Arte: Dora Leroy

Os caminhos da leitura no Brasil


Quando leu Quarto de Despejo, da Carolina de Jesus, Tula chorou. Em um livro emprestado ela leu sua história e a de sua mãe, sobre suas próprias escolhas e dificuldades.

“Tudo o que eu passei, ela passou”, conta Tula Pilar Ferreira, poetisa da periferia de São Paulo, lembrando sobre sua infância nas favelas de Belo Horizonte.

Naquela época, ela e sua irmã acompanhavam a mãe para a casa onde trabalhava como cozinheira. Muito em breve, as duas também começariam a limpar casas. Mas foi nesse ambiente que Tula encontrou seus primeiros livros, nas estantes das patroas, e que teve a chance de mudar sua história.

Todas as crianças ficavam espantadas quando ela contava as próximas aventuras da Emília e da Narizinho. Ela adorava que já tinha lido tudo aquilo e que sabia muito mais, sobre Alibaba e seus quarenta ladrões ou sobre Branca de Neve e os sete anões. Ela e a irmã liam de tudo, da ficção até enciclopédias que compravam em bancas de jornal. Nas horas livres do trabalho, ela já rabiscava alguns versos em pedacinhos de papel.

O tempo passou. Tula foi mãe solteira uma, duas, três vezes. Mudou-se para São Paulo, terminou sua educação na EJA. Foi na periferia, em Campo Limpo, que reencontrou a vontade de escrever. De uma primeira visita tímida acompanhada da filha mais velha a um sarau do lado de casa, ela logo subiu ao palco para recitar seu primeiro poema.

Naquele espaço, ela se encontrou na dança, na música e na sua poesia. Junto a novos amigos e oportunidades, vieram novos livros e versos.


A leitura no Brasil é feita por pessoas como Tula. A nossa volta existem leitores em potencial, só esperando que a história certa os coloque no caminho da leitura.

Afinal, contar histórias já é natural para nossa sociedade. É uma necessidade e característica humana. Da invenção da escrita no barro e na pedra para os rolos de papiro egípcios, sua organização em livros e sua propagação pela imprensa de Gutemberg, as histórias persistem.

Elas já são maiores do que nós, achando seu caminho para transcender a vida de seus autores no tempo e se fundir à sociedade.

E estão por toda a parte. Elas podem chegar por jornal ou por mensagens no celular, mas vêm por palavras escritas.

Do analógico para o digital, a linguagem escrita domina a sociedade moderna. Saber ler é um requisito necessário para um ingresso e atuação plenos no mundo. As estruturas da sociedade exigem leitores plenos e, hoje, existimos mais por meio da escrita.

No entanto, segundo a pesquisa Retratos da Leitura no Brasil, apenas 56% da população brasileira é considerada leitora. Leitor, para a pesquisa, é aquele que leu ao menos um livro a cada três meses. O censo de 2015, sua 4ª edição, mostra um avanço em relação à pesquisa passada, em que metade da população podia ser considerada como leitora.

Ainda assim, isso é pouco para um país que em 2014 possuía 91,7% de pessoas alfabetizadas.

Então, o que falta para o Brasil ser leitor?

Muito além de ser vista como valiosa dentro da sociedade apenas por sua função, a linguagem precisa de meios para transmitir as histórias e se integrar ao nosso cotidiano. Dentro desse ciclo, existem diversas falhas que se tornam empecilhos para a universalização da leitura no Brasil.

Mais do que nunca, a palavra escrita está ao alcance da população brasileira. Temos escolas atuantes, que alfabetizam os cidadãos, porém também temos altos índices de analfabetismo funcional, 27% dos brasileiros têm dificuldades no uso simples da leitura e escrita. Essa taxa, calculada pelo Inaf, se manteve igual desde 2009, a meta nacional para 2024 é de 13,5%.

Com a indústria dos livros, os veículos de comunicação e a era digital, a estrutura de difusão da escrita se torna mais diversa. Porém, encontra obstáculo logístico por conta do tamanho do país e o alcance limitado à internet.

