Jornalismo digital: adaptações em tempos de crise

Política, economia e jornalismo. As crises pelas quais o Brasil passa abrangem diversas esferas da sociedade. São inúmeras profissões e milhares de trabalhadores atingidos. A cada dia, sobe o número de desempregados no país, e para os veículos de comunicação, a realidade não é diferente.

Nos últimos cinco anos, a imprensa começou a noticiar a própria tragédia: a demissão em massa de profissionais da área e o fechamento de diversas emissoras de rádio e jornais. De acordo com o projeto produzido pela agência Volt Data Lab, A Conta dos Passaralhos, o ano de 2015 foi o mais complicado para os jornalistas. O estudo levantou dados entre janeiro de 2012 e junho de 2017 em que foram registradas 7.993 demissões nos veículos de comunicação, sendo 1.867 apenas de jornalistas.

JORNALISMO DIGITAL COMO POSSIBILIDADE

O jornalismo digital já é uma possibilidade para os impressos, visto que o público consome cada vez mais conteúdo online. A praticidade de ler informações por smartphones, tablets e notebooks faz com que os veículos centralizem as notícias nas plataformas digitais.

O jornal gaúcho Zero Hora conta com 87 mil assinaturas no digital. O investimento é uma forma de se adequar à mudança de comportamento do usuário. Segundo a Diretora de Redação dos Jornais do Grupo RBS, Marta Gleich, o site recebe muito mais publicações que o jornal impresso. “O digital tem todas as possibilidades da multimídia. Muitas matérias têm vídeos, áudios, infográficos animados e galerias de fotos. Isso o papel não possibilita”.

Para que tenha sucesso na internet, a matéria precisa ser divulgada nas redes sociais, e ZH tem um grupo de profissionais que trabalha apenas com isso. Esse engajamento permite maior interatividade com o público e análise de preferências. Na redação, também há softwares que contabilizam os acessos no site. Com isso, é possível traçar o perfil do leitor e trabalhar nas métricas. “O digital, em vez de limitar ou restringir, faz com que o jornalismo se desdobre e chegue a mais pessoas”, acrescenta Marta.

O editor-chefe do Diário de Canoas, Djalma Júnior reconhece os benefícios da plataforma, mas acredita que a maioria dos veículos não consegue encontrar uma forma de se manter apenas com o digital “Nós temos um bom retorno dos nossos leitores nas redes sociais, mas é difícil fazer publicidade no online. Isso ainda não chama tanta atenção quanto no impresso”.

Laura Medina e o YouTube

Enquanto os jornais impressos se esforçam para se estabilizar no meio digital, profissionais recém-formados e jornalistas experientes estão procurando emprego longe dos grandes veículos. O trabalho autônomo proporciona mais liberdade e até mesmo comodidade, muitas vezes pelo fato de se trabalhar em casa.

A jornalista Laura Medina atuou na televisão durante 30 anos, quinze deles na RBS TV. Na emissora, foi editora-chefe e apresentadora do programa Vida e Saúde por 12 anos. Laura se despediu da TV aberta em abril de 2016, mas não parou de produzir o programa, apenas alterou a linguagem para adequá-lo a uma nova plataforma.

Atualmente, é no YouTube que a jornalista publica os vídeos semanais do programa. O canal Vida e Saúde com Laura Medina tem um público variado, já que a plataforma digital disponibiliza o conteúdo para diversos países. “Muita gente veio da televisão, mas eu também tenho um público novo. A maioria é mulheres de 30 a 60 anos. Algumas não têm familiaridade com o YouTube, então eu faço uma mobilização para que elas possam se inscrever no canal”.

Laura divide o programa com o jornalista Moisés Machado. O novo formato mistura humor e conscientização, trazendo uma introdução mais descontraída para as entrevistas com os especialistas. As chamadas do programa normalmente são na casa da jornalista. “A minha casa possibilita alguns cenários, e, além disso, é mais seguro”.

Mauro Dahmer e o jornalismo independente na Web

Assim como Laura, o comunicador Mauro Dahmer também saiu da televisão para se dedicar à web. Ele decidiu focar em projetos autorais após sair da MTV — veículo em que trabalhou por 12 anos. “A empresa começou cortando custos da redação, mas toda estrutura corporativa continuou cara. Isso levou os grandes veículos a perderem o espaço”.

Após sair da MTV, Mauro criou o canal Pense Novo TV para aproximar os jovens do então candidato a prefeito de São Paulo, Fernando Haddad. O canal foi alimentado antes das eleições municipais de 2012 com coberturas jornalísticas, programas ao vivo e documentários. Para formar a equipe, Mauro reuniu jornalistas como Bia Abramo (Folha de São Paulo) e Pedro Alexandre Sanches (Carta Capital). “Até ali não usavam jornalistas em campanhas políticas. Eles trabalhavam como publicitários. E eu, ao criar esse canal, dei espaço para eles exercerem sua função e noticiarem acontecimentos que não fossem ligados ao Haddad”.

O fechamento de jornais e o enxugamento das redações preocupam os profissionais que estão tendo dificuldades no mercado. Para amenizar essa situação, grupos de jornalistas realizam projetos para reintegrar os colegas. Um exemplo é o Reinventa Jornalismo, que promove encontros quinzenais na Associação Brasileira de Imprensa, no Rio de Janeiro. O objetivo dessas reuniões é incentivar a busca por novos rumos na carreira, trazendo jornalistas independentes para abordar assuntos como empreendedorismo e criatividade.

O projeto Reinventa pode ser conferido nesse link. O jornalista que tiver interesse no assunto pode se cadastrar na newsletter e receber conteúdo exclusivo sobre jornalismo independente.

Reportagem: David Ferrás, Michele Mueller, Mônica Chaves e Wesley Andriel