recentemente acolheu um grupo de torcedores que teve uma bandeira com as cores do arco-íris queimada nas dependências do estádio. Esse episódio gerou uma reunião para tratar de formas possíveis para enfrentar o preconceito. Ainda é muito inicial, mas já há a visão em setores importantes da gestão de que a homofobia deve ser combatida.” ressalta.

Os movimentos antifascistas

Recentemente, dentro do futebol brasileiro surgiram no Facebook movimentos denominados Antifascistas que lutam contra o chamado futebol moderno, a elitização nos estádios e qualquer prática preconceituosa dentro do futebol brasileiro. No Rio Grande do Sul, ganham destaque os coletivos Grêmio Antifascista (8248 curtidores), Inter Antifascista (4754 curtidores) e Xavantes Antifascistas (1063 curtidores).

Administradores das páginas relacionadas a Brasil de Pelotas e Internacional responderam à reportagem sobre a importância desses movimentos dentro do ambiente futebolístico e a luta contra a homofobia nos estádios. “Quando nos declaramos antifascistas somos uma só bandeira, não há rivalidade. A nossa luta é contra os opressores, o inimigo é o mesmo. Primeiramente, igualdade a todos, depois vamos para o jogo.” afirma um integrante do coletivo Xavantes Antifascistas, que preferiu não se identificar. Para Giorgio Motta, “os movimentos antifascistas vieram para desconstruir o ‘sempre foi assim’. Viemos questionar e mostrar que a cultura se movimenta, a cultura não é estática e, principalmente, que o campo de futebol é um lugar de todos.” finaliza.

Os principais movimentos antifascistas dentro do futebol gaúcho.

Sobre a questão da homofobia dentro dos estádios, tanto no Bento Freitas, quanto no Beira-Rio, os dois entrevistados referidos têm a mesma visão. “O futebol é apenas reflexo da sociedade. A ascensão da extrema-direita no mundo aparece nas arquibancadas também. Acredito que movimentos como o nosso, que cresce a cada dia, poderá abrir os olhos daqueles que têm mais tendência a se alienar.” afirmam os Xavantes Antifascistas. “O estádio de futebol foi e é um espaço misógino, homofóbico, racista e elitista. (…)Quero dizer que temos que fazer protestos contra a homofobia, o racismo, o sexismo, também temos que estar ligados sobre política.” afirma Giorgio Motta.

O papel da imprensa

As práticas homofóbicas dentro dos estádios são naturalizadas desde sempre, conforme já foi relatado. E qual o papel das mídias para a conscientização das pessoas e por consequência dos torcedores? A reportagem conversou com o jornalista e comunicador Fabiano Baldasso, que atualmente é o jornalista mais seguido do Rio Grande do Sul para falar sobre o assunto. “É um problema social. E isso vem muito por conta da ausência de penalização à homofobia, por não ser crime. O racismo é crime e quem o comete pode ser preso por isso. Isso não acontece com a homofobia, que ainda consta como um xingamento e isso tem que mudar” afirma.

Perguntado se a imprensa em geral por muito tempo fez vistas grossas à homofobia dentro dos estádios de futebol, principalmente em relação racismo que sempre foi largamente combatido, Baldasso é enfático. “Durante muito tempo se acreditou que o futebol era um lugar onde as pessoas pudessem extravasar e dizer coisas que elas não poderiam na sua vida usual. O que é um absurdo. Futebol é uma extensão da sociedade. E sim, durante muito tempo se fez vistas grossas a isso e também ao racismo. Acho que estamos nos dando conta que o estádio de futebol não é um lugar onde exista permissão para se fazer coisas e transgredir leis que em outros lugares não se possa transgredir” finaliza.O jogo era Corinthians x Internacional, válido pela Copa do Brasil de 2017. Marcelo Lomba, heterossexual, se prepara para a cobrança de mais um tiro de meta na partida. Ao encostar o pé na bola, ouve-se dos mais variados setores da Arena Corinthians um grito ensurdecedor de “bicha!”, vindo dos corintianos. Tal grito aos goleiros, muito comum em estádios paulistas, é herança da última Copa do Mundo — mexicanos possuem essa tradição e a trouxeram para o Brasil.

Porém, práticas homofóbicas nos estádios não se resumem a um “costume paulista”. Estendem-se a todos os estados brasileiros, geralmente direcionados a rivais. No Rio Grande do Sul, colorados chamam gremistas de “gazelada”. Gremistas se referem a colorados como “coloridas”. E em todos os estados este fenômeno se repete.

