Engraçado

“Engraçado” e “giro” estão no topo da lista: palavras que mais vezes ouço sobre o meu trabalho em conversas de café. Isso costumava incomodar-me muito. Talvez por me levar demasiado a sério. Talvez por insegurança. Agora dou-me conta que quando alguém diz que

— Deve ser giro

fazer o que faço, horas e horas a fio. Quando um lábio torce as pontas, trocista, em reacção a um

— Tive de ir ver um concerto

está a prejudicar-se tanto ou mais que a mim. A mim claro, na sociedade em que tudo tem preço e que o preço é formado pela valorização da necessidade, onde até um médico a pingar suor da testa e sangue das mãos tem de se por em bicos de pés para que lhe paguem as horas passadas nas urgências, nesta festa do dinheiro em que tudo se pesa e mede por e com ele, claro que me prejudica as contas acharem que o que faço é uma espécie de permanente excursão balear. Mas, hoje acho mesmo que não sou o mais prejudicado por esta maneira de ver. Pode ser arrogância, mas acho mesmo que quem, com ou sem maldade, aponta um programador cultural ou um curador de um museu como gente que se entretém dia-após-dia com uma vida-santa, imaginando-os mergulhados no tédio aristocrático de nada poder fazer, esses são os mais prejudicados. São eles que vêm a qualidade da vida nas suas cidades mirrar, ou nunca crescer, como um pão mal amassado. São os que não exigem que as escolhas sejam feitas por alguém que consegue explicar porque as fez, sem soluçar, os primeiros a levar com a mão pesada da conta para pagar pelos teatrinhos e festões que animam o céu por uma noite com clarões de pólvora e não deixam no chão árido da cidade uma mísera semente que faça crescer entre as pedras uma vida mais interessante.

Não é que o meu trabalho salve vidas — para isso temos os médicos. Mas, o meu trabalho como o de muitas outras pessoas, é feito de escolhas. A responsabilidade que coloco nessas escolhas pesa-me nos ombros. A porreirice com que me sugerem uma catrefada de ideias fixes que viram ontem à noite, tira-me algum do peso que me comprimia, feitas as contas a minha preguiça agradece e quando olho à volta fico menos surpreendido com o que vejo. Se a bitola vai de giro a engraçado, é menos surpreendente o uso que têm os equipamentos públicos de cultura, é mais fácil de entender o despesismo

(escrevo “despesismo” e o dicionário do computador sugere ‘despotismo’, avante)

e a ninguém devia pasmar que o ensino artístico seja o principio de uma vida de mendigo. Sobretudo, se me permitem, não esperem que alguém se lembre das ‘coisas engraçadas’ daqui a uns anos, essas coisas fazem parte da vida, e ainda bem, mas duram pouco, são por definição substituíveis por outras mais ou menos engraçadas, mas sempre novas, chamemos-lhe: a coisa engraçada que se segue.

É por isso que procuro fazer coisas menos engraçadas, talvez um dia caiam em graça e seja essa essa a grande vitória.