A mulher eunuco: Gênero

Arquivista Radical
Sep 1, 2018 · 7 min read

Por Germaine Greer no livro A mulher Eunuco

O Corpo

Gênero

É verdadeiro que o sexo de uma pessoa é atestado por cada célula de seu corpo. O que não sabemos é o que esta diferença nas células significa exatamente em termos de seu funcionamento. Nem podemos mesmo provar, partindo das diferenças observadas nas células, uma diferença importante nos tecidos compostos por aquelas células. Fazer quaisquer suposições referentes a superioridade ou inferioridade nesta base é supor o que está muito longe de ser provado. Talvez quando tivermos aprendido como ler o D.N.A., sejamos capazes de ver o que a informação, comum a todos os membros do sexo feminino, realmente é; mas mesmo então será uma discussão longa e tediosa de dados biológicos e sua ligação com o comportamento.

É uma parte essencial de nosso aparelho conceptual considerar os sexos uma polaridade e uma dicotomia na natureza. Na verdade, isso é muito falso. Os reinos vegetal e animal não são universalmente divididos em dois sexos, ou mesmo em dois sexos com a possibilidade de caprichos e tipos indeterminados; algumas felizes criaturas são macho e fêmea por turnos; alguns fungos e protozoários têm mais do que dois sexos e mais de uma maneira de acasalá-los. 0 grau de distinguibilidade entre os sexos pode variar de modo tão tênue a ponto de ser quase imperceptível a um grau de diferença tão grande que os cientistas por muito tempo permaneceram ignorantes do fato de que espécies classificadas como distintas eram na verdade macho e fêmea da mesma espécie. Os antropólogos nazistas sustentavam que as características sexuais secundárias são mais altamente desenvolvidas nas espécies de nível evolutivo mais alto, apontando que os tipos negroide e asiático tinham frequentemente características secundárias menos definidas do que os arianos.

De fato, muitas formas simples de vida são de modo mais nítido sexualmente diferenciadas do que os seres humanos. O que notamos, no entanto, é que as diferenciações entre os sexos humanos são acentuadas e exageradas, e antes de justificar o processo devemos averiguar o porquê.

Podemos ver a diferenciação que é essencial para o sexo humano se aumentarmos uma célula corporal ao ponto de podermos ver os cromossomos, digamos 2.000 vezes. junto com os quarenta e sete outros cromossomos na célula corporal masculina, há um pequenininho chamado o cromossomo Y. De fato, não é de todo um cromossomo sexual, e, devido ao seu isolamento, tem problemas peculiares.

Uma vez que a mutação dentro de um cromossomo só pode ser testada em diferentes combinações quando eles podem ser livremente distribuídos por crossing over. & supressão do crossing over Impede que mutações que venham a ocorrer dentro da forma Y venham a ser testadas assim. Uma vez que o crossing over não ocorre, o Y não pode sofrer qualquer mutação estrutural por meio de Intercâmbio de partes. O cromossomo Y, portanto, durante sua evolução, chegaria a perder sua eficácia na questão da determinação sexual e seu lugar seria ocupado pelos autossomos interagindo com X.²

Os autossomos são os cromossomos que não são nem X nem Y, e há vinte e três pares deles nas células corporais. O sexo feminino é assegurado pela presença ao lado deles de um par de cromossomos que parece exatamente igual a eles mas que de fato são determinantes do sexo, e designados como XX. Em vez de um par XX acrescentado a seus vinte e três pares de autossomos, o macho tem XY. O cromossomo Y tem uma função negativa: quando um esperma carregando um Y fertiliza um óvulo, simplesmente reduz a soma de feminilidade que resultaria na formação de um feto feminino. junto com sua masculinidade o feto então herda um certo número de fraquezas que são chamadas de ligadas ao sexo, porque resultam de genes só encontrados no cromossomo Y. Estranhas deformidades como hipertricose, significando excessivo crescimento de pelos principalmente nas orelhas, esquisitas manchas nas mãos e pés, pele tipo cortiça e uma forma de ligadura dos artelhos são algumas menos conhecidas do que a hemofilia, que é de fato o resultado de um gene mutante no cromossomo X que o cromossomo Y não pode suprimir, de modo que é transmitido por mulheres mas só é ativo em homens.

O daltonismo segue o mesmo padrão. Cerca de trinta outras desordens podem ser encontradas nos machos da espécie e raramente nas fêmeas pela mesma razão. Há muita evidência de que a mulher é constitucionalmente mais forte do que o homem; ela vive mais e em cada grupo etário morrem mais homens do que mulheres, embora o número de homens concebidos possa ser maior de dez a trinta por cento. Não há explicação para a concepção mais frequente de homens, pois os espermatozoides produtores de mulheres são produzidos no mesmo número que os produtores de homens. É tentador especular se não se trataria de uma compensação natural para a maior vulnerabilidade dos machos.³

Enquanto a mulher permanece mais próxima do tipo infantil, o homem se aproxima mais do senil. A tendência extrema do homem para a variação se expressa por uma grande porcentagem de gênio, insanidade e idiotia; a mulher permanece mais quase normal.
W. l. Thomas, ”Sex and Society”, 1907, pág. 51

Recentemente os criminologistas chegaram a outra observação desconcertante referente ao cromossomo-Y. Descobriram que havia uma elevada proporção de indivíduos com o cromossomo XYY, isto é, um Y extra, entre os homens aprisionados por crimes de violência, e o fato parecia estar ligado a certas deficiências na capacitação mental.⁴

O desenvolvimento das características sexuais não é determinado simplesmente pelos cromossomos: esta constitui a diferença principal, mas o desenvolvimento das diferentes características físicas envolve todo o sistema endócrino e a interação de vários hormônios. As mulheres ficaram especialmente cônscias de seus hormônios por causa do uso de hormônios sintéticos na pílula anticoncepcional; como é comum quando tais noções são popularizadas, a função dos hormônios foi descrita com excessiva simplicidade. De fato, a linha plena de atividade dos hormônios é muito imperfeitamente entendida. Intrometendo-se no delicado e flutuante equilibro dos hormônios femininos, os cientistas tiveram de admitir que provocaram alterações em funções não sexuais e não reprodutivas não esperadas por eles.

