Maquiagem e o véu: mesma diferença?
por Sheila Jeffreys em Beleza e Misoginia
Ao invés de serem os dois lados da mesma opressão das mulheres, o véu e a maquiagem são mais usualmente vistos como opostos. A maquiagem pode até ser vista como a alternativa libertada de vestir o véu. Enquanto que existe aparentemente uma diferença, que é, as mulheres na cultura islâmica são esperadas a cobrir suas cabeças e corpos para que os homens não sejam sexualmente tentados, enquanto que as mulheres ocidentais são esperadas a vestirem-se e maquiarem-se de tal forma que os homens sejam sexualmente tentados, e para criar uma festa aos olhos dos homens, o que pode ser visto como uma conexão. Essas expectativas refletem o dualismo tradicional com a consideração das funções das mulheres sob a dominância masculina. As mulheres tradicionalmente, até no ocidente, são esperadas a se enquadrarem nas categorias de virgem/puta. As virgens estavam foram dos limites até se casarem e eram propriedades sexuais de homens individuais, enquanto que as putas existiam para servir os homens em geral.
Infelizmente, até as estudiosas feministas são, algumas vezes, incapazes de pensarem por elas mesmas, fora desse dualismo, para imaginar um modo de vida autônomo para as mulheres que não caem nessas categorias. Lama Abu-Odeh, por exemplo, escrevendo sobre a readoção do véu em alguns países Muslim, diz que suas pretensões, como feminista, são que ‘’As mulheres árabes possam ser capazes de expressarem-se sexualmente, assim elas podem amar, jogar, gracejar, flertar e excitar… Neles, eu vejo atos de subversão e libertação’’ (AbuOdeh, 1995, p. 527). Mas o que ela considerou alegre, as mulheres que adotaram o véu viram como ‘’maldoso’’. Na escolha do papel para as mulheres de excitar os homens se cobrindo, Abu-Odeh fica presa na dualidade que é oferecida às mulheres sob dominação masculina, objeto sexual ou velada, prostituta ou freira. Há uma terceira possibilidade: mulheres podem inventar elas mesmas de novo, fora dos estereótipos da cultura patriarcal ocidental ou nãoocidental. Mulheres podem ter acesso ao privilégio possuído pelos homens de não ter que se preocupar com a aparência e ser capaz de saber em público de cara limpa e cabeça descoberta.
Tanto o véu quanto a maquiagem são vistos frequentemente como comportamentos voluntários pelas mulheres, tomados pela escolha e para expressar agência. Mas em ambos os casos há evidência considerável da pressão que vem da dominação masculina que causa esses comportamentos. Por exemplo, a historiadora do comércio Kathy Peiss sugere que a indústria de produtos de beleza decolou nos Estados Unidos nos anos 20/30 porque foi um tempo onde as mulheres entraram no mundo público dos escritórios e outros locais de trabalho (Peiss, 1998). Ela vê que as mulheres fizeram a si mesmas como um símbolo de sua própria liberdade. Mas há outra explicação. Comentadoras feministas da readoção do véu pelas mulheres em países Muslim no fim do século vinte sugeriram que as mulheres se sentiam mais seguras e livres para se engajarem em ocupações e movimentos no mundo público completamente cobertas (Abu-Odeh, 1995). Pode ser que a maquiagem signifique que as mulheres não têm direito automático para aventurarem-se em público no ocidente em pé de igualdade com os homens. A maquiagem, como o véu, assegura que elas estão mascaradas e não precisam se descarar para mostrar elas mesmas como cidadãs verdadeiras e iguais, que elas deveriam ser, teoricamente. A maquiagem e o véu podem ambos revelar a falta de direitos das mulheres.
Em alguns casos de adoção do véu é claro o resultado da força e o perigo de violência. No Irã, cobrir-se é compulsório e forçado pelo estado. Como Haleh Afshar explica ‘’A resistência aberta ao hijab e aparecer em público sem isso é punido com 74 chicotadas’’ (Afshar, 1997, p. 319). Não há insinuação de que as mulheres possam ‘’escolher’’ vestir o véu porque o processo de coação é muito claro e brutal, ‘’Mulheres que são consideradas inadequadamente cobertas são atacadas por esses homens (membros do Partido de Deus’ os Hizbollahs) com facas ou armas, e são sortudas as que sobrevivem à experiência’’ (Afshar, 1997, p. 320). A maquiagem não é forçada com tanta brutalidade na cultura ocidental.
Contudo, como Homa Hoodfar aponta, o véu pode ser usado por diferentes razões em diferentes países, e até no mesmo país (Hoodfar, 1997). Em algumas situações, nenhuma força óbvia é aplicada. Lama Abu-Odeh descreve a readoção do véu. Ela diz que nos anos 70 as mulheres ‘’andaram pelas ruas das cidades árabes vestindo vestuário ocidental: saias e vestidos abaixo do joelho, salto alto, e mangas que cobriam a parte de cima do braço no verão. O cabelo delas foi frequentemente exposto e elas usaram maquiagem’’ (1995, p. 524). Nos anos 90, muitas, até as mesmas mulheres, adotaram o véu, definido aqui como uma capa ou lenço para a cabeça. Abu-Odeh nos diz que, ‘’o corpo delas parecia ser um campo de batalha entre os valores do ocidente, a construção ‘capitalista’ onde os corpos femininos são ‘sexualizados, objetificados, tornados coisas’ e a tradicional onde os corpos das mulheres são ‘chattelized’, ‘privatizadas’ e aterrorizadas como administradoras da família de honra(sexual)’’ (p. 524). As mulheres que adotaram o véu foram as que precisaram do transporte público para trabalhar ou estudar. Elas ficavam menos propensas a serem assediadas pelos homens. Nas ocasiões em que elas foram assediadas, elas se sentiriam mais confortáveis contestando isso quando cobertas, porque elas não podiam ser culpadas por terem estimulado esse comportamento masculino abusivo. É mais fácil para as mulheres e garotas cobertas sentirem-se insultadas e para os outros sentirem-se ultrajados pelo favor delas se elas forem vistas como inocentes vítimas que não mereciam tal tratamento. A adoção do véu pode, então, ser vista como um modo de aliviar os danos sofridos pelas mulheres, como resultado da dominação masculina. Tal ‘’escolha’’, entretanto, ainda vem mais da opressão do que da agência indicada.
