Saiba como a SuperRafa vê o mundo de cima de sua bicicleta.

Como desejamos vida longa as Pedaleirax, nada melhor que a primeira entrevistada ser a melhor ciclista de longa distancia que temos na ilha e uma das 3 do Brasil.
Nesse exato momento a Rafaella está girando pela Europa atrás de experiência e conhecimento. E de lá nos deu essa entrevista. Conversar com a Rafa dá vontade de subir na bicicleta e pedalar até cansar. O papo é tão bom quanto técnico, ela sabe muito de treinamento e ciclismo.

Confira o curriculum e a entrevista abaixo.

Filha de peixe…filha de um dos maiores ciclistas da história do esporte no país, Milton Della Giustina, Rafaella tem o ciclismo no DNA e na formação.

Licenciada em Educação Física pela UDESC, é Especialista em Fisiologia do Exercício pela Universidade Gama Filho e Mestra em Biodinâmica do Movimento Humano pela USP, com experiência docente no CEFID-UDESC e na EEFE-USP.

É coautora do livro “Ciclismo: Treinamento, Fisiologia e Biomecânica” (2009) e atua como avaliadora e treinadora de atletas profissionais e amadores em diversas modalidades do Ciclismo há mais de 13 anos, como Érick Bruske (com quem conquistou o Bicampeonato Brasileiro de MTB-XC em 2014 e 2015), Tânia Clair P. Negherbon, Valmor Hausmann, Henrique Avancini, Murilo Fischer, Carlos Alexandre Manarelli, entre outros.

Foto Rafaella Della Giustina

Como atleta amadora, tem participações no l’Étape du Tour, mais de 8.700 km pedalados em provas de Audax (ciclismo de longa distância) e, em 2015, após ser uma das duas brasileiras a completarem a 18ª edição do Paris-Brest-Paris, com 1.235km (mais antiga prova de ciclismo do mundo realizada na França a cada quatro anos), tornou-se uma das três mulheres (entre 27 ciclistas) no Brasil com o título de “Randonneur 5000”.

Além da atuação no Ciclismo, tem mais de 13 anos de experiência no atendimento a centenas de atletas amadores com diferentes objetivos na Corrida de Rua e Corrida de Aventura, e atua há mais de 12 anos com Personal Training visando à saúde, condicionamento físico e qualidade de vida, em cidades como São Paulo, Rio de Janeiro e Florianópolis.

Atualmente está também cursando a Academia Brasileira de Treinadores em Alto Rendimento Esportivo do Comitê Olímpico Brasileiro.

Há quanto tempo você pedala? E como começou ?

Eu costumo brincar dizendo que “pedalo desde que me entendo por gente”, mas acho que foi antes… rs Minha mãe diz que eu pedalei antes de caminhar, mas minha relação com a bicicleta começou na maternidade, já que a primeira visita foi do pelotão vindo do treino. Virei a “mascote” do grupo e cresci entre competições, eventos e a nossa loja, a Della Bikes — prestes a completar 40 anos. Fui fazer intercâmbio e voltei com a certeza de que iria cursar Educação Física e, dali para a frente, minha relação com a bicicleta só foi se estreitando cada vez mais: como pesquisadora, como treinadora, como atleta amadora — primeiro de Corrida de Aventura e MTB, depois estrada.

Você usa a bicicleta somente como esporte ou no dia-a-dia?

Sempre usei no dia-a-dia! Cresci tendo na bicicleta a minha maior diversão, aí vieram as primeiras corridas, depois outro meio de ir à faculdade e então de novo como esporte com a Corrida de Aventura. Fui para SP fazer o Mestrado e, por quase nove anos, a bicicleta foi meu meio de transporte para cerca 90% dos meus deslocamentos. Observei a metrópole mudando a cultura ciclística: de “Mas você vem de bicicleta? Você é doida! São Paulo não é lugar para andar de bicicleta, é perigoso!” para “Você vem de bicicleta? Que máximo! Também queria fazer isso…” e percebi que podia fazer mais que simplesmente pedalar… Aquilo que me fazia muito bem também fazia bem para a cidade e essa energia sempre contagiava! Quando menos percebi, estava influenciando — e pelo exemplo, que considero a ferramenta mais eficiente para tanto.

foto de Vanessa Pinho

Como começou sua história com o Audax?

Quando meu pai criou o Audax Floripa, o universo randonneur era novidade para mim. Tinha acompanhado alguns brevets de que ele participara, mas ainda à distância, já que morava em SP e ele pedalava frequentemente no RS e no PR, até que pude fazer seu apoio num brevet 600km em Holambra (interior de SP). Fiquei fascinada! Às vésperas da segunda edição do Audax Floripa 200km, em 2010, perguntei a ele se achava que eu “daria conta” de pedalar aquela distância. Ele riu e disse que sim, que eu ia ver que era diferente. Convenci um amigo a me acompanhar e fomos de SP participar do evento. Paixão à primeira pedalada!!! Clima contagiante, alegria e diversão do início ao fim, mesmo quando já doía tudo! Dali em diante não parei mais, mas fui me envolvendo cada vez mais com os diversos aspectos do evento, especialmente após ter voltado a Florianópolis já com alguma bagagem na organização de grandes eventos esportivos.

