Mulheres no jornalismo: a trajetória de jornalistas na busca por reconhecimento

Reportagem de Amanda Iegli, Gabriela Rodrigues, Karoline Fernandes, Mariana Santos, Maria de Fátima Santos e Liliane Pazzini.

O mercado de trabalho dos jornalistas no Brasil é formado predominantemente por mulheres jovens. O perfil do jornalista brasileiro, pesquisa feita pela Fenaj (Federação Nacional dos Jornalistas) em 2012, mostra a diferença e similaridades de gênero entre os jornalistas. Atualmente, existem cerca de 145 mil jornalistas atuando no Brasil, 64% destes são mulheres. As jornalistas mulheres são a maioria em todas as faixas de até cinco salários mínimos, porém representam a minoria em todas as faixas acima disso. Ou seja, há mais mulheres na profissão, mas mesmo assim, os homens continuam ganhando mais do que as mulheres.

Nas redações de veículos de comunicação, a diferença é ainda maior. Foram entrevistados 1.226 jornalistas da mídia, 59,6% destes jornalistas são mulheres, que ocupando os mesmos cargos, recebem menos do que os homens quando a remuneração é acima de cinco salários mínimos.

Na mídia, as mulheres são a maioria até os 30 anos (67% são mulheres e 33% são homens). Mas conforme a idade aumenta, as jornalistas vão perdendo o espaço neste meio de trabalho.

A assessora de comunicação na Prefeitura de Porto Alegre Caren Moraes, conta que já sofreu preconceito no início da carreira por ser jovem e mulher, e afirma que já recebeu salário menor que colegas que desempenhavam a mesma função. Sobre o desemprego, acredita que é o cenário do momento para todas profissões: “A falta de oportunidades na profissão é um problema enfrentado por todos os profissionais”, aponta.

O jornalismo acaba refletindo a realidade do Brasil. Para a apresentadora do programa Nação da TVE, Fernanda Carvalho, o jornalismo é um mercado de trabalho qualquer outro, “para a TV, por exemplo, as pessoas querem um rosto bonito, mas por trás, chefiando e comandando, ainda são homens brancos que estão neste poder.”

Apesar das jornalistas mulheres ganharem menos do que os homens, a carga horária de ambos é a mesma. De acordo com a doutora em Comunicação e Informação pela UFRGS, Márcia Veiga, o jornalismo muitas vezes fortalece, de certa forma, conceitos machistas:

“Apesar de ter aumentado o número de mulheres, nós continuamos tendo as mulheres com menos poder, prestígio e com os salários baixos. Isso reproduz a sociedade brasileira como um todo. O jornalismo, muitas vezes, acaba reiterando valores machistas quando a maioria das fontes consultas são homens e não mulheres. Quando a maioria absoluta de colunistas de opinião são homens (brancos) e não mulheres”

Marcia comenta ainda que todos os dados mostram que a nossa sociedade é machista, racista e lgbtfóbica. E que isso significa que mesmo tendo a maior parte da população feminina, ainda sim, as mulheres não valorizadas em diversas áreas.

A jornalista e hoje produtora do programa Nação, Vera Cardoso, conta que durante sua passagem pela RBS, onde era coordenadora do setor de chamadas, sofreu com o preconceito vindo dos colegas por começar a exercer uma função, que até aquele momento, era realizada apenas por homens. “Quando resolvi aprender a operar a mesa, ser suíte, os homens riam. Ninguém queria me ensinar porque achavam que eu poderia competir com eles. Mas eu aprendi. Talvez eu tenha sido a primeira suite mulher do Rio Grande do Sul.”

No Rio Grande do Sul, hoje, 65 % dos jornalistas cadastrados são mulheres conforme dados do SINDIJORS. Para a vice-diretora do sindicato, Laura Rocha, essa mudança tem relação com a escolha, pois a mulher vem em constante batalha para conquistar sua visibilidade no mercado de trabalho em geral: “Como reflexo das lutas, a competência da mulher para assumir diferentes cargos está aparecendo em todas as funções como também no jornalismo”, destaca.

Mulheres negras no jornalismo

Segundo pesquisas realizadas pelo Ipea (Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada), as mulheres negras estão na base da pirâmide social, ou seja, são as que sofrem mais preconceito e discriminação. Além disso, são as que possuem os menores salários e as que menos alcançam as condições de trabalho. No jornalismo, não é diferente.

Dados do Perfil do jornalista brasileiro mostra que as mulheres negras no jornalismo recebem menos que os homens (brancos e negros) e as mulheres brancas. O jornalismo acaba expressando a sociedade em que ele é parte. De acordo com Márcia Veiga, “Os marcadores sociais de gênero, raça, sexualidade e classe vão nos mostrando quem tem mais acesso ao poder e ao prestígio e quem tem menos acesso. E nessa hierarquia de valores, as mulheres negras são as que estão mais na base da pirâmide. São as que menos têm prestígio e poder.”

Enquanto as mulheres brancas são 66,5% na faixa de até cinco salários mínimos, as mulheres negras são 78,3%. Para Vera Cardoso, “as mulheres negras são as mais discriminadas, as que possuem os salários mais baixos e as que exercem as funções menos valorizadas.”

Sobre a aparência, algo que é muito notável na área da comunicação, há um padrão a ser seguido por essas empresas. Mulheres devem ser bonitas, pele branca, roupa impecável etc., mas será mesmo que isso é o que aproxima o público? “Para a TV, os estereótipos ainda são os mesmos. Mulheres loiras, do olho claro, magras e altas. Aquele padrão brasileiro, que na verdade, não é brasileiro, mas que nós tanto admiramos. Nós somos de um país mestiço, com pessoas com uma estatura mediana e gordinhos, mas nós temos um estereótipo de TV completamente diferente.”, comenta Fernanda.

Mulheres no jornalismo esportivo e o assédio moral

Uma das pesquisas feitas pelo Sindicato dos Jornalistas do Distrito Federal, onde foram ouvidas 535 mulheres jornalistas, em 21 Estados brasileiros, mostrou que quase 80% das entrevistadas relataram ter sofrido assédio moral no ambiente de trabalho por parte de chefes ou colegas. O jornalismo esportivo é uma das áreas que mais se encontra relatos de jornalistas que sofreram algum tipo de assédio.

Em entrevista para “Rádio Central 3” a repórter, Mayra Siqueira, da Rádio CBN, enfatizou a maior parte do preconceito que sofre. Mayra atua como repórter de campo em grande parte do tempo: “Sinto muito mais preconceito de colegas de trabalho e de entrevistados do que por parte de torcedores de arquibancada. Gracinhas no estádio a gente ouve sempre, mas é muito triste perceber que seu colega dúvida e questiona a maneira como você conseguiu certa informação. O preconceito da própria imprensa com as mulheres que trabalham nesse meio é velado e muito mais forte do que o preconceito que vem das arquibancadas”.

Apesar de o jornalismo estar inserido no nosso cotidiano há diversos anos, e com todo esses avanços tecnológicos e culturais, é importante que haja debate sobra o lugar e papel da mulher no jornalismo, a fim de se desconstruir preconceitos.

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