A crítica feminista da beleza / O pessoal é político
Por Sheila Jeffreys em Beleza e misoginia

A crítica feminista da beleza
As críticas feministas da beleza vêm apontando que a beleza é uma prática cultural e é prejudicial às mulheres. Para escritoras como Andrea Dworkin a questão mais importante não é a extensão que cada mulher pode expressar agência e ‘’escolher’’ usar maquiagem, mas qual dano as práticas de beleza fazem às mulheres. Seu livro Mulher Odiando é um bom exemplo da crítica poderosa que feministas radicais têm feito da noção de beleza nos anos 70. Ela analisa a ideia de ‘’beleza’’ como um aspecto do modo que as mulheres são odiadas na cultura de supremacia masculina. Dworkin acusa a cultura de ódio às mulheres pelas ‘’mortes, violações e violências’’ feitas às mulheres e diz que as feministas ‘’olham por alternativas, formas de destruir a cultura que nós conhecemos, reconstruindo-a como nos imaginamos’’.
Dworkin vê as práticas de beleza como possuidoras de extensivos efeitos danosos para os
corpos e vidas das mulheres. Práticas de beleza não são apenas perda de tempo, caras e dolorosas para a autoestima, mas ainda mais:
Normas de beleza descrevem em termos precisos a relação que um indivíduo tem do próprio corpo dela. Eles descrevem a mobilidade dela, espontaneidade, postura, andar, os usos que ela pode fazer do próprio corpo. Eles definem as dimensões da liberdade psíquica dela.
(Dworkin, 1974, p. 112, ênfase no original)
E, ela continua, normas de beleza possuem efeitos psicológicos nas mulheres também porque ‘’a relação entre liberdade psíquica e desenvolvimento psicológico, possibilidade intelectual e potencial criativo é umbilical’’. Dworking, assim como outras críticas radicais feministas da beleza, descreve o amplo alcance das práticas que as mulheres devem engajar para conhecer as doutrinas da beleza:
Em nossa cultura, nenhuma parte do corpo da mulher é deixada intocável, inalterada. Nenhuma característica ou extremidade é poupada da arte, ou da dor, do aperfeiçoamento. Cabelos são pintados, envernizados, alisados, são feitas permanentes; sobrancelhas são arrancadas, pintadas de lápis, tingidas; olhos são contornados, mascarados, sombreados; cílios são curvados, ou são falsos — da cabeça ao dedo do pé, todas as características da face de uma mulher, cada seção de seu corpo, está sujeita à modificação, alteração.
(Dworkin, 1974, p. 112)
Curiosamente, essa lista omite a cirurgia plástica, o que não faria sentido hoje em dia. Isso mostra o progresso que vem fazendo da cirurgia plástica simplesmente outra forma de maquiagem, trinta anos depois de Dworkin embarcar em suas análises. Outros elementos opressivos de beleza que Dworkin comenta é a ‘’vitalidade para a economia’’ e a ‘’substância principal da diferenciação de papel masculino-feminino, a mais imediata realidade psíquica e psicológica de ser uma mulher’’. Práticas de beleza são necessárias para que os sexos possam ditos diferentes, então a classe sexual dominante pode ser diferenciada da subordinada. Práticas de beleza criam, assim como representam, a ‘’diferença’’ entre sexos.
Sandra Bartky, que também desenvolveu suas ideias nesses dias violentos dos anos 70, quando críticas profundas da condição da mulher incluíam uma análise da beleza, abordou a questão de porque a mulher podia parecer ‘’escolher’’. Ela explica porque nenhum exercício de força óbvia requeria fazer as mulheres engajadas nas práticas de beleza. ‘’É possível’’, diz ela, ‘’que ser oprimida nesses modos, que nem precisam envolver a destruição psíquica, desigualdade legal ou exploração econômica; pode oprimir psicologicamente’’ (Bartky, em uma coleção de trechos previamente publicados, 1990, p. 23). Para sustentar isso ela utiliza o trabalho anticolonial da teorista Frantz Fanon que escreveu sobre a ‘’alienação psíquica’’ do colonizado. A opressão psicológica da mulher, diz Bartky, consiste na mulher ser ‘’estereotipada, dominada culturalmente e objetificada sexualmente’’. Ela descreve essa dominação cultural como uma situação na qual ‘’todos os itens da vida geral da população — nossa linguagem, instituições, arte e literatura, nossa cultura popular — são sexistas, que todos, em um nível maior ou menor, manifestam a supremacia masculina’’. A falta de qualquer alternativa cultural onde mulheres possam identificar um jeito diferente de ser uma mulher reforça as práticas opressivas, ‘’A subordinação das mulheres, então, por ser uma característica tão penetrante da minha cultura, vai (se não incontestada) parecer ser natural — e porque isso é natural, inalterável.