“Há uma demanda histórica por ler. Portanto, é um direito”, explica Edmir Perrotti , professor do curso de Biblioteconomia da Universidade de São Paulo. “Não é uma questão de superioridade da cultura letrada para a oral, mas o desenvolvimento de novas habilidades e vantagens que a escrita traz. Gostar de ler é algo íntimo, porém devemos oferecer esse direito à escrita e à leitura”.

Segundo o professor, uma das dificuldades é o fato da leitura não ter se assimilado completamente como parte da cultura do brasileiro. Ele aponta problemas históricos do Brasil, principalmente a recente alfabetização da população e persistente influência social da cultura oral.

“A ideia de leitor é de algum modo associado a um leitor da indústria do livro. Nós não nos apropriamos das inúmeras possibilidades que a escrita possa oferecer, desde o uso mais simples, pra fazer uma comunicação direta por mensagem, até quem tem uma relação com textos mais complexos, longos e densos que demandam outro tipo de atitude, concentração e tempo da pessoa”.

Ainda falta ao brasileiro uma relação social com a escrita e textos mais densos, aqueles literários. Assim, a leitura cumpre algumas de suas funções, aquelas para ler o mundo imediato a nossa volta e nos comunicarmos, mas encontra barreiras para seus usos mais complexos, como livros literários ou para a escrita criativa.

“Apropriamo-nos do código, mas não da cultura”, ele resume. “Eu posso ensinar o sujeito a ler, mas isso não o torna participante da cultura. Ele é marginalizado quando tem que interagir com ela e não sabe se colocar”.


Tula teve que ir a escola da sua filha mais nova. E foi com muito prazer que aceitou o convite da professora.

Tudo começou com o turbante que Dandara usava e que alguns colegas tiraram sarro. Chateada e sem querer voltar pra escola, a menina contou para a mãe o que estava acontecendo.

Levanta a cabeça, foi o conselho de Tula: “esse é o seu cabelo, vai arrumar outro por causa deles? Seu cabelo é lindo, ele é crespo porque você é negra, é filha de um africano”.

“Ela ficou toda contente, foi assim que ela começou a se empoderar”, diz.

Para discutir o assunto em classe, Dandara levou um livro que tinha em casa: “O Mundo no Black Power de Tayó”, da Kiusam de Oliveira. Mostrando para a professora, ela contou que a mãe tinha vários livros em casa e que queria compartilhar com a sua turma.

A professora ficou interessada e, após trabalhar alguns dos livros com os alunos, perguntou para Dandara sobre sua mãe.

Ah, mas minha mãe é poeta, respondeu a menina.

“Aí eu achei um luxo, né? Chamar a mãe na escola não porque a criança está aprontando, mas porque a mãe é escritora”.

Estourando de orgulho, Tula conta como a filha hoje é chefe de turma e como encontrou seu poder no turbante. A mãe apresentou sua poesia na escola, para que os colegas aprendessem sobre a escritora negra e brasileira Carolina de Jesus.

“ Sou uma Carolina
 Trabalhei desde menina
 Na infância lavei, passei, engraxei…
 Filhos dos outros embalei
Sou a negra escritora que virou notícias nos jornais
 Foi do Quarto de Despejo aos programas de TV 
 Sou uma Carolina
 Escrevo desde menina
 Meus textos foram rasgados, amassados, pisoteados 
 foram tantos beliscões
 Pelas bandas lá de Minas
 Eu sou de Minas Gerais
Fugi da casa da patroa
 Vassoura não quero mais
 A caneta é meu troféu
 Bordas as palavras no papel
 É tudo o que quero dizer”
 — Trecho do poema Sou Carolina, de Tula Pilar Ferreira

“O caminho do leitor é particular, mas precisa de mediadores”, fala Denise Guilherme, educadora e responsável pelo site A Taba, que faz curadoria de livros infantis.

