O Complexo de Noé

Pôr do Sol no Parque Nacional do Zinave (Foto do Madyo Couto)

O meu pai exaustivamente me envia notícias sobre o que acontece no mundo da conservação, por um lado é bom porque assim isso me facilita o trabalho que teria de pesquisa de artigos interessantes. Bom nos últimos dois dias ele me enviou duas notícias sobre o mesmo assunto. 
Como as duas falam sobre o mesmo assunto vou deixar aqui uma pra introduzir o assunto:

Pra quem não abriu ou não leu tudo vou resumir assim: Um senhor muito rico dono de uma secção numa reserva de conservação no Zimbabue (tem que ser muito rico para ser dono de uma reserva), resolveu que como a sua reserva tem uma população muito grande ele poderia se dar ao luxo de doar 7500 animais ao parque nacional do Zinave por motivos de ele ser uma boa pessoa. O parque e a PPF (Peace Parks Foundation) agradecem e dizem o quanto isso vai ser bom para o parque, para as populações do parque e para o turismo na região.

Bom, pra mim sendo perfeitamente honesto, isto me parece mais um motivo do porquê biológos são uma importante ameaça a conservação . Não estou a tentar ser polêmico ou chato com isto. Mas devo dizer algumas coisas que me vêm a cabeça quando vejo uma notícia assim, e sim, isto se foca tanto em valores de conservação quanto na forma como os conservacionistas se comunicam com o resto da humanidade.

Acho que o mais justo é dizer primeiro o que eu faria numa situação como a que se deparou o senhor Pabst (o alemão muito rico da notícia) , pois bem, se eu tenho uma sobre-população de algumas espécies de mamíferos como indica o artigo (todos eles herbívoros diga-se de passagem) o que eu faria é o que eu acho melhor para essas populações numa perspectiva evolutiva. Que é uma coisa que acho que falta a muitos conservacionistas. Na perspectiva ecológica e evolutiva dinâmica de que não existe um número estavél para uma população se manter num lugar então a ação de remoção de 7500 animais de diferentes espécies se torna totalmente incoerente; o que eu faria é aproveitar o facto de que a Reserva de conservação do vale do Save já se encontra ligada a sul com o Parque Transfronteiriço do Grande Limpopo. E faria um esforço de formação de corredores entre essa reserva e o parque, sem transportar nenhum animal, apenas criaria condições favoravéis para a migração destes. A questão que se coloca aqui numa perspectiva evolutiva é como diz o personagem Ian Malcolm do filme Jurassic Park: a Natureza encontra um caminho. O que ele quer dizer no filme não nos interessa muito, mas o que eles está a dizer num contexto geral biológico é deveras interessante. Pois o que isto nos diz é que se realmente existe uma sobrepopulação como nos leva a crer a frase do senhor Myburgh da PPF que a área em causa tem um número maior do que o necessário de animais então estes animais por si próprios irão perceber isto e iniciar um processo de migração. Então a minha decisão seria o investimento em corredores (compra de terras para a reserva e um monitoramento do movimento dos animais) para resolver este problema de sobrepopulação, se isto for um problema sequer, pode ser que nós estejamos a subestimar a capacidade que a reserva do vale do Save tem de sustentar populações de herbivoros. Pois bem, dei minha opinião.

Mas tenho também criticas a ação de translocação de animais e a forma como se apresenta isto para a sociedade. É aqui que entra o complexo de Noé que falo no título. Creio que não preciso explicar a figura bíblica de Noé, nem porquê essa comparação é tão apta com as arcas feitas hoje em dia por biológos na América do Sul, África, Austrália e Ásia para salvar e/ou repopular áreas relevantes para a conservação. E acreditem, eu entendo essa vontade, de salvar animais que sem resgate iriam morrer ou de ver uma área que sempre teve leões, elefantes e girafas e que por causa da guerra perdeu tudo isso voltar a ter esses animais. Eu entendo a vontade que dá no coração de ver isso. Porém vamos pensar praticamente: quantos estudos de monitoramento efetivo são feitos com esses animais? Qual a qualidade de vida que eles têm? Qual o impacto que esse transporte em carros tem na psicologia desses animais? 
Quando eu vejo a frase do senhor Pabst:

Este processo é uma tarefa linda e preenchedora e nada mais mostra o nosso sucesso ecológico do que o nosso presente de mais de 6000 animais para re-estabelecer o parque nacional do Zinave.

Eu me preocupo, primeiro eu me preocupo que o nosso sucesso ecológico precise ser demonstrado, ele por si só existir deveria ser suficiente.

Segundo, o Parque Nacional do Zinave não tem valor se não existirem mamífero grandes lá? Ele com toda sua vegetação e fauna bravia menor (em tamanho apenas, mas muito diversa) não tem valor suficiente? Não é belo o suficiente sem estes animais nem para nós biólogos que nos professamos amantes da diversidade e de toda vida?

Terceiro, Em que pontos nós caímos no dogma que devemos relocar animais e que populações tem um número máximo para certas áreas? Esta não é a primeira vez que oiço esta história, nem será a última, por estas bandas é comum dizermos isto, a verdade é que se o consenso ecológico hoje é de que a natureza se permite um equilíbrio dinâmico, a certeza de que certos números são sempre equivalente a um equilíbrio populacional é meio preocupante.

Quarto e por último, Qual é a nossa motivação final? Lendo isto quase me parece uma venda turística e de marketing do parque, o parque apenas é reestabelecido quando recebe um número suficiente de grandes mamíferos. Sim, eu entendo a necessidade de usarmos o turismo como uma ferramenta de conservação. Mas porquê não nos contentamos com uma repopulação mais orgânica e calma, porquê não esperar para ver quais tipos de animais viriam até ao Zinave?

Finalizando, acredito que no fim estes animais irão viver bem , assim o espero porque não quero ver vidas perdidas pela minha vontade de ter razão, mas também acredito que muitas das condições que eles terão não são encontradas em outras translocações, esta é uma translocação curta , no mesmo ecossistema e que envolve espécies que sempre viveram na área, mesmo sendo populações diferentes. Mas devo dizer que se eu fosse um dos responsavéis por este processo, eu tentaria fazer diferente, porque devemos sempre nos lembrar: Que mensagem queremos passar?
A mensagem que passamos hoje é: A guerra dos humanos tirou estes animais daqui e os humanos trouxeram de volta. E nós humanos vamos sempre resolver os problemas.

A mensagem que eu gostaria de passar é: As coisas que nós, humanos, fazemos, tem consequências e as vezes é preciso saber viver com estas consequências, se isto significasse que algumas espécies nunca voltariam ao Zinave, que ficasse de lição para nós. Nós não podemos resolver tudo. Nem devemos resolver tudo. A natureza encontra um caminho, não precisa ser transportada numa arca.

Deixo uma imagem da paisagem do parque, sem nada turístico, pois se uma paisagem desta não tem valor por si só. Eu não sei o que tem.

Imagem áerea do parque mostrando a beleza da sua Paisagem (Foto do Madyo Couto)
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