Uma Fotografia


Abro mais uma janela no ecrã já com demasiadas janelas abertas e vejo as gordas:

– Fotografia mais cara do mundo.

Aquilo não me impressionou muito. Nem muito nem pouco em boa verdade.

– Quero lá saber que alguém tenha pago xis milhões por uma fotografia.

Mas, por baixo desta notícia-não-notícia, uma janela mais pequena do que a primeira anunciava a fotografia derrotada. Um campo verde rasgado por uma estrada era agora a segunda-fotografia-mais-cara-do-mundo. A primeira fotografia não me entusiasmou demais mas esta pareceu-me predestinada a substituir o fundo cinza escuro debaixo daquela janela e das outras já abertas antes daquela, na camada de ecrã a que chamamos: ambiente de trabalho.

Guardei a fotografia e arrumei-a nas suas novas funções. Gostei tanto do resultado que repeti isto para o outro ecrã mesmo ao lado.

Não me lembro se depois disto feito me encostei na cadeira para apreciar a fotografia mais cara do mundo, até à véspera, esticada nos ecrãs na minha mesa. Vamos assumir que sim, que me reclinei na cadeira lentamente com um sorriso sério e meditativo contemplando a obra. Assumir isto parece-me satisfatório para efeitos de verosimilhança.

– Ah. Essa é a fotografia mais cara do mundo.

– Já não é. Agora…

– É o caminho que o fotógrafo fazia todos os dias para a escola. Mas é muito polémica, há quem diga que foi editada no Photoshop.

Não disse

– faz sentido que sejam precisos alguns retoques para ter uma fotografia do caminho para a escola como nos lembramos dele.

– Gostas?

– Sim. É muito bonita.

Voltei ao trabalho. Ou pelo menos voltei a ter aberta uma janela mais discreta, com letras e números. Sem histórias de fotografias vendidas em leilão ou memórias de infância que precisam de edição para serem uma mais valia.