A primeira mediação de leitura vem de dentro da família. Os pais têm grande influência na formação de leitores. Antes da escola, o contato com o livro na infância traz familiaridade com o objeto, ensina à criança como é o comportamento de leitor e também ajuda a criar vínculos afetivos.

“Eu tenho uma filha de um ano e ela já sabe folhear os livros”, conta Denise. “Ela viu a gente fazendo e, quando abre o livro, começa a falar, depois fecha e para de falar também. Ela já percebeu que aqui dentro tem uma linguagem e que quando você fecha ela acaba. Ela entende que aqui dentro tem uma experiência com a palavra que só se dá quando abre”.

Na pesquisa Retratos da Leitura no Brasil, 33% dos entrevistados consideraram que tiveram a influência de alguém para gostarem de ler. Desses, 11% indicaram a mãe ou uma responsável do sexo feminino como a principal influenciadora. Depois, para 7% foi algum professor e para 4% foi o pai ou responsável do sexo masculino.

Observando os hábitos de leitura na família, 57% dos leitores se recordam de ver os pais lendo. Para o grupo de não-leitores, era mais comum que os pais não lessem: 64% responderam que nunca viram os pais lendo.

Então, depois de uma introdução ao livro pela família, ocorre a alfabetização na escola, a principal instituição para a formação de leitores. Porém, Denise observa diversas falhas na interação da escola com a leitura.

“O principal problema é que muitos professores não são leitores e a escola não valoriza o livro na prática. E os alunos percebem isso”, diz Denise. “Eles estão em uma missão esquizofrênica, pois tem que formar leitores, mas eles mesmos não leem por prazer, então não têm repertório”.

Na mesma pesquisa, 50% dos professores entrevistados declarou que não estava lendo um livro no momento. No entanto, 84% deles são leitores, com uma média de livros lidos (inteiros ou em parte) de 5,21 nos últimos três meses. Quando se trata de livros lidos por vontade própria, porém, essa média cai para 3,12.

Para Denise, a leitura deveria ser o centro do currículo. Ler mais e melhor possibilitaria aos alunos uma compreensão maior de todas as matérias. Assim como debater e compartilhar seus pensamentos sobre a leitura traria uma interação maior entre os colegas e um entendimento melhor do outro.

“A valorização do livro tem que sair do discurso”, explica. A escola pode ter todo o material, distribuir livros, mas nem os professores, e muito menos os alunos, sabem trabalhar aquilo em sala de aula.

Muito do investimento de escolas e do governo vai para a compra de livros, mas a formação dos professores e uma prioridade para a leitura dentro do currículo escolar são colocadas de lado. Desde o governo do Fernando Henrique Cardoso (1995–2003), o Estado tem programas de acesso ao livro para as escolas públicas.

Fazendo o trabalho como pedagoga na formação de professores, Denise viajou pelo país, visitando institutos de ensino, e viu uma realidade preocupante do destino dos livros comprados pelo governo.

“Ele conseguiu garantir que em todas as escolas públicas tenham livros, porém em muitas escolas eles estão na caixa ainda. Já conheci professores que achavam desperdício de dinheiro esse investimento ou que não entregavam os livros para os alunos”.

A sala de leitura, quando existe, conta Denise, é tratada como lugar de castigo e depósito de livros, sem profissionais específicos para auxiliar os alunos.

“Quando você valoriza de verdade uma coisa, você separa tempo para isso. E quanto tempo a leitura tem na escola hoje?”, fala Denise.

Para mudar esse quadro, assim como dedicar tempo à leitura, a educadora vê que é preciso investir no desenvolvimento do professor como leitor, para que ele possa oferecer uma variedade de repertório para os educandos.

“Quando eu dava aula, sempre comentava as minhas leituras com os alunos. Se estava lendo Guimarães Rosa, contava sobre o que era, se estava difícil. Também lia os meus favoritos, cheguei a ler Harry Potter, Eva Furnari e Cecília Meireles para uma turma”.