Já é bastante difícil entender a simples matemática de genes e cromossomos; quando se chega à química dos hormônios, os processos são muito mais difíceis de traçar. Sabemos que o hormônio masculino, testosterona, induz ao desenvolvimento de características sexuais masculinas, e que está ligado de alguma forma ao outro hormônio masculino, androgênio, que estimula o crescimento de músculos, ossos e ânimo.

A secreção de androgênio está sob o controle do hormônio da célula intersticial pituitária, como está o hormônio feminino, estrogênio, que é muito parecido com ele. Ambos os sexos produzem ambos; tudo o que sabemos é que se dermos estrogênio a homens, suas características sexuais secundárias se tornam menos evidentes e se dermos androgênio a mulheres o mesmo acontece. Para algumas funções o estrogênio precisa da ajuda do outro hormônio feminino, a progesterona. Todas as nossas secreções têm reações complementares e catalíticas: quase que toda investigação delas nos traz novos compostos químicos com novos nomes. A despeito do bombardeamento feito ao acaso de grandes doses de hormônios nas mulheres, a fim de impedir a concepção, a atitude mais comum em relação a eles, entre aqueles que conhecem, é de respeito e maravilhamento. Ainda prossegue a pesquisa de uma pílula que iniba apenas a função essencial para a concepção, e as mulheres não devem se sentir confiantes até que ela seja descoberta.

O sexo de uma criança é estabelecido na concepção porque cada espermatozoide contém um cromossomo Y e um X, e o óvulo maduro contém um X. O cromossomo especializado causa a diferença primária, mas o desenvolvimento de traços sexuais decorre de substâncias químicas especializadas nos cromossomos. Até a sétima semana o feto não exibe características sexualmente diferenciadas, e quando o desenvolvimento sexual começa segue um molde notavelmente similar em ambos os sexos. O clitóris e a cabeça do pênis parecem muito semelhantes de inicio, e a uretra se desenvolve como um sulco em ambos os sexos. Nos rapazes, o escroto se forma da protuberância genital, nas meninas, a vulva. Se examinarmos o tecido nestes lugares análogos veremos que é de fato diferente, embora as mulheres tenham tecidos similares aos do homem em diferentes sítios.⁵

A própria natureza nem sempre é sem ambiguidade. As vezes uma criança do sexo feminino pode ter um clitóris tão desenvolvido que se julga ser ela um menino. Do mesmo modo, muitas crianças do sexo masculino podem ser subdesenvolvidas, ou ter sua genitália deformada ou escondida, e supõe-se serem meninas. As vezes elas aceitam seu sexo como descrito, e encaram-se como membros deficientes do sexo errado, assumindo o comportamento e atitudes daquele sexo, a despeito de conflitos especiais. Em outros casos, uma espécie de consciência genética cria um problema que conduz à investigação e o verdadeiro sexo da criança é estabelecido.⁶ Alguns, como menininhas nascidas sem vagina, são erradamente considerados neutros: outros, tendo a construção XXY, são considerados mulheres sem ovários. Algumas destas dificuldades podem ser resolvidas por cirurgia plástica, mas com muita frequência os cirurgiões realizam tais operações por motivos especiais, quando o exame cuidadoso da estrutura da célula corporal revelaria que não está presente nenhuma anormalidade congênita.

A maior parte da homossexualidade resulta da inabilidade da pessoa em se adaptar a seu papel sexual dado, e não deve ser tratada como genética e patológica, mas a denominação preconceituosa de anormalidade não oferece ao homossexual maneira de expressar esta rejeição, de modo que ele deve se considerar uma extravagância. Os papéis sexuais ”normais” que aprendemos a desempenhar desde nossa infância não são mais naturais do que as palhaçadas de um travesti.

A fim de se aproximar daquelas formas e atitudes que são consideradas normais e desejáveis, ambos os sexos se deformam, justificando o processo ao tomar como referência a diferença primária, genética, entre os sexos. Mas, de quarenta e oito cromossomos, apenas um é diferente: nesta diferença baseamos uma separação completa entre macho e fêmea, fingindo que todos os quarenta e oito são diferentes. Os franceses bem podem gritar “Vive la différence”, pois ela é cultivada incessantemente em todos os aspectos da vida. É mais fácil e mais óbvio tomar em consideração aquela deformidade deliberadamente induzida, tal como ela se manifesta no corpo e em nossos conceitos dele, pois, por mais que sejamos outra coisa ou pretendamos ser, somos por certo nossos corpos.

Fonte

GREER, Germaine. A mulher eunuco. Rio de Janeiro:Editora Artenova S.A, 1971. p. 24–27

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