Foto Rafaella Della Giustina

Com o passar do tempo você adquiriu experiência internacional, como é participar de desafios fora do país?

Acho sensacional! Aliás, termino de responder estas perguntas da Europa, para onde vim para participar de dois novos eventos e, entre eles, treinar em novos percursos. No último dia 10, pedalei pela segunda vez o L’Étape du Tour — um evento grandioso, de organização impecável, que reúne 15.000

ciclistas amadores de todo o mundo para o privilégio de pedalar nas montanhas francesas que os atletas profissionais cruzarão durante o Tour de France alguns dias depois. É um “must-do” para qualquer ciclista que curte o universo competitivo — e com um astral absolutamente único, de pessoas às ruas gritando, incentivando, apoiando, típico dos franceses fanáticos pela nossa modalidade. Lindo de ver e viver!

No Paris-Brest-Paris Randonneur, em 2015, pudemos sentir essa mesma energia — mas em um evento não-competitivo, o que torna tudo ainda mais especial. Todas aquelas pessoas que ficavam nas ruas, às portas de suas casas oferecendo comida, água, bebidas quentes nas madrugadas geladas, sabiam que estávamos lá somente pela superação — e não mediam esforços para apoiar e incentivar. Sinto falta disso no Brasil, de sentir que as pessoas admiram nosso esporte mais que o temem, que admiram, que apoiam mais que reclamam de alguém ‘ocupando a rua’… Mas vejo mudanças e tenho esperança de que vamos crescer ainda mais, tanto no ciclismo como esporte, como na bicicleta como personagem fundamental de melhor mobilidade urbana e qualidade de vida nas cidades.

O calendário do Audax tem se mostrado uma referência no ciclismo em Florianópolis. Você acredita que a repercussão causada possa dar novo ânimo para o ciclismo feminino?

Que bom ler isso! E tomara que sim! Torço e trabalho bastante para e por isso. Tenho buscado mostrar que é mais simples do que se imagina, que é mais tangível do que se pode pensar, que nós mulheres somos capazes de tudo aquilo o que quisermos fazer. Busquei conquistar a medalha de Randonneur 5000 — uma condecoração especial do Audax Club Parisien para ciclistas que conquistem, entre um PBP e outro (ou seja, quatro anos), uma Série Super Randonneur (brevets 200, 300, 400 e 600km em uma temporada), mais um brevet 1000km, uma Flèche e um PBP, mais distância complementar — exatamente por isso. Temos apenas 27 destas medalhas no Brasil, sendo apenas três de mulheres. E nós temos tudo aquilo que o universo randonneur pede: persistência, cuidado, tolerância, capacidade de suportar a dor, de superar desafios, de manter o foco… Já participei de alguns brevets*** em que fui a única mulher, portanto, acho fantástico ver esse número crescendo, que somos mais, que estamos indo mais longe.

Que dicas você daria para mulheres que estejam começando ou mesmo que já pedalem, seja como forma de mobilidade, lazer ou esporte? (segurança, nutrição, bikes… enfim)

Encontre uma motivação — seja pela forma física (mulheres sempre pensam nisso! rs), pela economia de tempo e dinheiro usando a bicicleta como meio de transporte, pela melhora da saúde, pela sociabilidade e novas amizades que irá fazer, pelo novo estilo de vida que irá, invariavelmente, adotar… Não faltam motivos, mas eles devem ser sinceros para que você se mantenha firme. Procure (ou arrume, conserte, revise, reforme) uma bicicleta que seja realmente apropriada para você e para o uso que pretende fazer dela — se escolher a bicicleta errada, não haverá aderência à prática, seja porque fica desconfortável, pesada ou inapropriada para a atividade/função escolhida. Uma bicicleta de tamanho ou ajustes errados poderá causar lesões e te afastar da atividade física por muito tempo. Escolha roupas apropriadas — e sem preocupação de ficar “elegante”: ciclista tem de andar colorida mesmo, fazendo-se visível (é importante estar confortável na roupa e na bicicleta — e vou contar uma coisa que muita gente tem vergonhar de abordar: a bermuda é feita para usar sem calcinha mesmo, gente! Não precisa ter vergonha, pudores, medo: ninguém vai perceber e você não vai ficar pelada na rua!). E tem de usar iluminação adequada e de forma correta, sinalizar suas intenções no trânsito, escolher caminhos com menor trânsito, mas com algum fluxo de pessoas. Procure pedalar acompanhada sempre que possível, esteja atenta a tudo e todos (aqui, fundamental: nada de fone de ouvido e/ou celular enquanto pedalando! Atenção e concentração máximas!). Mulher tem mania de dieta, mas vale lembrar: tem de comer antes e depois de pedalar! Barra de cereal já foi bacana, hoje vem cheia de açúcar e não é a melhor opção durante o pedal porque a digestão das fibras é lenta; procure opções mais leves, tais como banana que é fácil de carregar, frutas secas/desidratadas, pão com geleia… Água sempre, dinheiro para qualquer emergência, alguém avisado de que você vai pedalar (se possível, com roteiro e previsão de retorno). Pedalar, seja de forma esportiva, por lazer ou como meio de transporte, é sempre uma integração perfeita entre ciclista, bicicleta e natureza — tire o máximo proveito disso! ;-)