Hoodfar explica a readoção do véu no Egito, onde não há ameaça de punição brutal. As mulheres que, como Hoodfar pontua, ‘’recobrem-se’’, tendem a ser da classe média-baixa, educadas na universidade e de colarinho branco nos setores públicos e governamentais. As razões que Hoodfar dá para ‘’recobrir-se’’ não sugere que as mulheres têm alternativas razoáveis para tomar essa decisão. Uma mulher entrevistada por Hoodfar expressou resistência à ideia de vestir o véu antes de se casar, mas na véspera de seu casamento encontrou pressão considerável da família de seu futuro marido contra sair para trabalhar como professora, o que ela treinou para fazer e encaminhava para isso. Seus sogros argumentaram que se ela saísse para trabalhar, ‘’pessoas comentariam, e a reputação dela poderia ser questionada’’(Hoodfar, 1997, p. 323). Além disso, ela sofreria assédio sexual, ‘’Em ônibus lutados de homens que perderam o respeito tradicional pelas mulheres, poderiam molestar ela e com certeza isso machucaria o orgulho e dignidade dela, bem como o de seu marido e irmãos’’ (p. 323). Para resolver essas pressões, ela decidiu se tornar uma muhaggaba (coberta com véu). Isso satisfez a família de seu marido.
As razões que Hoodfar dá claramente referem-se às tentativas das mulheres de se acomodarem à dominação masculina. O véu, ela diz, demonstra a fidelidade das mulheres às leis da dominação masculina, isso ‘’comunica alto e claro à sociedade em geral, e aos maridos em particular, que a que veste está vinculada à ideia islâmica do papel do sexo dela’’ (Hoodfar, 1997, p. 323). As mulheres cobertas podem trabalhar porque estão demonstrando que continuam respeitando ‘’os valores e comportamentos tradicionais’’. As mulheres que usam o véu ‘’reduzem a insegurança dos maridos’’ e mostram a eles que ‘’como esposas, elas não estão competindo, mas sim harmonizando e cooperando com eles’’ (p. 324). Em troca de todos esses sinais de obediência, o véu ‘’põe as mulheres em posição de esperar e exigir que seus maridos respeitem e reconheçam os direitos islâmicos delas’’. Assim, os maridos podem deixar suas esposas manter o dinheiro que ganham e manter sua parte do acordo por ‘’prover para a família o melhor que podem’’ (p. 324). Nenhuma das razões dadas aqui sugerem que a atividade é escolhida porque isso dá a mulher qualquer satisfação que não esteja vinculada a ser capaz de aliviar as forças da dominação masculina. A fim de ter o direito que os homens possuem de trabalhar no mundo público, as mulheres precisam se cobrir e realizar outros estereótipos e expectativas do papel subordinado das mulheres.
Outra mulher entrevistada por Hoodfar adotou o véu diretamente para evitar o assédio sexual quando ela trabalhava depois de estudar e tinha que pegar o ônibus para ir para casa, ‘’Muito frequentemente as pessoas me tratavam mal que eu ia para casa à noite e chorava’’. Ela decidiu pelo véu, então ‘’as pessoas saberiam que eu sou uma boa mulher e que as minhas circunstâncias me forçaram a trabalhar de noite’’ (1997, p. 325). Procurando uma estratégia para evitar ser atacada pelos homens nas ruas não é um exercício de livre escolha, mas uma acomodação à opressão. Os homens ordinários que intimidariam ela no Egito podem ser vistos como equivalentes cívicos dos Hezbollahis que chicoteiam mulheres no Irã. Abuh-Odeh explica que os tipos de assédio sexual que as mulheres têm sido tradicionalmente expostas nas cidades árabes não é velado:
Infalivelmente sujeitas à atenção pelas ruas e nos ônibus por serem mulheres, elas eram fitadas, assobiadas, tocadas e beliscadas. Os comentários dos homens, tais como, ‘’Que belos peitos você tem’’, ou ‘’Como você é bonita’’, são frequentes… elas estão sempre conscientes de estarem sendo olhadas.
(Abu-Odeh, 1995, p. 526)
Mas Abu-Odeh lembra as feministas que pensam que as mulheres devem recusar o véu que
isso seria ‘’suicídio social’’ (1995, p. 529). As mulheres muslim não estão em posição de falar contra o véu porque seriam vistas como defendendo o ocidente. Ela acrescenta a influência dos pregadores islâmicos como outra razão para recobrir-se: ‘’Uma mulher que decide usar o véu é frequentemente submetida a certa doutrinação ideológica (por um pregador fundamentalista), no qual dizem a ela que toda mulher muslim precisa cobrir seu corpo para não seduzir os homens, e que fazendo isso ela está obedecendo a palavra de Allah’’ (p. 532). Isso pode ser visto muito claramente como doutrinação religiosa, mas seria razoável perguntar se isso é necessariamente mais poderoso em influenciar garotas a cobrirem-se com o véu do que as revistas, o fashion, e a cultura da beleza do ocidente são em levar as meninas a cobrirem-se de maquiagem.

