(esta história foi publicada no Diário de Coimbra de 7 de Dezembro de 2015)

InveMMMções

Nos anos 20 os melhores clientes da pequena Minnesota Mining and Manufacturing (hoje 3 M) eram os pintores de automóveis. Compradores ávidos das folhas de papel com 16 a 3000 grãos de areia por centímetro quadrado. Um negócio proporcional à infelicidade dos próprios pintores que penavam para cumprir o capricho da moda e pintar duas longas riscas de outra cor nos carros da clientela. Tarefa frustrante para quem tinha apenas a ajuda de papeis de jornal e cola de sapatos. Ao mínimo deslize todo o carro tinha de ser novamente pintado e lixado.

Um bom negócio que um dos vendedores de lixas tratou de desfazer.

Richard Drew dedicou-se durante meses à invenção de um papel autocolante que os pintores pudessem usar para delimitar aquelas riscas sem estragar a pintura original. Entre as suas horas livres e um período concedido pela empresa para a pesquisa , conseguiu chegar a um protótipo que não parecendo muito promissor só poderia ser produzido com uma máquina que a empresa não tinha.

Aqui entra o patrão, William McKnight, um homem de visão, o primeiro a dar aos empregados horas de trabalho para os seus projetos, alimentando com esta ousadia um arsenal de patentes irrepetível. Ousado e sensato deu a única resposta possível a esta proposta de investimento: não.

Drew, o inventor, inventou uma solução. Autorizado por defeito a despesas até aos 100 dólares, perfez o valor daquele investimento num frenesim de encomendas de 99 dólares, sem ser descoberto até a máquina estar paga.

Da reacção do patrão a esta ardilosa trapaça não reza qualquer história. Sabe-se o que se seguiu. A invenção e comercialização da fita-de-papel, usada até hoje na pintura de quase tudo.

Nos anos seguintes a 3M inventou a fita-de-electricista, em vinil autocolante, a fita-cola transparente e muito mais, incluindo uns quadradinhos de papel que colam e descolam sem danificar os livros, os “post-it”.

Agora pegamos nesta história e vamos comprar ovos e açúcar para fazer a receita? Podemos usar o robô-de-cozinha para misturar os ingredientes da inovação? Não me parece.

As histórias de inovação não são receitas. Os cadernos onde se anotam estão cheios de erros e de rasuras. Os seus cozinheiros têm os aventais cheios de nódoas e muitas vezes se mantiveram o emprego foi porque beneficiaram de uma proteção injusta. É isso que estas histórias ensinam, parece-me.