Os desafios dos imigrantes na busca por emprego

Idioma é a principal barreria para a inserção de imigrantes no mercado de trabalho.

Em 2010, depois do terremoto no Haiti que devastou parte do país e deixou mais de 300 mil mortos, inúmeros haitianos migraram para o Brasil em busca de melhor qualidade de vida, condições de trabalho, com o intuito de ajudar a família. Porém, o Brasil não é destino apenas para os haitianos: imigrantes de diversos países, como Senegal, República Dominicana, Bolívia, Gana e Venezuela, chegam à procura de oportunidades.

Porto Príncipe: uma das regiões devastadas pelo terremoto. Fonte: Programa de Desenvolvimento das Nações Unidas. UN Photo/ Logan Abassi

Apenas em 2015, mais de 117 mil estrangeiros se mudaram ao Brasil — destes, 14,5 mil eram haitianos. Este ano (2017), o número de imigrantes no Rio Grande do Sul chega a 50 mil, sendo 8,5 mil haitianos, e 4,2 mil senegaleses, conforme dados do CIBAI (Centro Ítalo Brasileiro de Assistência e Instrução às Migrações). De acordo com a Polícia Federal, em Porto Alegre, existem 1,3 mil senegaleses e 1,8 mil haitianos. Dos senegaleses regularizados no país em agosto, 54,6% estão no estado, enquanto o número de haitianos equivale a 13%, segundo a PF.

Fonte: CIBAI

O principal destino é o interior do estado, onde há pouca mão de obra devido ao desinteresse da população local, que visa empregos melhores, e porque o custo de vida é mais baixo que o da capital, de acordo com o pesquisador Jurandir Zamberlam. Em 2014, Encantado, cidade fundada por italianos, já tinha 2% da população composta por migrantes da América Central e África.

Fonte: Polícia Federal

Na maioria das vezes, os imigrantes vêm de zonas urbanas, e muitos possuem formação, ou, pelo menos, Ensino Médio completo. Eles procuram as cidades do interior, como Caxias do Sul, Lajeado e Passo Fundo, que se tornaram pólos industriais e, em 2014, contaram com mais de 11 mil estrangeiros vivendo e trabalhando nessas, de acordo com o pesquisador Jurandir Zamberlam, autor do livro O processo migratório no Brasil e os desafios da mobilidade humana na globalização.

No Brasil, os imigrantes podem ganhar até seis vezes mais do que no país de origem. Mesmo assim, os estrangeiros sofrem com salários baixos e horas extras excessivas. Também há incidência de assédio moral e racismo. A barreira do idioma pode ser motivo de problema, já que os contratos muitas vezes não são traduzidos para a língua do trabalhador. E os que não tiveram a oportunidade de terem um emprego legal, acabam indo às ruas, atuando como vendedores, algo que se tornou comum atualmente nas ruas de Porto Alegre.

Para o haitiano Benjamin Rodnel, 29, a língua não é a principal dificuldade na busca por emprego, nem o fato de ser de outro país: “Eles [os empregadores] sempre dizem que o país está quebrado”, explica Rodnel se referindo às dificuldades financeiras nacionais.

Benjamin está no Brasil desde 2014 e foi ao CIBAI pela primeira vez em novembro deste ano. Ele é formado em Agronomia pela CASB (Centre d’Agriculture St. Barnabas, lit. Centro de Agricultura São Barnabas), mas não trabalha no ramo, pois não sabe onde procurar informações para validar o diploma. O haitiano atuava em uma empresa, mostrando como cultivar frutas e legumes nas florestas, mas está desempregado há um ano, e diz que deseja trabalhar em uma metalúrgica.

Eliane de Oliveira, agente de Ação Social do CIBAI, responsável por fazer a documentação e encaminhamentos, diz que cerca de 30 imigrantes chegam ao local por dia. No Centro, há cinco funcionários e em torno de dez voluntários, que são responsáveis por auxiliar nos currículos e os encaminham para o trabalho. A organização auxilia os imigrantes com roupas, comidas, produtos de higiene pessoal, todos vindos de doações, e também contam com a ajuda de colégios e universidades. Eliane diz que os hospitais Santa Casa e Mãe de Deus sempre têm vagas para os estrangeiros, em funções menores, e muitos lugares ligam todos os dias para oferecer empregos. Professores voluntários dão aulas de Português para os imigrantes duas vezes por semana: às quintas-feiras de manhã, e aos sábados, de manhã e de tarde.