Um problema por trás de tudo isso é a forma como o livro é tratado no imaginário das pessoas. Ele é visto como um objeto elevado, que precisa ser preservado e protegido. A importância da leitura fica só no discurso, enquanto o livro fica parado nas estantes. Mais uma parte decoração, representando uma cultura a ser louvada, menos um objeto do cotidiano, pronto para ser usado, lido, consultado, emprestado.

A literatura deveria ser algo natural, que já nos pertence, uma evolução da necessidade humana de contar e conhecer histórias.

Na formação de leitores, tanto de crianças ou de adultos, a chave para Denise é a diversidade.

“Livro tem que estar disponível como um prato de doce”, ela explica. Tendo contato com uma variedade de temas, gêneros e formatos, o gosto do leitor vai se apurando, assim como se descobre pratos de comida diferentes. “Sei que um tipo de feijão é o que mais gosto porque eu já comi muitos tipos. Tem que experimentar muita coisa”.

Outro ponto importante é ter uma comunidade de leitores. O hábito de leitura se mantém das recomendações de um leitor para o outro. Do bibliotecário que indica o livro novo que chegou ao acervo, dos amigos que conversam sobre um romance que terminaram ou dos pais que separam um momento para ler com os filhos.

“Na minha escola, a gente só lia para fazer prova e não podia entrar na biblioteca. O que era diferente de casa, onde minha mãe dava livros pra mim e pros meus irmãos de presente e meu pai assinava diversas revistas e jornais. Então em casa eu tinha uma comunidade de leitores”, conta Denise.

O site A Taba funciona com esse pensamento: selecionar uma variedade de livros infantis e avaliar sua qualidade pelo conteúdo que oferece para as crianças. Para garimpar os mais de sete mil títulos do site, ela juntou 14 especialistas que resenham os livros a partir de critérios estabelecidos, como não ter estereótipos, as histórias não serem previsíveis e não perpetuar preconceitos.

Com a combinação de acesso à diversidade e ao debate, é possível apurar o gosto pessoal pela leitura. Para Denise, o “gostar de ler” é importante, porém é preciso respeitar o trajeto particular de cada leitor. Enquanto um tipo de leitura pode não ser satisfatório, essa mistura pode garantir que cada um encontre uma literatura ideal para si. A partir daí, se abre um mundo de possibilidades: “Um livro é sempre uma janela aberta para outras leituras”.

Depois de achar o gosto, ela acha importante ler um pouco de tudo para amadurecer. Mesmo que seja para largar o livro no meio. No entanto, ficar sempre no mesmo gênero não fortalece a formação humana que a leitura oferece. “A vida é muito curta para ler livro ruim”, opina.

E ainda mais curta para não ler livro nenhum.


No Brasil, segundo a Retratos da Leitura, 30% das pessoas nunca compraram um livro. E 24% não consomem livros há mais de um ou dois anos. Uma porcentagem próxima, de 31%, se lembra de ter comprado livros nos últimos três meses.

“Temos muitos leitores, mas não um país leitor”, comenta Naiara Raggiotti, cofundadora do Estúdio Obá Editorial e da Carochinha Editora, onde é diretora editorial.

Para a editora, o acesso ao livro no Brasil continua muito restrito, principalmente por fatores socioeconômicos.

Pode depender de onde você estuda ou onde você mora. Naiara só considera que se tornou uma leitora mesmo aos 18 anos, quando estudou para o vestibular, passou na universidade e se mudou para São Paulo.

Na sua cidade, em Batatais, não existia nenhuma livraria. A biblioteca que podia visitar era a da escola, mas lá não deixavam tocar nos livros. “A gente tinha que ficar apontando os livros que queríamos. Eu lia por curiosidade, então lia de tudo. Na época, existiam alguns vendedores de livro que iam de porta em porta, mesmo assim o acesso era bem restrito”.

