Cinco mitos em torno das praxes

Rui Bebiano


As circunstâncias sociais, culturais e políticas são sempre um fator justificativo, mas por si só não bastam, pois em momentos de grave crise ocorridos no passado, foi precisamente o universo estudantil que serviu em boa parte como lugar de acolhimento e de desenvolvimento dos fatores de esperança, de crítica e de transformação que em muito ajudaram a desbloquear situações de impasse social e político. Há por isso algo mais que é preciso ter em conta para compreender a forma como o fenómeno de praxes renasceu, ganhou raízes e evoluiu para as formas absurdas e inaceitáveis que podemos agora observar. Esse algo mais prende-se sobretudo com a inexistência de conhecimento das lições de história, com a falta de de interesses de natureza cultural que sempre formam um atitude crítica e livre perante o mundo, com a ausência da larga maioria dos estudantes de espaços de sociabilização (em grupos de teatro, atividades artísticas e musicais, clubes de cinema ou de leitura, práticas desportivas, experiências lúdicas em grupo, combate cívico ou político), o que, associado ao horizonte de limitado futuro que a atual situação lhes coloca à frente, deixam a maior parte sem um espaço de sociabilidade e de identidade do qual naturalmente carece. Essa vida estudantil associada a uma vivência coletiva, a um tempo de troca de experiências e de suposta identificação de grupo que lhe surge sob a forma de adesão às «praxes académicas» emerge então como um sucedâneo dum processo de integração do indivíduo na vida coletiva do qual todos precisamos. E do qual precisam especialmente jovens, alguns ainda a sair da adolescência, que têm hoje menos de 21 anos.
Não basta acharmos que o estudante comum, que aceita a praxe ou a põe em prática, é um simples e acéfalo maria-vai-com-as-outras, controlado quase sempre pelos medíocres «veteranos», que vêem nestes momentos uma ocasião única para fruírem da autoridade e do reconhecimento que jamais terão no resto das suas vidas. E também não podermos forçá-lo a ler Wilhelm Reich para compreender a psicologia de massas do fascismo e reconhecer o modo como o caminho da submissão cega à hierarquia e ao império do mesmo é um passo curto para o reino uno da escravidão. Mas podemos impedir por regulamento — podem-no o Estado, as universidades, as associações de estudantes, os partidos políticos, as famílias (que por vezes têm também responsabilidades nesta matéria), até as juventudes partidárias (para algo de socialmente positivo podem elas servir) — que o pequeno totalitarismo praxista se instale e governe as escolas superiores e o universo estudantil a seu bel-prazer.

Excerto de post publicado em aterceiranoite.org em 26/01/14

http://aterceiranoite.org/2014/01/26/cinco-mitos-em-torno-das-praxes/

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