O fundamento dessa dominação cultural é o tratamento das mulheres como objetos sexuais e a identificação das mulheres com essa condição cultural. Bartky define a prática de objetificação sexual assim: ‘’uma pessoa é sexualmente objetificada quando as partes sexuais dela ou suas funções sexuais são separadas do resto de sua personalidade e são reduzidas ao status de meros instrumentos ou são considerados como se fossem capazes de representarem ela’’. Mulheres incorporam os valores da objetificação sexual masculina nelas mesmas. Catharine MacKinnon chama isso de ser ‘’coisificada’’ na mente. Elas aprendem a tratar seus próprios corpos como objetos separados delas mesmas. Bartky explica como isso funciona: o assovio sexualmente objetifica uma mulher do qual resulta que, ‘’O corpo que apenas um momento antes eu habitei com tanta facilidade agora inunda minha consciência. Eu me tornei um objeto’’. Ela explica que não é suficiente para um homem simplesmente olhar para uma mulher secretamente, ele precisa que ela esteja consciente do seu olhar com um assovio. Ela deve ‘’ter sido feita para saber que é um ‘belo pedaço de traseiro’: eu devo ser feita para me ver como eles me veem’’. O efeito de tal comportamento de policiamento masculino é que ‘’Sujeitas ao olhar avaliador do macho apreciador, mulheres aprendam a avaliar a si mesmas, primeiro e melhor’’. Assim as mulheres tornam-se alienadas de seus próprios corpos.
O ‘’complexo da beleza-fashion’’, representando os interesses associados envolvidos nas indústriasfashion e de beleza, é, argumenta Bartky, retomado da família e da igreja como ‘’produtores e reguladores centrais da ‘feminilidade’’. O complexo da belezafashion promove-se às mulheres como procurando ‘’glorificar o corpo feminino e promover oportunidades para indulgência narcisista’’ mas na verdade o objetivo é ‘’depreciar o corpo da mulher e desferir um golpe no narcisismo dela’’ assim ela comprará mais produtos. O resultado é que uma mulher sente-se constantemente deficiente e seu corpo requer ‘’alteração ou então medidas heroicas apenas para conservar isso’’.
Dworkin e Bartky produziram suas críticas da beleza nos anos 70 e no começo dos anos 80. O mais poderoso trabalho feminista sobre a beleza publicado até então, O Mito da Beleza de Naomi Wolf, forneceu um interessante exemplo de como os tempos mudaram. Apesar do, ou por causa do, poder da crítica dela, Wolf sentiu necessidade de publicar 3 anos depois outro livro, Fogo com Fogo, que substancialmente removeu o ferrão de sua análise e distinguiu ela do ranque de feministas radicais. Wolf argumenta que as mulheres necessitavam engajar-se nas práticas de beleza e que essa necessidade foi comprimida nos anos 80 como um backlash contra a ameaça do movimento de liberação das mulheres e oportunidades maiores, particularmente na força de trabalho, que as mulheres passaram a acessar. Como ela explica ‘’Os obstáculos mais legais e materiais as mulheres romperam, e as imagens mais rigorosas, pesadas e cruéis da beleza feminina vieram pesar sobre nós’’. A análise de Wolf sugere que as mulheres são forçadas às práticas de beleza por expectativas de mulheres no local de trabalho. As mulheres entraram no mercado de trabalho por volta dos anos 70 e não com o objetivo de ameaçar os homens, mas sim a fim de satisfazer a exigência que elas devem ser objetos para o deleite sexual de seus colegas homens, elas necessitam engajar-se nos produtos dolorosos, caros e tomadores de tempo que não são esperados de seus homólogos homens se eles quiserem ter e manter um emprego.
Havia uma ‘’classificação de beleza profissional’’ que acompanhavam as mulheres ao local de trabalho. Curiosamente, apesar da força da crítica de Wolf das práticas de beleza, ela não considera essas práticas prejudiciais por elas próprias, mas apenas se elas são mais forçadas do que livremente ‘’escolhidas’’ às mulheres. Em seu último capítulo ‘’Por Trás do Mito da Beleza’’ ela pergunta ‘’Tudo isso significa que nós não podemos usar batom sem nos sentir culpadas?’’; então responde ‘’Pelo contrário’’. Ela explica:
Em um mundo onde mulheres possuem escolhas reais, as escolhas que elas fazem sobre suas aparências serão tomadas ao menos pelo que elas realmente são: nada demais.
Mulheres serão capazes de adornarem a si próprias com belos objetos impensadamente quando não houver dúvida que nós não somos objetos. Mulheres estarão livres do mito da beleza quando nos pudermos escolher usar nossas faces, roupas e corpos como simplesmente uma forma de expressão entre uma gama completa de outras.
(Wolf, 1990, p. 274)
A análise de Wolf não sugere que há um problema com o fato das mulheres, e não os homens, terem que fazer práticas de beleza de qualquer modo, apenas que elas não são livres para escolher fazer isso. É essa falta de perguntar questões fundamentais do por que das práticas de beleza estar conectadas com as mulheres e por que alguma mulher iria querer continuar com essas práticas depois da revolução, que faz O Mito da Beleza um livro feminista liberal mais do que um feminista radical. Fogo com Fogo deixa suas referências feministas liberais claras. Nesse livro ela afirma que as mulheres não só podem escolher usar maquiagem como também podem escolher serem poderosas. As forças materiais envolvidas na estruturação da subordinação das mulheres caíram ao deixar a liberação de um projeto de força de vontade individual ‘’Se nós não conseguirmos… atingir a paridade no século vinte e um, isso será porque as mulheres em algum nível escolheram (itálico dela) não exercer o poder que é nosso direito de nascimento’’.
