Sofrência da Felicidade

Aqui estou eu para contar como me tornei uma pedaleira. Passei anos da minha vida sedentária, sem fazer uma atividade física se quer.

Hoje pedalo quilômetros e subo morros e morros. Como tudo começou? Na Oktoberfest de 2015, em Blumenau. Como assim, Danusa, você começou a pedalar na Oktoberfest? Não, mas foi na Oktoberfest que eu conheci um grupo de ciclistas que foi de Florianópolis à Blumenau pedalando para a tão famosa festa.

Oi? Como? vocês vieram pedalando? Quantos quilômetros? Vocês são loucos, repetia eu todo o tempo. Jamais imaginaria que aquele encontro mudaria minha vida.

Três meses depois, em janeiro de 2016, recebo um WhatsApp: “Danusa estou indo para o Rio com dois amigos para pedalar na nova ciclovia do Rio.” — era um dos ciclistas que conheci naquele domingo da Oktoberfest, com quem mantive contato via WhatsApp.

Eles vêm de Floripa só para pedalar no Rio? Vão passar um final de semana só para isso? Que doideira. Era difícil de acreditar.

Eles vieram, pedalaram, um deles caiu, foi parar no hospital, tomaram chope a noite e voltaram para Florianópolis.

Quatro meses depois, em maio, nova mensagem: "Danusa, eu e quatro amigos estamos indo para o Rio fazer o Audax Rio Urbano 200km. Uma delas não pedala. Você pode dar uma atenção à ela, enquanto pedalamos?" Sim, claro — respondi.

E ao mesmo tempo várias perguntas me invadiram o pensamento: Audax Rio? 200 km? O que é isso? Corri para pesquisar na internet. Só de olhar o percurso, cansei. Vocês são loucos, dizia eu.

Chegou o dia, eles vieram fazer o Audax Rio eu fiquei com a guria que não pedalou. Passamos um dia maravilhoso fazendo turismo pelo Rio e monitorando o grupo pelo WhatsApp. Na hora prevista, fomos recepcionar os heróis que chegavam, com latinhas de cerveja. Achei que chegariam cansados, exaustos… Ledo engano. Chegaram felizes e eufóricos. Eufóricos? pedalaram 200km o dia inteiro e chegam eufóricos. São realmente doidos. Treinam 50 km? Eu não faço nem 2 km até a padaria.

O grupo que veio de Floripa, era muito animado e logo nos tornamos amigos. Foi aí que eles me convidaram para participar de um pedal para Loeffelscheidt, na Serra de Santa Catarina.

- Você pode ir no carro de apoio — disseram.

Topei. E lá fui eu para Floripa, em junho 2016 e no dia seguinte estávamos todos reunidos no local determinado para começar o pedal. Um grupo de 12 pessoas.

Foi um dia inteiro pedalando, subindo morros e morros infinitos. Paradas para hidratação, para almoço, para uma degustação de uma cachacinha e volta a subir, subir… esforço extremo, suor escorrendo, todos em seu limite.

De tempos em tempos um perguntava: “Falta muito?” “Não, faltam 20 km” — respondia outro… E os 20 km não chegavam nunca. Eu e meu parceiro de viagem que dirigia o carro de apoio, cuidávamos em hidratá-los, encher garrafinha, fazer fotos e vídeos, encorajá-los.

Às 18h chegamos ao destino. Comemoração entre os participantes, alegria, risos, abraços , beijos, confissões de que aquele fora o melhor pedal. Epa, o melhor pedal? Os caras sofreram horrores nas subidas, passaram o dia pedalando e dizem que foi o melhor pedal? Sim, foi.

Foi com este grupo que entendi o que era pedalar, qual o verdadeiro significado de pedalar.

“Com eles aprendi o que é “Sofrência da Felicidade”. Com eles não tem tempo ruim, dor, lamentos ou sofrimento. Subidas infinitas e fantasmas não assustam. Tudo é encarado com alegria, com alto astral. Afinal, somos impulsionados por desafios e o que vale são os objetivos alcançados.

"Obrigada, amigos, por este final de semana inesquecível." Escrevi em minha página no Facebook quando voltei ao Rio, junto com fotos. Sim, foi realmente inesquecível. Comecei a pensar em tudo que vivi naquele final de semana em Santa Catarina , naquele astral e em tudo o que o pedal proporciona.

Novos amigos, novos desafios, novas descobertas: descobertas de novas paisagens, descobertas de seus limites… nossa, isso é incrível. Talvez eles não sejam loucos. Louca deve ser eu de nunca ter experimentado estas sensações.

De volta ao Rio, meus novos 11 amigos de Floripa começaram a me incentivar a pedalar. E eu, timidamente comecei a pedalar no Rio de Janeiro. Eu não tinha bicicleta, aliás nunca tive. Aprendi a andar de bicicleta com um amigo de infância, na bicicleta dele. Tínhamos 11/ 12 anos e ele pacientemente me segurava para eu não cair até eu ter o equilíbrio necessário para andar sobre duas rodas.