Depois que entrou no curso de Editoração, ela começou a ler vorazmente, recebendo todo o tipo de livro em casa de graça para as resenhas que escrevia em um site.

Naiara vê que o mercado editorial no Brasil expandiu nos últimos anos, mas que ele ainda é muito irregular e pequeno. O número de livros publicados cresce, mas isso não se reflete sempre em qualidade de leitura.

“Temos nichos fechados, que alimentam a literatura do momento, como a publicação de livros de colorir e best-sellers internacionais. Pode começar a formar um leitor, mas não é o suficiente para sustentar a leitura”, fala a editora.

Ela também explica que a publicação de livros no Brasil é um negócio caro e com diversos desafios.

“Temos o limite de produção das gráficas nacionais, os preços do papel e o custo variando de acordo com o tamanho da tiragem”, explica Naiara. “Depois, entra todo o ônus de fazer esse livro chegar ao leitor. O distribuidor acaba ficando com 50 a 60% do custo do livro que o consumidor encontra. O tamanho do país complica a logística e não temos livrarias o bastante, a maioria faz parte de grandes redes que se concentram em grandes cidades”

Para os livros infantis, esse quadro se complica pela existência de mais um filtro antes do produto chegar ao seu leitor: os pais, a escola e o governo. É preciso partir de uma valorização da leitura por parte desses para garantir o acesso ao livro primeiro e depois ainda reforçar a prática.


Enquanto Edmir Perrotti fala em assimilar a cultura escrita, a Vagalume trabalha com a ideia de integrar a cultura oral brasileira com a escrita, sem perder de vista as histórias. Se a questão for a mediação de leitura e formação de leitores, como é proposto por Denise Guilherme, a organização também pensou numa solução.

E tudo começou com uma expedição para a Amazônia em 2001, tentando conhecer melhor a rica cultura da região e contornar o problema do acesso ao livro e bibliotecas.

“Vagalume é o que leva a luz? Não, para nós vagalume é todo mundo. Todo mundo tem a sua própria luz. Todo mundo é vagalume e todas as nossas bibliotecas são um potencial, formando uma rede de leitores e de trocas culturais”, explica Marcia Licá, educadora da Associação Vagalume, que ajuda na criação de bibliotecas e leitores em comunidades da Amazônia legal há 15 anos.

E são 159 bibliotecas geridas por comunidades de diferentes perfis, como indígenas, quilombolas, ribeirinhas ou de beira de estradas no Acre, Amazonas, Roraima, Amapá, Rondônia, Mato Grosso, Pará, Tocantins e Maranhão.

Eles funcionam de acordo com um tripé de gestão, capacitação e estrutura. Esses três se completam para garantir o funcionamento do projeto. Para a estrutura, eles fornecem um espaço, com estantes, cadeiras, tapetes e os livros que são enviados para o local. A gestão garante que a comunidade se aproprie desse espaço de leitura, sendo a responsável pela sua relevância e manutenção.

Com a capacitação, se formam os multiplicadores. Em cursos e congressos, voluntários locais se tornam mediadores de leitura e contadores de história, que vão ajudar na formação dos leitores e propagação das ideias por trás da biblioteca.

“Tudo isso dentro da esfera da cultura local, respeitando e valorizando sua diversidade”, conta Marcia. “O primeiro passo sempre parte do interesse da comunidade, que pede por uma biblioteca da Vagalume lá. Depois, auxiliamos na produção de livros artesanais a partir de rodas de histórias contadas pelos moradores mais velhos. Nossa referência são os livros infantis e a produção é bilíngue”.

Marcia se aproximou da Vagalume em 2009, por seu vínculo com projetos sociais centrados na leitura e também por suas origens. Ela é de Araguatins, em Tocantins, e passou a infância entre lá e São Paulo. Em sua cidade Natal, ela não tinha acesso a livros de literatura e sua fonte de histórias era o seu avô.

