A jornada das leitoras

Arte: Dora Leroy

“Fazendo da vida uma biblioteca”. Maria Antonieta Celani olha para cima, para todos os livros ocupando apenas uma das muitas estantes que se espalham por cada cômodo de seu apartamento.

Em seu escritório, ficam os livros que usa como professora e pesquisadora de linguística. Ela aponta para os teóricos, teses de alunos, livros de gramática e dicionários que preenchem as paredes até o teto.

Em seu quarto ficam os livros de culinária. Rindo, ela reconhece a ironia de que não cozinha mais, mas que com o passar dos anos conseguiu acumular aquela quantidade, dos pequenos livros apenas sobre tomates até grandes volumes sobre chocolates. Sua coleção favorita começou quando morava perto de uma livraria que vendia apenas esse tipo de livro.

Em cima da porta, ficam os livros de ficção e romances, assim como no corredor, junto com uma variedade de livros pequeninos; na sala, ela deixa as poesias. E tem um espaço especial para os três ou quatro livros que salvou de outra biblioteca, a do seu pai.

Uma biblioteca de respeito para seus 93 anos, quase todos passados como leitora.

Dos tempos de menina, ela lembra bem de que ficar doente tinha sempre um lado bom, a recompensa era ficar por horas vendo os livros do pai. Quando Antonieta terminou o ano escolar, ele deu de presente “Reinações de Narizinho”, do Monteiro Lobato, autor do qual depois ela iria atrás de tudo o que tivera escrito. Quando terminou de ler esses, foi na biblioteca do pai que procurou por novas leituras.

Ela só não se lembra de como aprendeu a ler. Para Antonieta, há apenas uma memória clara de uma tarde no bonde em que olhou a sua volta e começou a ler. “Simplesmente li, assim, estava lendo”, ela suspira.

Com cinco teses de doutorado e mais quatro de mestrado que ela está orientando no momento, sua biblioteca não para de crescer. Afinal, “tenho que me manter atualizada”.

Hoje, com as facilidades da vida moderna, ela compra pela internet para receber em casa. “Eu compro muito da Amazon, não sei se você sabe o que é. Bem, eu escolho os títulos de acordo com as orientações que estou fazendo no momento”, ela explica.

Se Antonieta já leu todos os livros em sua casa? Ela ri e balança a cabeça: “Não, todos não”.

Todo ávido leitor tem uma recorrente preocupação: tantos livros para ler, tão pouco tempo. Leitura é um esforço constante, pode acontecer a qualquer momento, desde a infância e até a velhice.

A biblioteca de Claudia Oliveira ainda está em construção e indo muito bem. A meta de leitura, porém, às vezes — quase sempre — está fora de controle.

A jornalista de 28 anos se viu enrascada quando voltou do mestrado no Reino Unido acompanhada de uma bagagem de livros.

“Eu já tinha muitos livros, mas quando terminei o mestrado no qual estudei ficção científica, voltei muito empolgada com as leituras novas, com muito mais livros não lidos, mas com a determinação de ler”.

Então, veio a ideia para o projeto do “Tô lendo”, seu canal do YouTube: ficar um ano sem comprar nenhum livro, correr atrás das leituras atrasadas na sua biblioteca pessoal — e com ajuda de alguns empréstimos em bibliotecas públicas. A cada leitura nova, ela fazia um vídeo comentando o que mais gostou.

Foi difícil, mas a experiência trouxe novas formas de encarar suas leituras. “A gente cria muitas regras sobre a leitura. É mais saudável ter uma relação bacana e sem pressão”, conta Cláudia. “Não preciso gostar do todos os livros do autor que amo ou persistir em um livro que não estou curtindo”.

Então, além de redescobrir livros incríveis que já estavam na sua estante, ela aprendeu a refinar seu filtro. Por outro lado, o desafio foi uma lição sobre consumo, de priorizar as leituras que quer ou que precisa.

E é tão difícil resistir às novas capas bonitas, edições especiais e lançamentos constantes.

Como toda leitora, ela vê seu gosto se expandindo por autores e gêneros, leituras por prazer e para o trabalho, e o pouco tempo de sempre para ler tudo o que deseja.

A jornada de Claudia como leitora começou em outra biblioteca, a da escola, onde foi inspirada pela simpática bibliotecária, que sempre estava disposta a ajudar aquela criança perdida entre as estantes a encontrar livros novos. “No começo, ela me ajudava a entender palavras, mas depois virou a maior pessoa a recomendar livros pra mim”.

“Eu sempre gostei de folclore, magia era comigo mesmo”, ri Claudia. “Harry Potter foi um marco pra mim. Eu sabia que gostava de ler, mas depois aprendi que gostava de fantasia. Teve uma evolução de sempre querer ler mais e melhor. Se estava lendo um livro legal da Agatha Christie, queria que o próximo fosse melhor ainda. Cheguei a um ponto de gostar de ler tanto que queria ter mais contato com coisas novas, mas também queria entender o que já gostava muito. E então fui atrás do mestrado”.

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