A mulher eunuco: Ossos
Por Germaine Greer no livro A mulher Eunuco

O Corpo
Ossos
Quanto de sexo ha exatamente num esqueleto? Quando os arqueólogos estabelecem de modo categórico que a metade de um fêmur vem de uma mulher de vinte anos de idade, ficamos impressionados com a certeza deles, não nos atingindo o fato de que a afirmativa, sendo um palpite, e por completo inverificável. Um tal palpite a muito mais baseado nas suposições dos arqueólogos sobre as mulheres do que em algo mais. 0 que querem dizer a que o osso e tipicamente feminino, isto e, que devia pertencer a uma mulher. Porque e impossível escapar as estereotipadas noções de feminilidade, tal como prevalecem na própria sociedade de uma pessoa, curiosos erros de atribuição tem sido feitos e continuam a sê-lo.
Tendemos a pensar no esqueleto como sendo rígido; etc parece resistir quando tudo o mais se desfaz, assim deve ser uma especie de rocha imutável, não atingido por condicionamento superficial. Na verdade, Me mesmo está sujeito a deformação de muitas influencias. A primeira destas e o esforço muscular. Porque os homens são mais vigorosos do que as mulheres, seus ossos tem marcadas, de modo mais claro, as estrias musculares. Se os músculos estão contraídos mediante ligadura ou enfraquecimento, ou por pressão externa continua que não é contrabalançada, os ossos podem ser postos fora de alinhamento.
Os corpos dos homens ficam alterados pelo trabalho que tiles fazem, e pelo alimento que os sustenta em seu período de crescimento, e o mesmo se da com as mulheres, porem as mulheres acrescentam a estas influências outras ditadas pela moda e pelo sex-appel. Tem havido grandes mudanças na historia da sedução feminina, no que toca a postura aprovada dos ombros, quer pendidos quer retos, para frente ou para trás, e estes tem sido sustentados por vestidos e coletes, de modo que o delicado equilíbrio de osso para osso sofre é alterado provocada pelo esforço dos músculos que mantem a postura artificial. A espinha tem sido curvada para a frente no galope dos manequins, ou para trás na curva em S da art nouveauou na tendencia da década de cinquenta.
O calçado reforça estes esforços antinaturais; o sapato de salto alto altera toda a torção dos músculos das coxas e da pélvis e joga a espinha para um angulo que, em alguns círculos, ainda e considerado essencial para a sedução. Não sou tão jovem a ponto de não ser capaz de me lembrar de minha avó implorando a minha mãe que pusesse espartilho em mim, porque achava meu desajeitamento de adolescente deselegante e temia que minhas costas não fossem o bastante fortes para me manterem numa posição correta. Se tivesse sido espartiIhada aos treze anos, minha caixa torácica teria se desenvolvido de maneira diferente e a pressão para baixo em minha pélvis teria resultado em seu alargamento. Nos dias de hoje torce-se o nariz para o espartilho, porem muitas mulheres não sonhariam em se livrar da cinta que oferece apoio e controle das gordurinhas. Mesmo calças justas são apertadas, e podem causar estranhos sintomas em quem as usa. A curvatura das datilógrafas e a posição recostada das balconistas tem seu próprio efeito sobre a postura e portanto sobre o esqueleto.
A maioria das pessoas entende que o desenvolvimento dos membros é afetado pelo exercício feito pela criança em crescimento. Minha mãe nos desencorajava de concorrer com as famosas nadadoras da Austrália, mostrando-nos seus ombros imensos e quadris estreitos, que ela sustentava virem de seu rigoroso treinamento. Concorda-se em que as meninas devam ter um programa de educação física diferente dos meninos, mas não se discute o quanto a diferença é aconselhada pela convicção de que as menininhas não devem se parecer com menininhos. As menininhas parecem tão bonitas fazendo ginastica rítmica, e os meninos tão homens quando se soqueiam., A mesmas hipóteses se estendem para nossas suposições a respeito de esqueletos masculinos e femininos: um esqueleto de mãos pequenas tem de ser de mulher, pês pequenos também são femininos mas permanece o fato de que qualquer sexo pode exibir a desproporção.
Estudantes de medicina aprendem anatomia de um modelo masculino, exceto quando estão lidando explicitamente com as funções reprodutoras. Aprendem que, de regra, o esqueleto feminino e mais leve e menor, e a formação óssea mais infantil que a do homem.
Esta ultima é uma observação feita com frequência sobre todo o corpo feminino, que Me e infantilizado ou pedomórfico, enquanto o corpo masculino é idoso ou gerontomórfico. Esta descrição, longe de implicar qualquer defeito no desenvolvimento feminino, implica numa vantagem evolutiva, em major elasticidade e adaptabilidade. Disso nada podemos deduzir quer sobre força física quer sobre capacidade mental.2
A diferença entre o tipo infantil e o tipo idoso não deve ser exagerada: de fato existe uma ampla linha de variação possível, sem qualquer resquício de uma anormalidade funcional. Tal categorização representa um esforço para identificar uma tendência. Em nossa busca de distinções, para justificar as desigualdades no lote masculino e feminino, não só superestimamos a diferença geral, como inventamos diferenças especiais que não existem, como a costela extra que ainda se acredita amplamente existir nas mulheres.
Supõe-se que a pélvis feminina, o lugar da diferenciação mais marcada na estrutura óssea dos sexos, é por inteiro diferente da masculina. De fato, a diferença é de dimensões comparativas e de ângulo de inclinação: o traçado básico e comum.3 Mulheres sedentárias bem-nascidas tendem a possuir pélvis maiores do que mulheres que fazem trabalho pesado ou mal-nutridas, e nelas a diferença sexual é exagerada por influências não ligadas ao sexo biológico, mas à sociologia do sexo.4 O preconceito de que pélvis estreitas são ineficientes no parto é infundado; a deformação em qualquer direção afetara a eficiência do mecanismo da pélvis. A maioria das pessoas não julga o sexo como os arqueólogos; quando os verdadeiros órgãos sexuais estão escondidos, o tipo sexual é revelado por características superficiais, porém mesmo curvas dependem em parte dos ossos invisíveis do paciente, levantando-as, empurrando-as, bamboleando-as e agitando-as. Viverão estes ossos?