Em Santa Catarina, repetia aos amigos: “Só vou comprar minha bike quando eu sentir falta dela. Não quero transformá-la num elefante branco, em minha casa”

E foi assim que, imbuída deste espirito pedaleiro que aprendi em Santa Catarina, comecei a pedalar no Rio. Como não tinha bike, alugava as do Itaú que estão disponíveis pela cidade. No primeiro dia fiz 6 km. Ohhhhh 6 km….que avanço! No segundo 12 km. Uauuuuuu… mandava fotos do meu feito aos amigos de SC e eles sempre me incentivando.

Um dia, recebo um convite via Facebook para participar de um pedal noturno. Previsão de 20 km. Ok, se eu já fiz 12, posso fazer 20 (é este pensamento de um ciclista, sempre buscando mais e mais, novos desafios).

Mas eu não tenho bike. Não tem problema eles alugam. E assim, conheci a Via Pedal, uma empresa de cicloviagens aqui no Rio. Naquele dia, fiz 30.8 km… Caramba… me superei, minha quilometragem mais alta. Fiquei tão feliz que comecei a fazer aulas com o dono da Via Pedal para aprender a trocar marchas, fazer pequenas subidas. Como não tinha bike, continuava alugando com ele.

Neste momento, já estava com passagens marcadas para minhas férias na França. Foi aí que pensei: por que não fazer um pedal na França? Corri para internet e após várias pesquisas, achei um pedal de três dias no Vale do Loire, em media 50 km por dia — e lá vem o pensamento dos pedaleiros: “Se eu já fiz 30km, posso fazer 50km. Assim, lancei a ideia à uma amiga que ia comigo e ela de pronto aceitou.

E lá fomos nós duas sozinhas nesta aventura. E que aventura. Um calor, um sol a pino sob nossas cabeças, suor escorrendo, subidas e descidas, lindas paisagens, ciclovias pela floresta, pela estrada, paradas para tomar banho no Rio Loire, parada para fotos e mais fotos… incrível. Primeiro dia 43 km, segundo 61 km e no terceiro, desistimos, pois o calor estava intenso.

Foi uma difícil decisão, mas certeira. Descobrimos nossos limites, éramos iniciantes e não estávamos preparadas para as adversidades do pedal. Voltamos ao Brasil com as melhores lembranças deste pedal e orgulhosas de termos feito mais de 100 km em dois dias.

E a bike, Danusa? Pois é, nesta altura, ela já estava mais que fazendo falta. E novamente, os amigos de Floripa me socorreram e me deram uma luz. “Já que você vai para a França, por que não traz uma bike de lá”. Comprei a ideia e comecei a pesquisar aqui no Rio e em sites da França.

Para mim, bicicleta era tudo igual, só mudava a cor. Aprendi com a amiga de Floripa que não era bem assim e ela pacientemente, me explicava as diferenças e me passava as especificações de uma boa bike para as minhas aventuras. Com estas especificações, encontrei pela internet uma bike Peugeot lindíssima e, melhor, em promoção.

Enviei um email para o lojista e assim, trocamos mais 20 outros, até o grande dia, quando fui buscá-la na loja. Foi amor à primeira vista. E assim, dei nome à minha bike: Francesinha tricolor (sim, eu sou fluminense).

Voltamos ao Brasil e precisava estreá-la. E aí a Via Pedal já estava com uma viagem para um pedal para fazer o Caminho de Darwin — de Itaipuacú à Saquarema. Quatro dias depois de ter chegado ao Brasil, a Francesinha ja estava nas trilhas de Itaipuacú rumo à Saquarema. Juntas fizemos 55 km.

Na semana seguinte, precisava apresentá-la ao Rio de Janeiro… a cidade maravilhosa e tão temida por alguns ciclistas por sua violência. Surgiu, então, o pedal para o Pontal, no Recreio. Seguimos pelas ciclovias do Rio até lá com um grupo de 35 pessoas.

Novos amigos, surgindo em minha vida, novos desafios, novos amores. Sim, foi neste pedal que conheci um homem incrível, com quem estou hoje, que me faz feliz e, o melhor, que pedala comigo. Juntos temos viajado para pedalar e para descobrir este novo mundo juntos.

As aulas/treino de pedal continuam às segundas e quartas, entrei para a academia para fortalecer a musculatura. Temos treinado muitas subidas. Afinal, quero muito enfrentar as subidas infinitas para Loeffelscheidt ano que vem… desta vez, pedalando e não no carro de apoio. Preciso voltar àquele lugar mágico, que teve um significado importante na minha vida.

Como dizem os amigos de Floripa, o mosquitinho do pedal me picou de fato. Quem diria que eu mudaria minha vida, a partir da Oktoberfest. Cerveja e pedal combinam? No meu caso, combinou, justo para me lançar nesta doce loucura.

Opa, Danusa. Você continua achando seus amigos loucos? Não, louca sou eu de ter demorado muito tempo para descobrir este mundo do pedal.

Obrigada aos amigos de Floripa, ao amigo que me ensinou a andar de bicicleta e ao meu gatinho também pedaleiro.

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