CAZUZA mostra sua cara

Toda a poesia do autor de ‘Ideologia’ no Museu da Língua Portuguesa


“Que maravilha trabalhar ouvindo Cazuza, hein?”, diz uma visitante ao jovem engravatado que está ao lado do painel de controle do elevador. “Nada, experimente ficar oito horas ouvindo quatro músicas repetidamente pra você ver”, reclama o ascensorista do Museu da Língua Portuguesa, em São Paulo, onde fica exposta ‘CAZUZA mostra sua cara’ até 23 de fevereiro.

De fato, para quem ouve desde outubro as mesmas músicas não deve ser lá muito animador. Já os visitantes não têm do que reclamar. A exposição, que tem curadoria do arquiteto e cenógrafo Gringo Cardia, é interativa e irreverente como foi em vida, e segue sendo depois da morte, o autor de ‘Ideologia’.

A experiência começa antes mesmo do público se deparar com as músicas no elevador. Do lado de fora, fotos de rostos anônimos sobrepostos com frases como “meus inimigos estão no poder”, que demonstram a força das letras do ídolo no imaginário popular mesmo 23 anos depois de sua morte, já dão uma ideia do que está por vir. O grande objetivo, segundo o curador, é “mostrar como Cazuza transformou poesia em música” — vale lembrar que Cazuza detestava ser chamado de poeta.

A pincelada biográfica fica por conta da exposição de alguns objetos do cantor, como um par de tênis All Star branco meio encardido, escovas de dente, algumas peças de roupas, alguns manuscritos e seus inconfundíveis óculos escuros e bandana preta.

Pela quantidade de adolescentes entre os visitantes percebe-se que o público de Cazuza não para de se renovar. Muitos deles enfrentam uma fila que dá voltas numa sala para ter seus rostos fotografados, para depois receber a imagem por e-mail com as frases lendárias sobrepostas. A ideia é garantir um avatar cool nas redes sociais. “Não saio sem minha foto. Quero usar no Facebook”, diz uma jovem sorridente enquanto retoca a maquiagem.

Cazuza: o tempo não passa

Há também um espaço com luzes que lembra muito uma balada, onde músicas do “anarquista da MPB” são tocadas em alto e bom som. Depois, por um corredor estreito, o visitante chega a uma pequena sala escura onde estão várias telas verticais que exibem um documentário. No vídeo, depoimentos de personalidades como Marina Lima e Lobão intercalados com especialistas — sociólogos, filósofos e linguistas. Eles analisam as letras e a importância do cantor na identidade política da sua época e, mais recentemente, durante as manifestações de junho de 2013, quando muitas de suas frases ecoaram nas ruas.

Como se tudo isso não fosse o bastante, um karaokê foi montado para dar ao público a oportunidade de cantar com seu ídolo. Numa sala escura, um microfone no pedestal ao centro e o vídeo com a letra da música projetado na parede convidam tímidos e saidinhos para exibir seus melismas. No canto, próximo à saída, na penumbra, uma foto de Cazuza de óculos escuros e bandana dá a impressão de que ele assiste a tudo.

Será que o ascensorista já arriscou soltar a voz?

-——————

O TEMPO NÃO PARA

A exposição ‘CAZUZA mostra sua cara’ segue até 23 de fevereiro no Museu da Língua Portuguesa (Praça da Luz, s/nº − Luz − Centro − São Paulo). O ingresso custa R$ 6.

P.S — Se o seu cartão de crédito é uma navalha, fique tranquilo, aos sábados a entrada é franca.

www.museulinguaportuguesa.org.br

Email me when Cult Brasil publishes stories