A descrição de Wolf de sua clara aflição com as reações negativas das audiências pelo radicalismo de seu livro sobre a beleza pode oferecer uma pista do porque ela evoluiu tão rapidamente para uma desenvolvida feminista liberal. Depois da publicação ela disse ‘’Meu emprego envolve engajamento, nos programas da TV e do rádio, com pessoas que representam as indústrias que eu estava criticando. Muitos estavam, compreensivelmente, zangados e defensivos. As tropas estavam algumas vezes em confronto… eu estava agudamente desconfortável’’. Sua experiência foi um choque porque ‘’Sempre pensei eu mesma como calorosa, amigável e feminina’’, e, ‘’depois de um vigoroso debate, eu voltaria para casa e choraria nos braços do meu parceiro’’.
A experiência de Wolf mostra o quão difícil é criticar algo tão fundamental para a cultura ocidental de dominação masculina como as práticas de beleza. A reação dela a isso ajuda a explicar o porquê ela escolheu escrever Fogo com Fogo tão logo após, um livro que aparenta contradizer a mensagem forte do Mito da Beleza. Ela propôs-se a criar uma forma de feminismo não ameaçadora e castigar as feministas radicais. Feministas radicais que lutam contra a violência masculina tornaram-se ‘’vítimas feministas’’ que ‘’identificam-se com a impotência’’ são ‘’juízas’’ particularmente da ‘’sexualidade e aparência das outras mulheres’’ e ‘’anti-sexuais’’. Ela procura acalmar o peito masculino que devia ter sido perturbado pelo Mito da Beleza proclamando ‘’A atenção sexual masculina é o sol no qual eu floresço. O corpo masculino é um terreno e me abriga, meu destino ao longo da vida’’. Wolf recompensou pelo que ela deve ter visto como a loucura juvenil de ter escrito um livro sobre a beleza, no qual ameaçou os interesses da dominação masculina. Ela recuou à distinção firme de público/privado que isenta a área da vida ‘’privada’’ do exame político minucioso e vira uma arena para o exercício das escolhas das mulheres.

O pessoal é político
A crítica feminista da beleza começa do entendimento que o pessoal é político. Enquanto feministas liberais tendem a ver o domínio da vida ‘’privada’’ como uma área nas qual as mulheres podem exercer o poder da escolha livres da política, feministas radicais como Dworkin e Mackinnon procuram romper a distinção público/privado que, elas argumentam, é fundamental para a supremacia masculina. Essa distinção fornece aos homens um mundo privado de dominação masculina na qual eles podem prender as mulheres ao emocional, ao trabalho doméstico, sexual, energias reprodutivas, enquanto escondem as relações de poder feudais desse domínio por trás do escudo de proteção da ‘’privacidade’’. A palavra privado é defendida do ponto de vista da dominação masculina como de ‘’amor’’ e realização individual que não deve ser desnorteada por análises políticas. Esse é um mundo no qual mulheres simplesmente ‘’escolhem’’ dispor suas energias e corpos à disposição dos homens, onde elas permanecem apesar de qualquer violência ou abuso distribuído por eles. A natureza ‘’privada’’ desse mundo há muito tempo protege os homens de punição, porque isso é visto como sendo fora da lei, que apenas se aplica no mundo público. Assim muitos estupros não foram um crime nessa visão de mundo e a violência doméstica foi uma disputa pessoal.
A crítica feminista radical argumenta que, pelo contrário, o ‘’pessoal’’; ou seja, os comportamentos desse mundo ‘’privado’’, são na verdade ‘’políticos’’. Reconhecendo o ‘’pessoal’’ como ‘’político’’ concedemos às mulheres identificar, através de grupos de conscientização e troca de experiências, que o que elas tomam como suas próprias falhas pessoais, tal como odiar suas barrigas gordas ou fingir dor de cabeça quando elas querem evitar relações sexuais sem seu parceiro macho ficar bravo, não são experiências individuais. São experiências comuns das mulheres, construídas a partir das relações desiguais de poder do então chamado mundo ‘’privado’’, na verdade muito político.
O mundo ‘’privado’’ foi identificado como a base do poder do homem de dominar no mundo ‘’público’’ do trabalho e do governo. O poder e sucesso público do homem, seu status de cidadania, dependia da manutenção que eles recebiam das mulheres em casa. As mulheres não apenas forneceram esse pano de fundo para a dominação masculina, mas elas careceram uma classe de pessoas que fariam o mesmo por eles, então elas foram duplamente desfavorecidas no mundo público em comparação aos homens. O conceito que o pessoal é político permitiu às feministas entenderem as formas nas quais os trabalhos da dominação masculina penetraram nas suas relações com os homens. Elas podem reconhecer como as dinâmicas de poder da dominação masculina fez da heterossexualidade uma instituição política, construindo a sexualidade masculina e feminina, e as formas nas quais as mulheres se sentem sobre seus corpos e sobre elas mesmas.

