20 anos de trabalho social com crianças

Texto do voluntário Vinícius Scoralick.

Vera contando sua história pra gente. Foto do fotógrafo voluntário Fernando Tribino.

Há 20 anos, Vera Lúcia Harouche, economista de formação, passou por uma situação banal para muitos cariocas. Assaltada, sofreu um ferimento de faca no braço. Sua reação surpreende qualquer pessoa que esteja acostumada com a realidade e conjuntura brasileira dos últimos anos, onde “bandido bom é bandido morto”. Vera então decidiu, a partir do olhar de desafio que recebeu daquela criança de apenas uns 9 anos, que iria fazer algo para auxiliar crianças a não entrarem para o crime. “Se revejo aquele olhar, reconheço o menino”, diz.

Espaço de trabalho na Logos. Foto da fotógrafa voluntária Tatiana Azzi.

Ela é fundadora da ONG Espaço Logos, que tem como diretriz trabalhar na transformação de crianças na faixa etária entre 6 e 13 anos em situação de vulnerabilidade social e pessoal de algumas comunidades do entorno da Tijuca. Com um projeto sócio educacional, tomou para si um papel de apresentação e solidificação de valores sociais, éticos, morais e a criação de uma percepção de cidadania que essas crianças não teriam fácil acesso. Um trabalho regrado e conscientizador criando condições para a formação do pensamento crítico e do desenvolvimento das potencialidades de cada um, construindo um ambiente de responsabilidades para a criança e sua família, não apenas com a ONG, mas com a própria realidade em que vive. “Se pudesse, essa criança só viria na instituição de 15 em 15 dias, quem viria de segunda à sexta seria a família”, diz.

Sala de música com um monte de instrumentos. Foto da fotógrafa Tatiana Azzi.

Seu trabalho é uma resposta à estrutura social. Onde o estado falha, a ONG busca compensar. Complemento de alfabetização, inglês, judô, teatro, oficina do pensamento, aula de cidadania, capoeira e aula de música (violão, cavaquinho e percussão) são algumas maneiras encontradas para completar a formação, sempre com uma estrutura gerada pela própria fundadora e 5 amigos. Sofre um pouco quando se fala em apoio de instituições justamente por buscar trabalhar na contramão da estatística para propaganda. Não tem problema em contar que recebe inúmeras cartas de empresas interessadas em apoiar, mas que desistem quando recebem a informação de que não há planejamento de expandir o projeto. “O apoiador quer número, eu quero qualidade”. O pensamento mercadológico não tem espaço em um ambiente de formação social. Mesmo assim, se engana quem não crê na estrutura do Espaço. Sua sala de música é digna de curso especializado.

A criançada gosta de jogar bafo no tempo livre. Foto da fotógrafa Tatiana Azzi.
Conceição, 16 anos como voluntária na Logos. Foto do fotógrafo Fernando Tribino.

Qualidade também faz parte quando se trata dos voluntários, todos com bastante tempo de casa. 19 voluntários, indo da alfabetização ao design, que saíram de um processo longo. Mais de 130 voluntários já surgiram, mas nem sempre há o interesse ou tempo de continuar. Conceição, 16 anos de voluntariado no Logos é professora, e responsável pela alfabetização e um ótimo exemplo do que é o espaço. Organiza suas turmas com um máximo de 5 alunos por turma, pois entende que assim é possível não só acompanhar a evolução, mas também dar carinho à criança. Muitas vezes é necessário que se faça um projeto diferenciado e inclusivo, o que faz sua forma de gestão ser algo raro de se ver. Contam-nos que existem crianças com 11 anos que ainda não conseguem ler, apesar de o governo compreender que o período educacional corresponde com suas capacidades.

Vera mostra entusiasmada uma das apresentações culturais das crianças no youtube. Pra conferir como são entre no youtube do Espaço Logos. Foto do fotógrafo voluntário Fernando Tribino.

No entanto, toda essa atenção não necessariamente dá frutos. É necessário um acompanhamento da família. A ONG realiza uma troca de informações com os colégios das crianças, e os dados recebidos geram um gráfico ao final de todo mês. Se a estatística apresentar um resultado negativo — abaixo de 7 -, a família é convidada para uma conversa com o objetivo de compreender o que se passa. “Sempre há um problema familiar por trás dessas quedas”, nos conta Vera. Os encontros com pais das crianças acontece quinzenalmente, e não é para se falar dos filhos. Nesses encontros se fala de educação, limites e regras. A sinceridade com que Vera aborda todos os assuntos transborda convicção em seu papel. A marcação cerrada não necessariamente impede que a estrutura puxe suas crianças para a realidade bem mais crua, e a fundadora reconhece que já sofreu ao perceber que seu trabalho não tem o poder de salvar todos de uma existência dolorosa.

Foto da fotógrafa voluntária Tatiana Azzi.

O limite em trabalhar por vidas transformadas e no auxílio das famílias se estabelece justamente quando sua “possibilidade de poder” se encerra e esta percepção de limite se deu graças a uma criança que lhe proporcionou todo este ensinamento. Foi exatamente neste momento em que Vera percebeu como o trabalho unilateral não possuí a força suficiente para a proteção das crianças à estrutura social acachapante.

E o retorno? “Elas voltam, não para ajudar, porque trabalham e tem que manter suas vidas, mas vem aqui contar como estão… já até trouxeram convite de casamento, foto dos filhos.”, conta. Isso sem contar os projetos e resultados. A Companhia Folclórica Brincante é um projeto de grupo de dança e possui apresentações em eventos como o Rio +20. Suas apresentações estão disponíveis no Youtube, e todos os outros projetos estão disponíveis no facebook da ONG. A convicção em seu trabalho faz com que Vera tenha um poder de contágio muito grande, e a responsabilidade no seu tom de voz cria um sentimento de que o Espaço Logos é um exemplo em termos de ambiente educacional. “Trabalhamos com finalidade, trabalhamos para transformar.”, finaliza.

Para conhecer mais acesso o site: http://www.espacologos.org.br/

Foto do fotógrafo Fernando Tribino.