Quando veio para São Paulo morar na comunidade Real Parque, com 13 anos, a biblioteca mais próxima estava sempre fechada e os jovens tinham que andar até a de Paraisópolis. Daí surgiu a ideia de montar uma biblioteca comunitária ali.

“Sou educadora desde os 15 anos, com o projeto começamos a discutir questões da educação e incentivo a leitura”, diz Marcia. “Queríamos que a biblioteca fosse mais acessível para todos e o menos burocrática possível. Não era só o acesso, mas que o espaço fosse vivo, então intensificamos ações de leitura e saraus”.

Por meio desse projeto, ela conheceu os voluntários da Vagalume na época em que já cursava a faculdade de pedagogia.

Nos anos de projeto, Marcia já visitou quase todos os municípios e conta que viu crianças crescerem junto com as bibliotecas. “Alguns que acompanhei desde pequenos agora estão indo para a faculdade”, diz. Muitos deles contam para ela que com a biblioteca e os cursos de formação, perceberam as possibilidades que tinham para o futuro, de que tinham diferentes escolhas em suas mãos.

“Quem faz acontecer são as pessoas de lá. Eles têm esse poder na mão, a gente só viabiliza”, diz Marcia.

Para ela, isso é o mais importante: entender que todo mundo pode aprender.

Nos cursos, eles ensinam a partir da prática e trabalham com a desconstrução das ideias de educação, mostrando que todos podem ter o papel dos educadores. “É um processo de humildade e sabedoria, principalmente para quem chega de fora”.

Para montar as bibliotecas, há uma curadoria das obras que serão enviadas. Afinal, quando uma entrega pode demorar até cinco dias de barco para chegar ao seu destino, é melhor garantir que os livros sejam de qualidade e de interesse.

A logística não sai barato. Não é de se espantar que nesses municípios não existam livrarias, mesmo se todas as pessoas das comunidades tivessem dinheiro para comprar os livros. Por isso, a Vagalume faz parcerias com as secretarias da educação para ajudar nesse processo.

Na seleção sempre acaba entrando um pouco do gosto pessoal e também possuem a experiência de anos de projeto para saber o que dá mais certo. Eles se atentam mais para as crianças como a base de leitores, pensam em obras boas para a mediação de leitura, que sejam mais amplas para alcançar mais pessoas. Depois dessas prioridades entram os clássicos da literatura e livros que exigem mais aprofundamento.

E não existe preconceito ali. Um livro com imagens ou um exemplar de 300 páginas valem o mesmo, porque o que importa são as histórias. O propósito é garantir o acesso ao poder transformador delas.

De início, eles mandam cerca de 150 livros. Depois, vão complementando o acervo regularmente e de acordo com a demanda, que ajudam a enriquecer a biblioteca e reforçar a identidade local.

“A literatura encanta, mas ela também desencanta”, fala a pedagoga. “A gente pouco se vê na literatura. Por isso que a parte da cultura local é tão importante, ela ajuda na permanência de histórias, na construção de um acervo com a nossa cara”.

Marcia critica a composição de livros recomendados nos maiores vestibulares, que têm influência na seleção tratada dentro da sala de aula e, no final, na definição do que é a literatura brasileira e seu leitor.

“Uma pesquisa pode falar que o brasileiro lê pouco, mas temos que ver o imaginário de leitor que existe ali”, explica ela. “É uma visão elitista definir o leitor pela quantidade de livros que ele está lendo. E ela não engloba, por exemplo, tudo o que é produzido na periferia, os jovens que escrevem rap. Nunca vi Solano Trindade caindo na prova, a escola parou no Machado de Assis”.

A questão da leitura no Brasil é muito mais complexa do que os números mostram. A lacuna de leitores parte de um processo histórico e de desigualdades socioeconômicas. Ela se torna mais complexa dada a especificidade de problemas culturais e territoriais, a leitura na Amazônia não pode ser comparada com a da cidade de São Paulo de forma tão simples.

Podem dizer que o brasileiro não lê. Porém, em todo lugar, existem leituras diferentes para cada um.

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