A mulher eunuco: Curvas
Por Germaine Greer no livro A mulher Eunuco

O Corpo
Curvas
Quando a alma da festa quer expressar por mimica a ideia de uma bela mulher, ele ondula as duas mãos no ar e olha de soslaio expressivamente. A noção de curva está tão intimamente ligada a semântica sexual que algumas pessoas não podem deixar de rir ante a sinalização rodoviária. A imagem mais popular da mulher, a despeito das exigências do comércio de roupas e toda peitos e nádegas, uma alucinante sequência de parábolas e protuberâncias. Comumente julga-se que o corpo feminino está envolvido por gordura protetora, de modo que assim ela é mais aconchegante, sendo a Natureza e Hugh Hefner igualmente obscenos neste comércio. É verdade que as mulheres usam muito menos roupas e mais (leves do que os homens, mas não é assim tão fácil determinar se a camada de gordura resulta da necessidade de isolar tais porções expostas ou é anterior a isso. O hábito que tem os homens de envolver seus membros inferiores em longas roupas resultou numa devastação dos tecidos que pode ser constatada nas pernas de galinha que eles expõem em qualquer praia da Grã-Bretanha.r. Os homens, tanto como as mulheres, tem gordura subcutânea, mas as mulheres criam maiores depósitos em sítios específicos. Em pessoas gordas, a maior parte da gordura está acumulada na camada subcutânea: o que significa realmente o pseudo-fato de que as mulheres tem gordura subcutânea e que as mulheres devem ser mais gordas do que os homens. Historicamente podemos ver que todas as pessoas reprimidas e indolentes tem sido gordas, que os eunucos tendem a engordar como um capão, e assim não precisamos nos surpreender por descobrir que ainda persiste a preferência masculina por mulheres macias.
Na natureza o mais primoroso peito não a tão primoroso como o que a imaginação forma.
Gregory, “A Father’s Legacy to his Daughters”, 1809, pg. 64.
A curva mais altamente valorizada de todas é a do peito. A glândula real que forma a base do busto é uma estrutura convexa que se estende da segunda à sexta costela, de cima para baixo: a gordura que se acumula em tomo dela e forma o canal de divisão não é por si mesma uma característica sexual; nos casos em que a possuidora de vastos seios não é gorda em mais nenhum outro ponto o fenômeno é em geral causado por desarranjo endócrino. O grau de atenção que os seios recebem, combinado com a confusão de o que os fetichistas dos seios realmente querem, torna as mulheres indevidamente ansiosas a respeito deles. Nunca podem estar simplesmente certos; tem de sempre ser pequenos demais, grandes demais, de formato errado, moles demais. As características do estereótipo mamário são impossíveis de imitar porque são simuladas de modo falso, mas tem de ser falsificadas de uma maneira ou de outra. A natureza ou a exagerada ou avarenta.
Um peito cheio é realmente um marco milhar em tomo do pescoço de uma mulher: valoriza-a para os homens que querem fazer dela sua ama-de-leite, mas nunca lhe é permitido pensar que seus olhos estralados realmente a veem. Seus seios são para ser admirados apenas enquanto não mostram sinais de sua função: uma vez escurecidos, espichados ou murchos, são objeto de repulsa. Não são partes de uma pessoa mas engodos atados em tomo de seu pescoço, para serem manipulados e sacudidos como massa mágica, ou mascados e devorados como picolés. A única maneira que tem as mulheres para escapar a tal manuseio grosseiro é se recusar a vestir roupas interiores que perpetuem a fantasia de bolas pneumáticas, de modo que os homens tenham de entrar em contato com as variedades da coisa verdadeira. A ênfase recente nos mamilos, que estava ausente dos seios da pornografia popular, é a favor das mulheres, pois o mamilo é expressivo e sensível. O avanço vegetativo da libertação das mulheres libertou alguns seios da dominação da espuma e do arame. Uma maneira de continuar a progredir na mesma direção pode ser lembrar aos homens que eles também têm mamilos sensíveis.
A curva seguinte na ampulheta do brincalhão é a reentrância da cintura. A cintura é exagerada a fim de enfatizar a curva saliente do busto e das nádegas: mal pode ser considerada de todo um fenômeno natural. Em todas as eras em que foi de rigueur, as mulheres tiveram de vestir aparelhos especiais para forçá-la, e, tal como a pilha de anéis de latão alonga de fato os pescoços das damas bantus, a cintura veio a existir. As belas do século XIX iam ao extremo de mandar remover as costelas inferiores para que pudessem apertar mais os espartilhos. Uma tribo nativa da Nova Guine usa cintos apertados tanto para os homens como para as mulheres e a carne tende a avultar acima e abaixo da ligadura, de modo que os homens também tem curvas de ampulheta. Se formos tomar a imposição de coletes apertados como guia, teremos de supor que a cintura delicada é valorizada principalmente como um ponto de fragilidade no arcabouço feminino, satisfazendo fantasias sádicas.
O fetichismo das nádegas é comparativamente raro em nossa cultura, embora Kenneth Tynan, há não muito tempo, tenha escrito um artigo de connoisseur sobre o assunto, para uma revista. Revistas subpornográficas ainda apresentam anúncios para cintos com figuras de almofadas imensas, mas de modo geral as grandes extensões trementes de coxas e nádegas em expansão, que divertiram nossos avós, caíram em opróbio. Em vez disso, o traseiro bochechudo em calças justa, mais menineiro do que outra coisa, atrai a mais aberta atenção. As garotas muitas vezes se tornam autoconscientes de seus traseiros, enrolando-se em longas capas e túnicas, porém com mais frequência é porque são dotadas abundantemente demais naquela região.
Há uma espécie de distinção de classes nas preferências sexuais. A querida da classe operária ainda é cheia de curvas e cheinha, mas a classe média da moda rende seus tributos à esbelteza e mesmo à magreza. Para as mulheres há um aspecto comum em ambas as situações: são-lhes feitas exigências referentes ao contorno de seus corpos a fim de agradar os olhos dos outros. As mulheres são tão inseguras que constantemente tomam medidas para atender a essa exigência, quer racionais ou não. As mulheres mais magras ainda fazem dieta devido a uma imaginaria gordura em qualquer parte ou se afligem por sua falta de curvas: a cheia de curvas se aborrece com o exagero delas, ou faz dieta para perde-las.
Para a garota curvilínea, que devia ser magra, e para a garota magra, que devia ser curvilínea, são oferecidos medicamentos mais ou menos perigosos para que atinjam seus alvos. Em cada caso a mulher está se talhando para apelar ao mercado comprador; seu comprador mais exigente pode ser seu marido, que chega a apresentar a aproximação dela a imagem aceita como a condição de continuar a deseja-la e dela se orgulhar. Todo corpo humano tem seu peso e contorno ótimos que apenas a saúde e a eficiência podem estabelecer. Sempre que tratamos os corpos das mulheres como objetos estéticos sem função, tanto os deformamos como as suas possuidoras. Quer as curvas impostas sejam os excitantes arabescos da rainha das vedetes ou o serpentear atenuado da art nouveau, são deformações do corpo individual e dinâmico, e limitações das possibilidades de ser mulher.