Casos recentes no futebol brasileiro demonstram isto. Em maio de 2017, torcedores do Guarani protestaram contra a contratação do volante Richarlyson, pela sua suposta orientação sexual. Richarlyson nunca assumiu publicamente ser homossexual. Torcedores em uma moto atiraram pelo menos 5 bombas no estádio Brinco de Ouro contrariados com a aquisição do jogador.

Richarlyson assina contrato com o Guarani. Foto: Gabriel Ferrari

Na partida entre Internacional x ABC no Estádio Beira-Rio válida pelo Campeonato Brasileiro da Série B, uma bandeira com as cores LGBT foi queimada no pátio do estádio colorado.

Para o Mestre em Educação pela UFRGS e estudioso dos fenômenos homofóbicos no esporte, Gustavo Bandeira isto se justifica pela necessidade de reafirmação da masculinidade dentro destes espaços. “Os esportes, em geral, e o futebol em específico acabam valorizando de maneira demasiada as construções de masculinidades. Na nossa cultura e na maioria das culturas contemporâneas, uma masculinidade “adequada” só faz sentido se não fugir da heterossexualidade.” afirma.

“E a principal estratégia para garantir essa heterossexualidade é marcar na identidade do outro, do diferente aquilo que eu não sou. Por isso conteúdos homofóbicos são tão recorrentes.” completa Bandeira.

Sobre os cânticos homofóbicos nos estádios brasileiros, Gustavo Bandeira afirma que “fica evidente que a construção de masculinidade se faz a partir de dois personagens antagônicos: a nossa torcida e a torcida deles. A torcida deles acaba sendo a depositária de tudo de ruim que não queremos para nossa masculinidade. Ela é covarde, sexualmente passiva, não incentiva tanto como a nossa, tem medo de brigar, não bebe tanto como nós.” explica.

Os cânticos homofóbicos dentro das torcidas brasileiras, especialmente no Rio Grande do Sul é uma realidade presente e costumeira de muito tempo. Na torcida do Inter, por exemplo, há cânticos que problematizam a existência da torcida organizada Coligay (do Grêmio), nos anos 70: “É o clube da coligay(…) essa mancha nunca iremos esquecer”.

Lueci Silveira, participante do movimento Povo do Clube do Internacional, acredita que o “fator Coligay” naturaliza ainda mais as práticas homofóbicas dentro da torcida colorada. “A homofobia é algo muito presente também no Beira-Rio, agravada pelo fato de ter existido uma torcida organizada de homossexuais no nosso principal rival. Dentro do folclore da rivalidade Grenal, ser gay é coisa de gremista. Isso se expressa em diversos cantos da torcida.” afirma.

Coligay: Uma história de resistência

Divulgação — LIBRETOS

No ano de 1977, em pleno período de Ditadura Militar, surge em Porto Alegre e no bairro da Azenha um movimento que torna-se um símbolo de resistência no esporte. A torcida Coligay, do Grêmio, notabilizou-se pela alegria que levava aos estádios apesar dos nítidos olhares desconfiados dos tricolores e das gozações dos colorados.

A Coligay deu as caras pela primeira vez em um domingo de Páscoa, em um jogo de Campeonato Gaúcho. E deu pé quente: vitória tricolor pelo placar de 2x1, frente ao Santa Cruz. Curiosamente, a criação da torcida representou uma retomada ao cominho dos títulos para o Grêmio: no mesmo ano, o time gremista quebraria uma hegemonia de oito anos do Inter, sagrando-se campeão estadual.

No ano de 2014, foi lançado o livro Coligay: Tricolor e de Todas as Cores, do jornalista, escritor e gremista Léo Gerchmann. No livro, ele relata a história da torcida e seu pioneirismo dentro do futebol gaúcho e brasileiro. Léo Gerchmann afirma que a torcida foi acolhida pelo clube, que forneceu inclusive suporte dentro do Estádio Olímpico para a organizada guardar seus materiais. “O livro sobre a Coligay é uma grande reportagem contando a linda página gremista de ter aberto as portas para a diversidade e o respeito às diferenças. E tudo isso ocorreu em plena ditadura militar, o que só valoriza ainda mais essa sadia ousadia.” salienta Gerchmann.

