Educar o Sentido Estético

Os Gostos discutem-se sim, contrariamente ao que refere o ditado. Discutem-se, debatem-se e sobretudo educa-se o gosto. No caso da arte e da estética incorporada nas artes visuais, é muito comum existir uma tipologia de estética considerada arte em contraponto com outras estéticas que são marginalizadas ou subvalorizadas porque “ficariam mal na parede da sala, não combinando com os cortinados e o jogo de sofás” ou apenas porque são incompreendidas pelo gosto médio denominado “mainstream”.

Jean-Michel Basquiat

Relato uma história pessoal:

Tenho uma amiga de longa data que é formada em engenharia aeroespacial e em medicina, exercendo em Bruxelas urologia. Pessoa culta e informada nascida em “berço de ouro” e que odiava arte moderna contudo, amando os pintores clássicos e sendo frequentadora habitual dos principais museus mundiais de arte Medieval, Renascentista e similares.

Durante anos tentei que olhasse de forma diferente para o abstracionismo, para o cubismo, para o modernismo, para a pop art, sem qualquer resultado… comentava: — São telas pintalgadas sem qualquer valor artístico! entre outras adjetivações ainda menos abonatórios. Miss T até na decoração da sua casa era clássica e, na altura em que esta breve história de passou, conduzia um bem conservador Volvo Cinza.

Surgiu porém há cerca de 4 anos uma viagem que a fez deslocar-se a Nova Iorque, não me recordo muito bem porque razão, mas lembro-me que passaria alguns dias pela Big Apple sem grande carga laboral ou académica. Ligou-me antes de partir e disse-me que pretendia visitar os mais significativos museus de arte moderna em Nova Iorque, nomeadamente o famoso MoMA… e se eu teria algum conselho para lhe dar sobre que pintores, que artistas, que fotógrafos a poderiam eventualmente convencer a passar a olhar com menos desdém para a arte contemporânea? Não sabia o que lhe responder… Como é que a obra de um artista em particular a poderia convencer…? se eu sabia de antemão que entraria no MoMA com imensas reservas, apenas para provar a si própria que tinha razão. Pedi-lhe que me deixasse pensar um ou dois dias.

Lembrei-me então que a Miss T tinha por hábito conduzir o seu Volvo a alta velocidade e gostava particularmente de ouvir The Pixies no som do carro — Banda Americana com Origem em Boston caracterizada por uma sonoridade que combina psicadelismo com pop cru, hardrock e surfrock, com letras que tocam o surrealismo e abordam temas como extraterrestre e violência bíblica. Os Pixies são referidos como banda inspiradora de outras bandas posteriores e mundialmente famosas como Nirvana; Radiohead e os The Strokes;. — com o volume perto do máximo, sobretudo a música “Where is my mind — Onde estás a minha mente” que começa assim:

“With your feet on the air and your head on the ground

Try this trick and spin it, yeah

Your head will collapse

But there’s nothing in it

And you’ll ask yourself

Where is my mind?”

“Com os teus pés no ar e com a tua cabeça no chão
 Experimenta este truque e gira, yeah
 A tua cabeça irá colapsar, mas não há nada dentro dela
 E tu perguntarás a ti próprio:
 “Onde está minha mente?”

No dia seguinte envie-lhe uma mensagem que dizia somente: “Quem ouve música com uma sonoridade tão alternativa como Pixies e com letras que roçam o surrealismo, não precisa de artistas de referencia para deixar de olhar para a arte moderna com juízos de valor pré concebidos… basta apenas perceber que as manifestações artísticas gozam de uma imensa diversidade estética sobre a qual aplicamos o nosso gosto pessoal, podendo apreciar ou não mas, não renegar antes de estudar e aprimorar esse gosto com conhecimento. Liga os teus headphones ao teu telefone e entra no MoMa a ouvir o tema Where is My Mind que tanto gostas, pode ser que resulte… “ E resultou. Hoje em dia é a minha fonte de informação mais vasta sobre arte moderna, sabendo bem mais sobre cada pintor, cada escultor da actualidade do que alguma vez eu soube ou saberei.

Voltemos ao gosto e à educação do sentido estético. A cultura também se aprende e a estética é parte fundamental desta. Quando crianças temos dificuldade em entender a complexidade até de alguns sabores de alimentos que mais tarde passam a fazer parte das nossas absolutas preferências. Assim como aprimoramos o paladar com a idade e experiência, podemos e devemos desenvolver o nosso conhecimento estético para que julguemos a arte tendo por base um conhecimento da própria história da arte, dos movimentos de ruptura e das conjunturas sociológicas que os alavancaram. Se não o fizermos seremos como um analfabeto — nunca conseguirá apreciar a rítmica, a métrica e a emoção intrínseca das palavras dos grandes poetas”.

Where is my mind — Pixies

One clap, two clap, three clap, forty?

By clapping more or less, you can signal to us which stories really stand out.