Do Rossio à Betesga

Os meus dias estão frequentemente entupidos de discussões sobre projetos que vão tornar uma cidade mais criativa, smart e tal. Primeiro são os equipamentos em falta. Depois o dinheiro que não há para os comprar. Até que, cedo ou tarde, o dinheiro chega e compra tudo e mais um par de botas.

Não poucas vezes, estas discussões levam-me de volta a uma história que me contaram na escola.

Uma história do tempo em que o teatro se fazia nas ruas em cima de barris. Os palcos grandes levavam mais barris e mais actores. E ficavam reservados às ruas largas, como o Rossio, onde cabiam sem acidentes de maior as multidões atraídas pela grandeza encenada pelos carpinteiros navais que biscatavam palcos quando o trabalho de pregar convés não chegava para todos.

Conta-se que por avareza algumas companhias poupavam nos barris e nas licenças, montando na Rua da Betesga espectáculos para multidões que não cabiam na mais pequena rua de Lisboa. Um ato trágico não previsto pelo dramaturgo. Aquela esperteza saloia transportava o destino trágico dos heróis que se apaixonam e a desgraça abatia-se sem piedade sobre o público, esmagado, entre as paredes daquela rua estreita.

Quando se encafulam equipamentos em praças e avenidas procurando melhorar as cidades com mais um banco, um lago, um palco, uma esplanada, um candeeiro, um quiosque, um mapa, uma escultura ou, tragédia das tragédias, ecrãs obsoletos com informação que ninguém ficou encarregue de actualizar, o resultado é uma cidade sem espaço para coisas novas que esses equipamentos na sua utilidade não puderam prever.

O recinto da feira é um bom exemplo de um espaço pronto. Nunca mais pequeno que um campo de futebol que é ocupado de forma despreocupada pelo frenesim dos vendedores, primeiro, e pela multidão que chega para comprar, mais tarde, até voltar a ficar vazia, e limpa, no fim do dia, ou da noite.

Curiosamente foram estes recintos de feira que definiram o futuro de muitas das nossas cidades. As cidades com as maiores feiras cresceram ricas à volta dos negócios feitos naqueles terreiros que agora nos perturbam como se o seu vazio fosse um crime.

Preenchidas algumas linhas com o óbvio resta-me constatar o evidente. Ninguém no seu perfeito juízo vai espalhar cartazes nesta cidade ou noutra pedindo votos para demolir equipamentos obsoletos e encher de vazio os espaços atulhados. Afinal de contas quem é que ía investir em cartazes assim?

(Eu dava qualquer coisinha mas não creio que bastasse.)

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