Um templo em mim


Leandro Rodrigues

“Você não vai trabalhar hoje?”. “Não. Hoje não. Estou de férias por um tempo”. Este pequeno diálogo foi travado na fila de entrada do Teatro SESIMINAS no último dia 8 de julho. Meu interlocutor era uma pessoa, um homem, que já havia me visto atuar em outras oportunidades e, salvo se me engano, pai de um de meus ex-colegas de palco. Logicamente ele estranhou o fato de eu estar ali como espectador e não no elenco do espetáculo.

O que mexeu realmente comigo não foi ter sido reconhecido por alguém, mas, a interpelação que me foi feita. Se eu não iria trabalhar àquela noite. Mesmo depois de um ano e meio fora, ainda me soa estranho estar ali no Teatro, no dia da apresentação da turma adulta da professora Roberta Luchini, não para atuar, mas, para apenas assistir. Absolutamente não é normal. É algo fora de contexto. Um ator na plateia? Como? O lugar de um ator é no palco!

Honestamente, era onde eu queria mesmo estar. É onde eu gosto de estar num Teatro. Mas, se é por escolha minha que lá não estou; se fui eu quem decidiu dar “férias” ao ator por tempo indeterminado; se fui eu que quis assim, por que isso me incomoda tanto? Por que, por mais que eu goste, eu não consigo me acostumar a ser só espectador? A questão é que, não decidi isso tanto por minha vontade e sim porque se fazia necessário. Eu sentia, naquele momento, que um ciclo estava se encerrando na vida e que havia outras prioridades.

De toda maneira, precisei de um ano inteiro para refletir e amadurecer a ideia. Preparei minha saída com calma, sem hesitações. No meio do caminho fiz minha melhor atuação. Aquele Caetano inflamado discursando em pleno Festival da Canção de 68 jamais sairá da minha cabeça. “Mas é isso que é a juventude que diz que quer tomar o poder?”. Ah! Que saudade! Depois disso, uma pequena viagem pela poesia de Cecília Meireles e Vinícius de Moraes para fechar com chave de ouro. Saí de alma leve, tranquilo, coma certeza de ter cumprido honrosamente a minha missão.

Tal como o silêncio na canção, fiz do Teatro minha catedral, um templo em mim onde eu posso ser imortal, onde eu sou imortal. Ainda que não tenha sido tão brilhante. Ainda que não tenha certeza se fiz tanto assim para ter a admiração que tenho por parte das pessoas com quem convivi ali, como meus ex-colegas, minha pequena Maria Clara, minha mais que professora, minha amiga Roberta Luchini. O que eu fiz ali é eterno. É único. Ali, bem como em todos os outros palcos, momentos, horas, minutos, segundos dos seis anos em que me dediquei ao Teatro, eu vivi. Vivi com toda a verdade e intensidade que só palco se pode viver.

Espero, aliás, quero, aliás, vou voltar. Não sei dizer quando, mas vou. Neste momento é difícil estabelecer uma data. Mesmo porque, não quero voltar por voltar. Quero voltar para iniciar um novo ciclo de grandes realizações nos palcos da vida e no palco do SESI que tanto amo. Quero voltar tranquilo e com a mente livre para continuar ao lado de Roberta e de meus amigos a nossa obra, que ainda tem muitos atos pela frente.