Coimbra é nossa

Coimbra é nossa, grita alguém debaixo da minha janela. Coimbra é praxe, escreve uma juventude partidária em caixa alta num cartaz enorme afixado no Jardim da Sereia. Em rigor manda escrever e afixar que a juventude não tem vagar para esses trabalhos e está equipada com os recursos económicos necessários para pagar à razão de 1 por hora sobre 8 de 40 a quanto decidiram os pais dessa juventude que se paga pelo serviço. Coimbra é também fado, claro. O que faz de Coimbra bela na despedida. Os amores que alguém lá teve eram de se chorar por eles lágrimas que enchem um rio que, em boa verdade, enche com pouco de tão assoreado que está faz para mais de um tempão. Coimbra é isto tudo e mais um chorrilho de asneiras gritadas pelas ruas em vozes esganiçadas que soam a vergonha alheia e só não dão mais pena porque incomodam. Que o caso não sendo chorar é pelo menos para alguma ternura. Quem grita impropérios pelas ruas de Coimbra é uma rapaziada a quem a vida ainda não deve ter dado melhor que aquele instante de boçalidade. Uma liberdadezinha que eles já devem adivinhar que sendo pequenina e sem jeito pode ter sido o mais que se arranja por muito tempo para uma juventude perdida entre cerveja barata e a promessa de uns reboliços de lençóis.

Terminado o curso só se pode esperar pior. A mesada já não parece tão curta comparada com o ordenado do senhor doutor. O quarto de estudante promete deixar saudades quando o senhor engenheiro tiver de voltar a partilhar casa com os seus pais. As aulas nunca terão sido tão aborrecidas como o trabalho que se arranjou depois de 3 estágios não remunerados.

Coimbra é deles por um instante, um breve, ruidoso e excessivo momento. Ninguém dúvida disso. O que eles não sabem (nem sonham, apetece dizer) é que Coimbra é também, dia após dia, no inverno e no verão, de quem nunca entrou numa faculdade, nem para um café no bar. De tantos que nunca ganharam um chavo com os trajes, os nabos, as pastas e a cerveja. A Coimbra Nossa que eles gritam nas ruas é também de quem ali vive toda a vida sem nunca ter gritado nas ruas que Coimbra é sua, e há-de ser.

Esta história foi publicada no Diário de Coimbra de 26 de Setembro de 2016. A fotografia encontrei-a no Facebook.