Assedasse pouco depois da hora mágica em que os fotógrafos e os pastores se levantam.

Assedasse

Descemos a encosta de mais um dos montes da serra e o tapete preto teima em não desaparecer debaixo das rodas para dar lugar à terra batida que o Inverno marca a gosto e que afasta a maioria dos carros e dos seus condutores. O alcatrão vai mesmo estender-se até depois da capela da senhora de Assedasse, e só termina uns metros abaixo depois do portão do Hermínio. Já depois da estrada e antes do milho verde está uma placa de sentido proibido pendurada numa estaca, mais ferrugenta e gasta que o novo tapete. Daqui a pouco temos os carros parados e concordamos em não saber o que pensar sobre aquela estrada de alcatrão.

- É preciso que mais gente conheça isto. — Só vão à torre. Mas, também é preciso que isto seja isto: uma paisagem que nos faz abrir os olhos e a boca para tentar sem sucesso engolir a vastidão. E, o sítio onde sabemos que corremos o risco de nos cruzarmos com o Hermínio. A estrela de um documentário romântico sobre os últimos pastores da Serra da Estrela. Ele não tem grandes dúvidas. — A estrada nova é boa? — Então-não?! — Claro. De olhos na estrada vemos passar sobretudo os jipes de sempre. Os que já ali passavam antes e que passariam mesmo depois do pior dos invernos e dos seus sulcos profundos no caminho. E as moto-quatro. — Atravessam-me o lameiro. Dão cabo daquilo. — Às tantas nem sabem o que é um lameiro.

(Eu também não. Mas só mais tarde hei-se perguntar ao Tiago que sabe mais destas coisas e me explica que é um pedaço de terra junto de um curso de água que se aproveita para deixar crescer uma erva mais verde e tenra para dar aos animais)

- Sai-me do corpo. Pensas que não? De manhã chega um casal simpático com vontade de conhecer o lugar. Também vêm num jipe mas daqueles de subir passeios que talvez não consiga subir o monte de volta, mesmo pela estrada preta. Vão visitar o Hermínio. — O homem já está ali a preparar a casinha para as cabras dormirem à noite. Mais tarde vamos encontrá-los um pouco acima na estrada preta (afinal subiu) junto à casa de outra das personagens do documentário que tirou aquele vale do anonimato e que levou o Hermínio a voos que merece e a uma atenção que o faz sorrir apoiado no cajado. — Podes usá-lo. Pega lá. — É muito macio. A primeira vez que vi aquele ramo de castanheiro já era o cajado macio do Hermínio e já ele o tinha descascado e amaciado com a ajuda de uma fogueira e de umas mãos que não têm medo do fogo. Atirou com ele a uma ovelha tresmalhada. E, não soube o que pensar disso como hoje não sei o que pensar daquela estrada. — Ó Hermínio a estrada nova é boa? — Então não?!

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