Arrogação

LEO ELOY/ESTÚDIO GARAGEM/FUNDAÇÃO BIENAL DE SÃO PAULO

Uma pista de skate que brilha no escuro. Um gigantesco buraco cavado no chão de um parque, de curvas arredondadas e beirais reforçados, revestido a uma mistura alienígena de cimento e tinta fosforescente que acende com a noite. De dentro do pavilhão da Bienal de Arte de São Paulo deste ano vêem-se no fim do dia as silhuetas escuras dos skatistas (como escrevem os jornais brasileiros) contra o fundo brilhante daquela estranha construção.

A obra é da artista sul-coreana Koo Jeong A e integra uma bela coleção de parques brilhantes em lugares como Liverpool ou a ilha francesa de Vassivière.

Falei disto numa mesa de café com o entusiasmo e a competência com que se costuma falar das coisas em mesas de café. A obra passou a magnifica-incrível-e-tudo, e Coimbra foi eleita como a localização evidente o próximo parque brilhante a construir. Entrei nos pormenores, como convém, e decidi sozinho aproveitar o parque que já existe ali perto do rio. Responderam-me com severo criticismo, como é normal responder-se numa mesa de café. Chamaram-me a atenção para uns problemas com concessionários e inundações.

A pista que brilha no escuro fez-me lembrar o prazer de deslizar num rampa inclinada e nessa noite sonhei que tinha voltado a andar aos trambolhões na bicicleta que me arruinou as canelas e as costas durante anos. As respostas que me deram no café também me trouxeram recordações com a mesma idade. Quando eu pedia rampas para andar de bicicleta perto de casa as respostas eram muito parecidas Os argumentos variavam. As palavras eram outras mas o ruído que eu ouvia era o mesmo que ainda ouço agora quando alguém me fala das razões para não fazer uma coisa incrível: blá-blá-blá-blá.

(Esta história foi primeiro publicada no Diário de Coimbra de 10 de Outubro de 2016)