Recentemente na partida entre Grêmio x Deportes Iquique válida pela Libertadores deste ano, os 40 anos da Coligay foram lembrados nas cadeiras superiores da Arena.

Foto: Bruno Zaltzmann

“Cada vez fica mais claro aos gremistas que a Coligay é motivo de orgulho intenso, e aos colorados que o eventual deboche é um tiro no próprio pé, pois a diversidade é um valor essencialmente humano, e preconceitos como a homofobia são justamente o oposto disso.” completa Gerchmann.

Gustavo Bandeira, que é gremista, afirma que por muito tempo, o Grêmio e sua torcida tentaram “esconder” a Coligay. “É fácil perceber que existiu um forte investimento do clube em apagar essa página da história da torcida do Grêmio. Comecei a ouvir falar da torcida com mais frequência apenas nesta década. Até então era um assunto proibido na torcida do Grêmio e, talvez ainda seja.” explica.

A visão de um homossexual sobre o futebol

A masculinidade exacerbada no futebol, referida anteriormente, é um repelente natural para os homossexuais. Christian Gonzatti, 24 anos, homossexual assumido é mestrando em Ciências da Comunicação e formado em Publicidade e Propaganda. Em um texto de sua autoria de título “Por que eu não gosto de futebol?”, publicado na página Diversidade Nerd no Facebook, ele conta vários aspectos que o fizeram afastar-se do esporte.

Ele cita o exemplo do próprio pai, que o forçava a gostar de futebol e ter algum time. Era geralmente o último a ser escolhido para as partidas na escola. Ao ser indagado se era gremista ou colorado, ele observa que sua resposta seria motivo de deboche por alguma parte da classe: caso se assumisse gremista, por exemplo, estes seriam zombados pelos colorados da turma. O texto completo pode ser conferido aqui: http://bit.ly/2sS5e6R.

Christian não possui nenhum tipo de relação com o esporte hoje em dia. Ele conta que não convive com heterossexuais que são fãs de algum time, devido a esses eventos marcantes no Ensino Médio e o que considerou como “signos de masculinidade impostos ao meu corpo, a partir do futebol”.

Ao ser indagado sobre iniciativas como as da Coligay, ele responde que considera essas práticas fundamentais para o esporte e para a sociedade. “Considero que são iniciativas que devem acontecer para desmistificar a masculinidade compulsória nesses espaços futebolísticos.” afirma. “Acho importante também iniciativas de mulheres, como existe no Inter, uma torcida organizada com viés feminista (a torcida Força Feminina Colorada, originada em 2009). (…)É a partir dessa ocupação de pessoas à margem dentro do futebol que as coisas podem se modificar” finaliza.

A relação entre racismo e homofobia dentro da torcida colorada

O Internacional sempre se caracterizou como sendo um clube de raízes populares dentro do futebol porto-alegrense e gaúcho. Inicialmente fundado com o intuito de receber a todos e a todas sem qualquer distinção, o clube do Beira-Rio consolidou sua torcida a partir dos anos 40 principalmente nos bairros negros de Porto Alegre. A visível preferência da população negra da capital pelo Inter em relação ao Grêmio, culminou em uma série de prosseguimentos.

Uma parte da torcida gremista passou a chamar o Inter de “clube dos negrinhos” e mais à frente, utilizou o termo “macaco” para referir-se aos colorados de forma pejorativa. Esse termo é utilizado até os dias de hoje como “apelido” aos colorados, que por sua vez, assimilaram a alcunha como forma de defesa.

O mascote Escurinho, do projeto Interagir ligado ao Inter. O personagem já foi abolido. Foto: Wesley Santos

Por outro lado, em resposta ao “macaco”, colorados passaram a referir-se aos gremistas como “gazelas”, devido principalmente à existência da Coligay. O termo “gaymista” também é altamente utilizado.

A reportagem fez um questionamento sobre essa questão em um grupo do Facebook relacionado ao Internacional. Chamar um colorado de macaco e um gremista de gazela tem a mesma gravidade? As respostas foram diversas.

