Eu não me vejo no meu rosto e no meu nome


Eu estou casado há dois anos com a pessoa com quem namorei por cinco, mas nós nunca nos chamamos pelo nome. Não sei como é com outros casais: se os apelidos fofinhos ou bobos logo suplantam a certidão de nascimento, se o normal é se chamar pelo nome na frente dos amigos, em casa, só pelo telefone, não sei.

Estou em casa. O ventilador vai de um lado a outro pela sala, e estamos os dois sentados no sofá. Eu me viraria e o chamaria por um apelido, talvez o tagasse em alguma coisa no Twitter, chegaria sem nomes, sem apelido algum, para fazer-lhe um cafuné surpresa. Ele faria a mesma coisa por mim, e é nesse momento que percebo que, de tantas palavras que estou acostumado a ouvir na voz dele, meu nome não é uma delas. Pelo contrário: é esquisito ouvir o meu nome saindo da boca dele. Isso só acontece quando está falando de mim para outras pessoas. E, nesses momentos, eu relevo. Tenho certeza de que o contrário é a mesma coisa.

E, no entanto, aqui, onde não tenho mais o meu nome, é o lugar em que me sinto mais à vontade.

Não sei quando eu perdi meu nome de vista, quando ele deixou de me representar e passou a ser algo diferente. Já chego lá. Talvez tenha sido durante a faculdade. Não. Eu diria que em cerca de 2007, quando eu estava na conclusão do Ensino Fundamental e aconteceram duas coisas mais ou menos simultâneas: passei a frequentar um fórum de videogames e passei a jogar online.

Photo via VisualHunt.com

Acho que a arte do nickname se perdeu nesses tempos de Facebook. Os fóruns estão morrendo, as redes sociais desincentivam incisivamente que usemos nomes falsos. Mas, uns dez anos atrás, era quase uma marca de intimidade que alguém na internet soubesse o nome verdadeiro por trás da pessoa que conhecia. Tempos de MSN, tempos de fórum. Orkut era outra coisa, mas até lá tínhamos aquela profusão de fakes. Eu tive uma porrada de nicks. Pouco a pouco, eu senti que pertencia a eles como eles me pertenciam. Quando passei a encontrar meus primeiros amigos online na vida real, a gente se chamava pelo nick. O nome real era coisa dos pais, da escola e do trabalho. Quando nos chamávamos pelo nick, estávamos aceitando que o mundo chato ficava para trás. Estávamos ali como entes ligados pela coisa que nos unia, pelos gostos em comum, pela mídia que consumíamos e os laços que íamos criando.

Como a gente se ligava nas pessoas da internet por interesses em comum, muitas vezes eu sentia que o laço era mais profundo do que vários conhecidos na vida carne e osso. Com os amigos da escola, por mais que passássemos horas juntos, criávamos uma relação diferente, de convivência e experiência compartilhada. Com os da internet, era interesse, era assunto, era um papo que não podíamos ter com pessoas fora de um nicho específico.

Então eu me desdobrava em dois. Era tão esquisito ouvir meu nome da boca dessa vida online quanto seria ouvir meu nick falado pela professora do colégio. Eram duas esferas diferentes. Esquece isso, bizarro demais para até pensar.

Mas eu tinha 13 anos, não tinha? Cresci, deixei meus nicks para trás, entrei na faculdade, mudei de cidade, até me casei. Aí eu ligo o computador, abro o Facebook, vejo o meu nome e o meu rosto olhando para mim, aquela janela “No que você está pensando?”, e…

Dá branco.

Só ano passado fui perceber que é justamente por causa disso: porque vejo o meu nome e o meu rosto olhando para mim. Levei um tempo para descobrir por que. A partir de então, criei um novo nick — Astro — , deixei meu nome tomar segundo plano e jamais olhei para trás.

Associei meu nome a esfera da faculdade e do trabalho, porque, lógico, era assim que tudo mundo me conhecia. E, apesar de tudo o que eu posso fazer ou falar com eles, eu não consigo ser a mesma pessoa que eu sou por dentro fora da internet. Talvez seja uma espécie de subcultura específica. O “nerd” dentro do “nerd”. Pensei: ou me achariam o esquisito, ou ficariam sabendo de que nossas ideologias políticas são incompatíveis, ou talvez simplesmente não teríamos muito assunto.

E passei a associar meu nome e meu rosto (no Facebook, onde interajo mais com essa esfera da minha vida) com essa minha face que existe para suprir a demanda de alguém que possa falar um pouco de tudo, gostar um pouco de tudo, ser alguém agradável, sempre, pois sempre detestei o conflito. O problema é que isso torna esse lado de mim uma persona reativa, sem muita substância e, receio, sem muito assunto.

Esse não sou eu. Ou, pelo menos, espero que não.

Quando eu me vi sem meu nome e sem minha imagem, colocando aí um personagem de desenho, videogame, Franz Liszt, seja lá quem for, como meu representativo, afastando-me do meu rosto e de quem eu procuro ser para os outros, eu sou eu para mim mesmo. E, aí, o branco desaparece.

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Aqui está minha substância: talvez eu tenha vergonha dela para mostrá-la ao mundo lá fora, mas eu a revelo para vocês. Vocês me deixam ser quem sou, com toda a esquisitice. Eu perdi o medo de ser julgado, pois não é meu rosto do mundo que está ali.

É o rosto, metafórico, que tenho em casa. E ele gosta de sorrir.