A flor no asfalto: projeto leva arte para jovens no Complexo da Maré

Matéria do escritor Marcos Machado, voluntário do projeto comunicadores do Atados Rio.

Vida Real: um projeto que se tornou uma família. Foto: Gabriel de Faro.
Tião à esquerda. Foto: Gabriel de Faro.

O jovem Max Fernandes foi assassinado há exatos 7 anos, em 2010, no Complexo da Maré, no Rio de Janeiro. Para muitos, foi apenas parte de uma estatística cruel que contabiliza as vítimas da violência. No entanto, ele é o primeiro nome que vem à mente de Sebastião Antônio de Araújo, de 54 anos, quando perguntado sobre qual história mais lhe marcou ao longo de todos os anos à frente no projeto Vida Real, na Maré. “Fico pensando no que faltou dizer para aquele garoto”, diz Tião, como é tratado carinhosamente por todos. Há 13 anos, o projeto serviu- e ainda serve- de espaço para centenas de crianças e adolescentes entrarem em contato com a arte em suas diversas formas- com aulas de música, grafite, cinema e fotografia, por exemplo. Isso, porém, pode mudar em breve.

Vítima de uma das maiores crises financeiras dos últimos anos e da omissão do Estado, a ONG tem encontrado grandes dificuldades para se sustentar. O aluguel está atrasado há meses; os antigos 250 alunos somam, hoje, 90; e os 20 funcionários foram reduzidos a 10. Esse desmantelamento, além de evidenciar algo preocupante em relação às políticas governamentais voltadas ao social, traz à tona uma questão também de extrema gravidade: para onde iriam esses jovens? É fundamental, indicar, nesse momento o trabalho expressivo que o projeto tem no sentido de oferecer um outro caminho àqueles que, por ventura, estejam envolvidos em alguma situação ilícita. As aulas não só impedem um possível aliciamento ao tráfico, como também oferecem ajuda aos dependentes químicos na comunidade. “A mídia coloca que a maior parte aqui é bandido. Isso não é verdade. O governo está é impedindo esses alunos de sonhar”, coloca Tião, com um misto de revolta e tristeza na sua voz com a falta de repasses da FIA — Fundação para a Infância e Adolescência.

Um espaço na Comunidade da Maré e suas dificuldades. Fotos: Gabriel de Faro.

Este é, aliás, um dos aspectos mais chamativos ao se entrar em contato com o trabalho da ONG: o direito ao sonho. Pelos corredores, os grafites nas paredes e as notas musicais de instrumentos sendo praticados nas salas só confirmam o enorme potencial que esse trabalho tem e as possibilidades de mudanças que a arte pode trazer à vida de qualquer um. A própria história de Tião se confunde com a do projeto. Antigo inspetor escolar, ele conseguiu transformar a sua própria vida e dar forma ao seu sonho de fazer algo a mais pela comunidade de que faz parte. Tião foi a mão estendida a muitos jovens, quando eles mais precisavam de ajuda. Quando ele próprio precisou, anos atrás, de alguém que acreditasse nele, o nome vem de imediato: “Renée Castelo Branco. Ela acreditou em mim”. Foi a jornalista e documentarista que comprou a ideia do projeto e fez as articulações necessárias para o Vida Real saísse do papel e fosse ganhando forma. É em homenagem a ela, inclusive, que uma das salas é nomeada. “A gente precisa de alguém que te veja com outros olhos e que confie em você”, complementa.

Wendell e Lohana, alunos do projeto Vida Real. Fotos: Gabriel de Faro.

E são muitos os que ainda acreditam. Afinal, outro aspecto que chama a atenção é o fato de que os alunos que passam por aquelas salas seguem, de alguma forma, ligados a elas. A rede de afetos construídos ali é tão forte que muitos ex-alunos são, hoje, professores, permitindo a formação de um círculo de trocas extremamente valioso. É o caso, por exemplo, do professor de fotografia: duas vezes por semana, os estudantes têm uma aula teórica e uma prática, como um trabalho de campo. Através das lentes dessas câmeras, eles registram a sua realidade e podem contar as suas histórias.

Tião em frente ao painel. Foto: Gabriel de Faro.

No painel na sala de Sebastião, são essas mesmas histórias que estão estampadas pelas centenas de fotografias espalhadas, cada uma trazendo um momento especial: sorrisos, memórias e recordações. É com esses mesmos sorrisos que se articulam conexões de resistência, para seguir com a luta. “Você tem que gostar de estar no social! Tem que estar ali por amor”. É esse amor ao que faz que permite Tião ainda sonhar com a implementação de cursos de línguas ao sábados ou com um projeto profissionalizante mais específico, para facilitar a entrada desses jovens no mercado de trabalho. Para isso, ele reforça a necessidade de parcerias. Por fim, que essa luta seja a luta para o Wendell, de 11 anos, torna-se um grande grafiteiro, para a Lohana, de 17 anos, ser uma tatuadora renomada, e em memória do Max, do Renan Ribeiro e de tantos outros que tiveram sua juventude roubada pela violência. Que desses sonhos, venha a resistência de uma flor desbotada que, nas palavras de Drummond, fura o asfalto, fura o tédio e fura o ódio.