Mas o que a leitura pode fazer por você?

Arte: Dora Leroy

Mesmo lendo tanto, ainda podem faltar palavras para os leitores descreverem a importância da leitura em suas vidas.

Por sorte, estudos recentes ajudam a apontar as vantagens que os leitores têm sobre os “não leitores”. Eles podem se gabar que terão mais tempo na vida para ler, por exemplo. Quase dois anos a mais, de acordo com uma pesquisa da Universidade de Yale.

“Para mim, a leitura é vida”, resume Clarice Fortkamp Caldin, que não tem problemas em encontrar benefícios da leitura para as pessoas.

Clarice é professora no curso de Biblioteconomia na Universidade Federal de Santa Catarina e percebeu que seus alunos tinham muitas aulas técnicas, mas que estavam perdendo a perspectiva social das práticas bibliotecárias.

Assim, ela introduziu no curso a disciplina da biblioterapia.

A prática usa o livro como um remédio “bom, barato e indolor”. Por meio da mediação de leitura, sem pressão ou cobranças, a pessoa ganha instrumentos para entender melhor problemas ou para escapar do estresse gerado no cotidiano.

Segundo a professora, por meio das histórias, as pessoas podem participar de outras realidades, vivendo aventuras e desvendando tramas. E essas lições extrapolam a ficção para se tornar aprendizados para a vida.

“Como a leitura de um texto literário admite várias interpretações, cada leitor tem a possibilidade de inferir os sentidos que desejar”, explica Clarice. “Isso implica em fomentar e apaziguar suas emoções, com um efeito catártico, identificar-se com a personagem que, particularmente o seduziu ou comoveu, ou avaliar seu comportamento à luz do comportamento de determinada personagem.”

Assim, a leitura pode ser um ato de reflexão, descontração e aprendizado sem a necessidade de ativamente se esforçar para isso. As histórias têm o poder de mudar as pessoas.

“Como a literatura apresenta uma realidade diferente da cotidiana, sua leitura conduz a experiências novas e estimulantes, seja para o intelecto, seja para o emocional. Nesse sentido, ler torna as pessoas mais felizes — pois elas se soltam das amarras do viver tradicional permeado de afazeres, compromissos e deveres”, explica a professora.

Embora viver mais dois anos seja bom, os benefícios da leitura vão muito além. Assim como defende Clarice, a leitura pode melhorar a qualidade de vida das pessoas. E um estudo da Universidade de Liverpool junto com a The Reader Organization encontrou melhoras no bem-estar em comum entre os leitores.

Na pesquisa, 57% dos entrevistados declarou que ler faz com que se interesse mais em mundos fora do seu próprio. Para 45%, uma das vantagens de ler é entender melhor os outros; 38% concordam que podem esquecer seus problemas e 31% se sentem encorajados por personagens inspiradores.

Um bom livro pode ser fonte de inspiração para melhorar a vida: 38% já foram viajar por causa de algo que leram, 20% começaram a cuidar melhor da própria saúde e 12% procuraram por um novo emprego ou saíram de um emprego ruim para elas.

A biblioterapia não é muito conhecida, mas a pesquisa revela efeitos bem conhecidos para os leitores. Segundo a professora, melhorar sua qualidade de vida por meio da leitura é simples assim — só começando a ler.

“Mesmo sem saber, cada pessoa que apanha na prateleira um livro de histórias, contos, crônicas, poesia e senta-se para ler tranquilamente, está praticando a biblioterapia”, conta Clarice. “Está comprando um tempo para si, um tempo dedicado a uma conversa íntima com o autor do texto, com as personagens.”

Mas a prática também pode ser coordenada por um psicólogo ou por um bibliotecário. Ele seleciona textos, depois inicia debates, diálogos e realiza atividades complementares em grupos para guiar o aproveitamento da leitura.

Clarice acredita que o brasileiro lê, mas que geralmente procura por textos informativos, deixando a literatura em um segundo plano. “São vários os fatores: preço do livro, a falta de incentivo em casa e na escola”.

Ela critica a forma como a leitura é cobrada no ensino, que dá pouco espaço para o que texto seja apreciado e uma conexão emocional seja criada.

“Matar a vontade de ler em uma criança é fazê-la ler um livro para contar a história, descrever as personagens, identificar a mensagem do autor — essa é a cobrança pior de todas, pois não permite a interpretação e não admite sua expressividade”, fala a professora.

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