Selecionamos algumas respostas:

A postagem teve 99 respostas ao todo e muita discussão. Georgio Motta tem 34 anos, é torcedor colorado e faz parte do movimento Inter Antifascista. Sobre o assunto homofobia/racismo dentro do Inter, a reportagem questionou se tal fator tornaria impossível uma espécie de “Coligay colorada”. “Infelizmente, hoje no Beira-Rio teria muita resistência de uma boa parte da torcida (uma torcida gay). Minha opinião sobre ter uma torcida gay é não ter uma torcida gay, não ter uma torcida somente de mulher, somente de branco, somente de negro e etc. (…) Luto por uma torcida heterogêneoa e diversificada com respeito mútuo entre todos os componentes, uma torcida que não fecha os olhos com os problemas do portão para fora do estádio.” completa.

Lueci Silveira, do Povo do Clube vê avanços da direção colorada em relação ao combate à discriminação. “A gestão deu alguns sinais de que pode se abrir mais para o enfrentamento da homofobia. Recentemente acolheu um grupo de torcedores que teve uma bandeira com as cores do arco-íris queimada nas dependências do estádio. Esse episódio gerou uma reunião para tratar de formas possíveis para enfrentar o preconceito. Ainda é muito inicial, mas já há a visão em setores importantes da gestão de que a homofobia deve ser combatida.” ressalta.

Os movimentos antifascistas

Recentemente, dentro do futebol brasileiro surgiram no Facebook movimentos denominados Antifascistas que lutam contra o chamado futebol moderno, a elitização nos estádios e qualquer prática preconceituosa dentro do futebol brasileiro. No Rio Grande do Sul, ganham destaque os coletivos Grêmio Antifascista (8248 curtidores), Inter Antifascista (4754 curtidores) e Xavantes Antifascistas (1063 curtidores).

Administradores das páginas relacionadas a Brasil de Pelotas e Internacional responderam à reportagem sobre a importância desses movimentos dentro do ambiente futebolístico e a luta contra a homofobia nos estádios. “Quando nos declaramos antifascistas somos uma só bandeira, não há rivalidade. A nossa luta é contra os opressores, o inimigo é o mesmo. Primeiramente, igualdade a todos, depois vamos para o jogo.” afirma um integrante do coletivo Xavantes Antifascistas, que preferiu não se identificar. Para Giorgio Motta, “os movimentos antifascistas vieram para desconstruir o ‘sempre foi assim’. Viemos questionar e mostrar que a cultura se movimenta, a cultura não é estática e, principalmente, que o campo de futebol é um lugar de todos.” finaliza.

Os principais movimentos antifascistas dentro do futebol gaúcho.

Sobre a questão da homofobia dentro dos estádios, tanto no Bento Freitas, quanto no Beira-Rio, os dois entrevistados referidos têm a mesma visão. “O futebol é apenas reflexo da sociedade. A ascensão da extrema-direita no mundo aparece nas arquibancadas também. Acredito que movimentos como o nosso, que cresce a cada dia, poderá abrir os olhos daqueles que têm mais tendência a se alienar.” afirmam os Xavantes Antifascistas. “O estádio de futebol foi e é um espaço misógino, homofóbico, racista e elitista. (…)Quero dizer que temos que fazer protestos contra a homofobia, o racismo, o sexismo, também temos que estar ligados sobre política.” afirma Giorgio Motta.

O papel da imprensa

As práticas homofóbicas dentro dos estádios são naturalizadas desde sempre, conforme já foi relatado. E qual o papel das mídias para a conscientização das pessoas e por consequência dos torcedores? A reportagem conversou com o jornalista e comunicador Fabiano Baldasso, que atualmente é o jornalista mais seguido do Rio Grande do Sul para falar sobre o assunto. “É um problema social. E isso vem muito por conta da ausência de penalização à homofobia, por não ser crime. O racismo é crime e quem o comete pode ser preso por isso. Isso não acontece com a homofobia, que ainda consta como um xingamento e isso tem que mudar” afirma.

Perguntado se a imprensa em geral por muito tempo fez vistas grossas à homofobia dentro dos estádios de futebol, principalmente em relação racismo que sempre foi largamente combatido, Baldasso é enfático. “Durante muito tempo se acreditou que o futebol era um lugar onde as pessoas pudessem extravasar e dizer coisas que elas não poderiam na sua vida usual. O que é um absurdo. Futebol é uma extensão da sociedade. E sim, durante muito tempo se fez vistas grossas a isso e também ao racismo. Acho que estamos nos dando conta que o estádio de futebol não é um lugar onde exista permissão para se fazer coisas e transgredir leis que em outros lugares não se possa transgredir” finaliza.

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