O CIBAI promove ainda cursos, e, ano passado, foram oferecidas oficinas de manicure, pedicure e culinária. Eliane afirma que a principal dificuldade para os estrangeiros conseguirem emprego no Brasil é, de fato, a língua. Entretanto, existe ainda a presença do racismo, já que a maioria dos imigrantes vêm de países onde a maior parte da população é negra, como é o caso dos haitianos e senegaleses.

Em janeiro de 2016, foi anunciada a criação do Centro de Referência e Acolhida aos Imigrantes e Refugiados (Crai) em Porto Alegre. Mesmo com a primeira parcela do repasse do governo federal liberada, quase dois anos depois, nenhuma obra foi iniciada, e os imigrantes seguem sem um centro especializado para apoio. No local, caso fosse inaugurado, eles poderiam encontrar cursos de língua Portuguesa, capacitação profissional, oficinas de saúde e de cidadania e um ponto de encontro e de socialização.

O Ministério Público Federal ajuizou uma ação, em agosto de 2017, com pedido de liminar, para a criação e manutenção do Crai, já que o estado não cedeu um espaço para a instalação. O MPF ressalta que “o risco de ineficácia do provimento final existe porque se o Estado não agir com urgência, e cumprir com suas obrigações, a verba destinada ao projeto poderá ser retirada.”

Além da falta de um local próprio, o governo brasileiro não tem nenhum programa de apoio ao imigrante. Ademais, no dia 21 de novembro deste ano, entraram em vigor novas leis de migração, que, apesar de progressistas, tiveram artigos criticados por várias entidades de defesa dos direitos humanos, incluindo a Defensoria Pública da União, já que o que havia sido aprovado em maio foi praticamente desconsiderado. O novo decreto trouxe diversas distorções em relação à Lei, uma das mais criticadas foi a proibição de entrada lícita no país para procurar emprego. Agora, isso só será possível se o migrante apresentar um contrato de trabalho, algo praticamente impossível se analisarmos a situação na qual eles chegam aqui.

Khadim Gweye, 22, deixou a família em Dakar, capital do Senegal, por causa do medo, da insegurança e da pouca oferta de trabalho. Professor de Francês em um colégio da capital senegalesa e recebendo um baixo salário, ele resolveu ir para o Rio Grande do Sul há um ano e meio, em busca de novas oportunidades profissionais. “Eu vim para cá para ter um bom emprego, minha família ficou, estou sozinho aqui. Um amigo, também do Senegal, me ajuda muito a falar o português”, explica.

No intervalo do trabalho, Gweye conversa com a família e escuta música. Foto: Fabrício Fonseca

O primeiro emprego foi como ambulante pelas ruas do Centro de Porto Alegre. Porém, por conta de um gesto, o rapaz tímido ganhou visibilidade nacional. Em junho deste ano, um empresário comprou um par de cadarços da banca de Gweye, na Rua Doutor Flores, que custava cerca de R$ 6,00. Ao efetuar o pagamento da mercadoria, ele pensava ter entregue três notas de R$ 2,00, mas na verdade eram duas notas de R$ 2,00 e uma de R$ 100,00. O senegalês alertou o empresário e lhe devolveu o dinheiro. Depois da atitude, que foi parar nas redes sociais e teve dimensão nacional, ambos concederam entrevista a um programa de TV. Após o acontecimento, o imigrante foi convidado pelo diretor de uma rede de postos de combustíveis a trabalhar em uma das unidades, que fica localizada em um bairro nobre da capital gaúcha. “Eu fiquei contente com o emprego, faz quase quatro meses que trabalho aqui, gosto muito do que faço, as pessoas me tratam bem e não tive preconceito”, acrescenta.

Reportagem por: Eduarda Toledo, Fabrício Fonseca e Rafaela Hermes.