A inclusão das pessoas com deficiência intelectual no mercado de trabalho

A deficiência intelectual está presente em uma pequena parte da população. Mesmo sendo poucos, a inclusão ainda é um desafio. Alguns especialistas apontam que esta é uma realidade resultado da falta de capacitação do mercado em lidar com essas pessoas, mas outros afirmam que há um desinteresse por parte do profissional. Para além disso, existem aqueles que conquistaram o espaço no mercado de trabalho, através da determinação pessoal e apoio da família.

Daniel e Francine são auxiliares de farmácia no Hospital Mãe de Deus e ambos participaram do Jovem Aprendiz Inclusão, resultado de uma parceria entre o Senac e o Hospital. Após a capacitação, os jovens iniciaram as atividades como estagiários e depois efetivos na Instituição. Hoje, as histórias podem ser parecidas, mas cada um trilhou um caminho para chegar onde está atualmente.

Daniel Schmiedel, de 34 anos, vive com a mãe, Maria Elci Schmiedel, de 67. São uma equipe e apoiam um ao outro. Maria conta que sempre estimulou o filho a ser independente, porque acreditava no potencial dele. “Quando ele recebeu a proposta para trabalhar no Hospital Mãe de Deus, eu fiquei bem preocupada, como toda a mãe no primeiro emprego do filho. Achei que ele não iria querer, mas eu tive uma surpresa quando vi que ele já estava com tudo pronto para começar”.

Daniel já havia recebido outras propostas em empresas como redes de supermercados e Mc Donald’s, mas não se interessou por nenhuma delas. Desde 2015, Daniel passou a integrar as atividades da farmácia. “Eu faço bastante coisa e é bem legal.” Maria conta que depois que ele começou a trabalhar ganhou muita independência, seguida de iniciativas. “Antes era eu que tinha que resolver questões burocráticas no trabalho dele, mas logo ele já começou a ter iniciativa e resolvia tudo. Hoje, eu posso dizer que confio nele para tudo. É ele quem fecha a casa depois que eu vou dormir, é ele quem me dá remédio. Tudo isso eu percebi depois que ele começou a trabalhar”.

