Prévia: Capítulo 12

O segundo ato terminado, um novo ato logo se iniciará em nossa história. E aqui você tem a prévia do que virá no Capítulo 12: Eu vou te proteger.

Zé e Mara retornam à estrada. A caatinga aguarda! Com o bando de Severino em fuga, haverá pouca resistência, certo? Nem tanto: os dois mais letais capangas do Rei do Cangaço espreitam nossos heróis.

O Capítulo 12 estará disponível em uma semana, dia 19/05.


Após a noite tempestuosa, os primeiros raios de sol anunciavam outro dia choroso. Para os habitantes de Vila Judiana, começava outra manhã melancólica sob o julgo dos cangaceiros. Com pescadores proibidos de zarpar, comerciantes reclusos nas casas e mantimentos cada vez mais escassos, as ruas pareciam abandonadas.

A torpidez do vilarejo se quebrou, porém, quando as sentinelas no rio tocaram suas cornetas. Alertavam para a aproximação de dois pequenos veleiros vindos de Bota do Judas, na margem oposta do Chico Propício. Embora ainda distantes, as embarcações pareciam cheias de gente.

Diante do alarme, os sonolentos cangaceiros saltaram das camas e redes e pegaram as armas. Sob o chuvisco matinal, corriam para o rio, distribuindo-se nos píeres e palafitas para interceptarem os possíveis invasores antes que pudessem aportar.

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Em um dos barcos, Mara’iza praguejava sem parar: “Néscio inconsequente! Parvo estúpido!”. Sua face estava tão enrubescida que parecia queimada de sol. Nas mãos tinha o embornal de Calabros, no qual nervosamente enfiava as roupas deixadas para trás. “Que ideia apalermada! Ele tinha que fazer… aquilo?”

Coronel Adelina Malícia, com espingarda em mãos, chapéu na cabeça e revólver na cintura, gargalhava descontroladamente. “Ah, Mara! Vai dizer que não foi interessante?”, provocava.

Desconcertada, Mara’iza desviou o olhar e não respondeu.

André Meneses ainda procurava sinais na água. “Ele é louco!”, desabafou. “Pular no rio a essa distância da margem, e embaixo de chuva! Se não se afogar, vai ser levado pro mar!”

“Tenho fé de que Zé vai ficar bem”, interrompeu Coronel Samuel Garrancho. O ombro ainda não estava perfeito, mas já conseguia empunhar a espingarda. “Já, já a gente vai estar no alcance das armas dos bandidos. Atentem-se, que vem chumbo grosso aí!”

Nos dois barcos, os coronéis levavam quarenta homens, mas não tinham ideia de quantos cangaceiros os aguardavam em Vila Judiana. Dependendo do tamanho da força inimiga, talvez tivessem que recuar.

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Três dos bandidos, Taturana, Sortudo e Tamborete, correram para a casa sobre palafitas mais ao sul, cujas janelas seriam perfeitas para atirar contra os barcos. Taturana, líder do trio, bateu violentamente na porta gritando ordens. “Abram! A casa tá confiscada em nome de Severino, Rei do Cangaço!”

Um pescador de meia idade abriu a porta, implorando: “Não faz mal pra gente não, por favor!”. Nos fundos da sala, que também servia de quarto, uma mulher assustada abraçava duas crianças pequenas.

“A gente só quer a casa! Saiam, que a gente não faz mal!”

Aterrorizado, o pescador meneou positivamente a cabeça e correu para puxar a mulher, enquanto os cangaceiros esperavam à porta.

Foi quando a voz furiosa de Zé Calabros veio de trás, surpreendendo os três malfeitores. “Ei, estropício, me dá suas calças!”

Tamborete e Sortudo foram agarrados e nocauteados um contra o outro antes que se voltassem ao intruso. Taturana se virou, mas a espingarda foi arrancada de suas mãos antes que atirasse, e em seguida o cangaceiro foi prensado contra a parede.

Encharcado e totalmente nu, Calabros ameaçou: “Vai baixando as calças, seu fela-d’égua!”.

Imobilizado e encarando o punho do adversário, Taturana implorou: “Por favor, seu moço, me dá uma surra, mas não bolina comigo não!”.

A sugestão deixou Zé indignado. “Que ideia mais troncha, ô abestado! Tá pensando o quê? Não vim aqui fazer bobiça, a única coisa que vou lhe meter é a mão na cara!”.

“Ah, se for assim, então tá bom!”, Taturana respirou aliviado. Prontamente, abriu o cinto e tirou as calças.

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Os barcos estavam a menos de cinquenta metros das palafitas quando os cangaceiros começaram o tiroteio. A saraivada inicial rasgou velas, abriu furos na estrutura e feriu alguns dos homens a bordo, levando-os ao chão. Logo, guardas e jagunços dispararam de volta, enquanto Mara’iza e os coronéis se protegeram atrás dos parapeitos do convés.

“Esse é meu tipo de farra!”, Malícia riu, depois se levantou para disparar. O tiro de espingarda foi certeiro, derrubando um bandido no píer. Comemorando com um brado vitorioso, ela se abaixou para recarregar a arma em segurança.

Garrancho e André Meneses também revidavam fogo. “Parece haver menos bandidos do que esperávamos”, comentou André.

Mara’iza se levantou e, estendendo a mão à frente, conjurou uma barreira diante de si e avaliou a situação. Notou bandidos nas cabanas e no mato junto à margem, mas muitos se concentravam no píer, protegidos por caixas, barris e pilhas de madeira. A magista sorriu discretamente ao ver um bandido ser violentamente defenestrado de uma casa ribeirinha e, sentindo o escudo arcano se esgotar, abaixou-se novamente atrás do parapeito.

“Aquele ogro idiota chegou à margem!”, ela respirou aliviada, tentando esconder o sorriso. “Está nas casas à direita do barco!”

“Não acredito!”, André Meneses se admirou.

“Eu sabia!”, riu Garrancho. “Mandem os guardas evitarem atirar naquela direção!”

“Porreta!”, exclamou Malícia, “mas agora a gente precisa duma ajudinha mágica, menina!”

“Há alvos demais, derrubar um a um a esta distância seria ineficiente e exaustivo”, Mara retrucou. “Aliás, minha cara coronel, lembra-se quando, ontem pela manhã, me indagou sobre a possibilidade de concentrar mais poder num único disparo?”

“Sim”, a coronel confirmou, estranhando o assunto. “Você aprendeu a fazer isso?”

“Não”, Mara’iza respondeu com um sorriso arrogante. “Mas o questionamento abriu-me a mente a novas possibilidades. Acelerem essa barcaça para a doca, preciso encurtar a distância. Depois, contemplem!”

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