Por que falamos de sexismo em espaços libertários

Arquivista Radical
Sep 3, 2018 · 3 min read

Texto extraído de Tesouras para Todas: textos sobre violência machista nos movimentos sociais

– Porque vivemos em uma sociedade capitalista e patriarcal, baseada no império do macho sobre a mulher, e fomos educadas com base nesses valores. E porque, para construir uma alternativa a esse sistema, o primeiro passo é mudar a nós mesmas. Em nossa concepção da vida, as relações, a sexualidade… A dificuldade não está em teorizar sobre a mudança, senão levá-la à prática. E isso é precisamente o que mais nos custa.

– Porque apesar todos e todas combatermos o Capital, o fascismo e o sexismo, ainda há alguns que contam mais que outros. Talvez por veteranice, costume ou simples tom de voz, em determinados espaços, reuniões, jornadas… se escuta e se dá mais credibilidade à voz destes.

– Porque não apenas queremos libertar espaços, mas também mentes e atitudes. E nas festas dos centros sociais ainda há pessoas que se permitem passar cantadas naquelas (e nunca naqueles) que estão no balcão por puro desfrute, ou pior ainda, porque acham que é assim que se flerta.

– Porque não somos as namoradas nem as companheiras de alguém, temos suficiente entidade e personalidade por nós mesmas. Mas, para nosso ambiente alternativo, embora se fale de fulano como “aquele que é muito corajoso e que está em tal coletivo” se esquecem que fulana, que além de ser sua companheira, é tão insubmissa como ele, mas talvez faça menos ruído.

– Porque ainda há gente que acredita que ser forte significa ser durão ou durona. E se avergonharia de mostrar debilidade em público, ou então despreza aqueles que o fazem. E já temos muita repressão sobre nós para reprimirmos as lágrimas ou a tristeza porque há quem não as considere revolucionárias.

– Porque nós mesmas, que em teoria tratamos de romper com os tópicos e papéis estabelecidos de família, casal, relações… continuamos reproduzindo em muitas ocasiões a mesma repartição de papéis, a incomunicação e a incompreensão entre homens e mulheres.

– Porque todos enchem a boca falando de sexo seguro, mas ainda é lamentavelmente certo que, em muitos casos (relações estáveis, abertas, esporádicas, trios, noites loucas e demais), esta responsabilidade básica esteja longe de ser compartilhada por todas e todos, e a iniciativa nesse sentido, continuam assumindo aquelas que podem ficar grávidas.

– Porque embora a sociedade avance para uma maior repressão da sexualidade das crianças, nos vendem que as mulheres se libertaram porque já podem ser militares e agressoras em vez de agredidas, enquanto continua a desigualdade dos sexos, a homofobia e, definitivamente, a perpetuação dos papéis sexistas, enquanto continuamos sofrendo o sexismo inclusive nos espaços libertários, ainda há quem não veja o anti-sexismo como uma luta coletiva, necessária e urgente. Ou não entenda por que algumas mulheres escolhem romper com esses grupos, abrindo espaços de debate, de ação, de festas… somente para nós mesmas. Não seria porque temos mais urgência?

Esse texto deseja recolher as impressões, debates e discussões que muitas de nós mantemos diariamente sobre o sexismo na nossa comunidade, e acreditamos que ele reflete muito bem nossa realidade. Não se trata de fazer críticas destrutivas, mas de romper com o que nos impõem com um pouco de autocrítica sincera e rindo de nós mesmas.

Saúde e Anti-sexismo!

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