“Hoje eu posso dizer que confio nele para tudo. É ele quem fecha a casa depois que eu vou dormir, é ele quem me dá remédio. Tudo isso eu percebi depois que ele começou a trabalhar”
Daniel conta que o trabalho o deixou feliz e sempre promove mais desafios. “Eles me passam novas tarefas e acreditam mais em mim.” Paralelo ao trabalho, Daniel tem aulas de dança e natação, nas quais participa até de campeonatos. “Gosto muito de dançar, sempre invento uns passos diferentes e me saio muito bem. Quanto à natação, comecei a fazer recentemente e já vou participar de um campeonato”.
O profissional conheceu o Jovem Aprendiz através da ONG Chimarrão da Amizade, que é uma Instituição filantrópica que acolhe pessoas com deficiência intelectual. Na época, em 2014, foi feito um teste para saber quais seriam os beneficiados pelo programa.
Já Francine Aguirre Schwahn, de 29 anos, mora com a mãe, Maria Cristine Aguirre, de 60 anos, com o pai e o irmão. Em razão de Francine ter um jeito especial de aprender, a família sempre procurou ser um exemplo. “Se tornaram todos estudantes. Nós formamos uma rede de amparo, para ajudar a Fran”. Entretanto, Maria nunca deixou de lado a importância da Francine ter a sua independência.
“Gosto muito de trabalhar na farmácia.”
A primeira experiência de trabalho de Francine foi como estagiária na 27° Coordenadoria de Educação (CRE). Na época, Maria percebeu que tinham aberto 10 vagas de estágio na Instituição e, seguindo a lei, pelo menos uma, deveria ser ocupada por uma pessoa com deficiência. A Lei de número 8213/91 estabelece normas para efetivo, mas pode ser aplicada em estágios. Empresas com cem ou mais colaboradores precisam preencher entre 2% a 5% de das vagas com pessoas com deficiência (PCDs) ou beneficiários reabilitados.
Francine ficou um ano e meio na empresa antes de ser exonerada. Se este fosse um trabalho de carteira assinada, a Instituição estaria descumprindo o artigo 93 da Lei Federal de número 8.213/91, que prevê que a dispensa só pode ocorrer quando outro empregado com deficiência for contratado no lugar, mas, se tal substituição não ocorrer, cabe até a reintegração do empregado com os consectários legais.
Em 2013, Francine foi indicada pela Associação Legato — Centro Inclusivo de Artes: Aulas de Música, Dança e Teatro, para fazer parte do Jovem Aprendiz um ano depois.
“Gosto muito de trabalhar na farmácia. Todo mundo se ajuda, tenho muitos amigos e sou uma moça feliz na farmácia. Gosto das pessoas e amo ajudar as pessoa. Só não gosto quando falta medicamento para os pacientes”, explica.
Paralelo a isso, Francine é cozinheira e já fez vários cursos, inclusive consulta revistas e sites sobre o assunto. Namora há sete anos o Matheus.
“A vida faz tu aprenderes e a vida nos ensina a sermos mães”, conta Maria Cristina
Ambas as mães acompanharam de perto cada passo do filhos e filha, sempre ao lado, mas com um olhar no futuro. “Eu sempre digo para Fran que não sou eterna, ela não gosta de ouvir isso, mas eu preciso que ela consiga se virar sozinha, tenha a independência dela”, comenta Maria Cristina. Já Maria Elci complementa a afirmativa dizendo: “Não quero que sintam pena do meu filho, criei ele para ser forte e conquistar o espaço dele”.
Segundo a Pesquisa Nacional de Saúde, realizada pelo IBGE em 2013, no Brasil, 24% da população possui alguma deficiência. Desse número, 6,2% da população, maior de 18 anos, era PCD, sendo que 0,8% possuíam déficit intelectivo. Esta deficiência é caracterizada por ter limitações mentais e está ligada diretamente à inteligência e ao raciocínio. Mesmo com essas dificuldades, essas pessoas apresentam capacidade de ingressar no mercado de trabalho.
Em 2015, dados da Relação Anual de Informações Sociais destacaram que 403,2 mil pessoas com deficiência trabalhavam formalmente. Em relação ao ano de 2014, o número de empregos para os PCDs cresceu 5,75%.
Especificamente as pessoas com deficiência intelectual ocupam, segundo o Ministério do Trabalho, 32.144 postos de emprego formal no país. Em 2013, eram 25.332, e em 2014 subiu para 29.132. Essa evolução é resultado do cumprimento da lei de cotas nas empresas.
Para o advogado Marcelo Ribeiro, as empresas estão seguido essa norma. Entretanto, algumas instituições encontram dificuldade devido à qualificação de ensino dessas pessoas e de seus colaboradores em acolhê-los. “A inclusão do deficiente intelectual é bastante difícil, pois temos que, além de ensinar as atividades, ter paciência e pessoas que saibam lidar da forma correta”.
Um dos promotores de cursos profissionalizantes mais conhecidos no Rio Grande do Sul, o Senac atende diversas pessoas com deficiência intelectual, que são encaminhadas por empresas. Segundo Enehilde da Silva Mendes, pedagoga do Senac Comunidade, “as pessoas com síndrome de Down, a deficiência mais comum entre os alunos, geralmente são bem comunicativas, amorosos e têm bastante vontade de aprender e crescer no seu trabalho”.
Na empresa, o Programa Inclui atende colaboradores com deficiência, cria ações de inclusão e acompanhamento, promovendo o desenvolvimento e a interação com todo o quadro de pessoal. A coordenadora de Recursos Humanos do Senac-RS, Sabrina Petersen, lembra que as pessoas com deficiência na empresa, já somam 5% do quadro total de colaboradores. “o Senac-RS conta, hoje, com 104 colaboradores com deficiência no quadro de colaboradores, representando 5% do quadro total.”
De acordo com a Psicóloga e Conselheira do Conselho Regional de Psicologia, Mariane Teixeira Netto Rodrigues, “há uma barreira atitudinal do desconhecimento pela sociedade. Além disso, um desconhecimento de quem são essas pessoas, o que consequentemente gera preconceitos em relação a suas limitações e falta de percepção de suas diferentes possibilidades”.
Esse depoimento pode ser melhor exemplificado pela mãe da Francine, entrevistada no começo da reportagem. Ela relatou uma situação constrangedora que passou com a filha. “A inclusão no mercado de trabalho é ruim, eles querem alguém perfeito. Quando a Francine foi abrir uma conta no banco, eles estavam procurando alguém para trabalhar no banco também, mas, não poderia ser deficiente físico, intelectual ou de baixa visão. Isso não existe. Uma pessoa com deficiência sem deficiência não existe”, desabafa Maria Cristine Aguirre.
Para Mariane, o ideal seria que a sociedade respeitasse as diferenças e, através disso, oferecesse as condições de acessibilidade que garantam a participação de todos. “Mas a construção desse contexto ideal já iniciou, pois na medida em que as pessoas com deficiência estão acessando os espaços de trabalho, tendo renda como resultado do seu fazer, as famílias percebendo as possibilidades desses filhos e os colegas que compõem a empresa convivendo saudavelmente, os estigmas e preconceitos podem ser desconstruídos fazendo marcas positivas, que são levadas para além dos muros das empresas”, enfatiza.
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