(Gabriel Nardelli/Arquivo pessoal)

Diário de Bordo: estamos no Haiti com a Gene

Nos últimos meses, o Atados embarcou no #SonhoDaGene: construir uma escola no Haiti.

Há mais de um ano no Brasil, a Geneviève Cherubin dá aulas de francês no Abraço Cultural, em São Paulo, e antes dos alunos brasileiros, ela deu aulas em sua terra natal, como voluntária, para crianças.

Ela viveu um tempo na região sudoeste do país, conheceu e nunca mais esqueceu a comunidade de Bernard Gousse, do estado de Pestel, que sofreu com o furacão Matthew, em 2016.

Assim, a campanha colaborativa École no Haiti contou com a ajuda de 181 pessoas e arrecadou mais de 40 mil reais para realizar a construção da escola dos sonhos da Gene.

Na última semana, Gabriel Nardelli, 28, integrante da equipe de Comunicação do Atados, está com a Gene no Haiti. Juntos eles têm conversado com possíveis apoiadores e têm estudado as melhores maneiras para tirar o projeto do papel.

Aqui, você pode acompanhar os relatos dos primeiros dias do Gabriel no país e suas impressões sobre essa empreitada em que estamos colocando nossa energia.

Nardelli ao lado de Robenson e sua esposa (Gabriel Nardelli/Arquivo pessoal)

Domingo, 17 de junho de 2017

Hoje foi o primeiro dia da viagem até o Haiti para dar o segundo passo no projeto de construir uma escola lá!

Depois de uma longa viagem com escala no Panamá, cheguei na República Dominicana e fui muito bem recebido pelo Robenson, que é haitiano, mora aqui em Santo Domingo, e logo me disse que é fã do Neymar e da nossa seleção.

Comi aqui na casa dele um prato típico, com banana da terra e peru fritos. Além do meu portunhol, a paisagem tropical e a temperatura aqui lembram muito o Brasil. O comércio de bugigangas e frutas no meio do trânsito também.

Agora a noite, Robenson me mostrou algumas músicas haitianas e dominicanas. Em seguida, me pediu para conhecer músicas brasileiras: comecei pelo Gil, mas gostaram mais quando​ tocou Anitta. Haha!
 Amanhã vou de ônibus para o Haiti, encontrar a Genevieve e começar a caminhada!

(Gabriel Nardelli/Arquivo pessoal)

Segunda-feira, 19 de junho de 2017

Hoje foi o dia da chegada.

Ônibus cheio, todos falando criolo haitiano e meu portunhol não me salvou. Sem entender nada, virei o Mont Blanc ou blanquito! Segue o jogo…

Foram três paradas para mostrar passaporte, preencher ficha e passar a mala no raio-x. Os desinformados, como eu, podem cair no truque de algumas pessoas que ficam próximas dos guichês, como se fossem oficiais, pedindo seu passaporte e um dinheiro para um suposto visto. Caí na primeira e perdi 10 dólares. :( Depois acho que aprendi.

(Gabriel Nardelli/Arquivo pessoal)

Sete horas depois da saída em Santo Domingo, cheguei a Porto Príncipe e encontrei a Genê! Ufa, agora está tudo bem!

O cardápio de hoje foi de cabra com cenoura e beterraba, acrras (tipo inhame frito) e mais bananas fritas.

O país tem energia elétrica escassa, então a noite muitas ruas ficam escuras. Se estiver​ acompanhado, isso não é um problema. Pelo contrário, é motivo para ir para a porta de casa, ver o movimento e tomar uma cerveja local: Prestige.

Terminei a noite batendo uma bola com mais dois admiradores do nosso futebol.

(Gabriel Nardelli/Arquivo pessoal)

Terça-feira, 20 de junho 2017

Andando pela capital, senti que Porto Príncipe reflete a história de um país que ainda não conseguiu estabilidade política e financeira para se desenvolver.

O primeiro país a se libertar da escravidão na América, em 1804, teve desde então disputas internas que dividiram sua nação e mudaram as cores da sua bandeira diversas vezes.

Os colonizadores franceses e, mais pra frente os EUA, são vistos como grandes vilões nesse processo.

(Gabriel Nardelli/Arquivo pessoal)

E claro que o terremoto de 2010 agravou a situação. Para se ter uma ideia, o palácio do governo ainda não foi totalmente reformado após seu desabamento naquela ocasião.

Mas a vida continua e os haitianos não param. Ao contrário​, correm! E tudo acontece na rua: o comércio é quase todo informal, com barracas que vendem desde roupas até camas e colchões!

Milho assado na calçada, manga, melancia, banana, eletrônicos e bugigangas disputam espaço com o trânsito caótico, onde motos de até 4 pessoas, carros americanos antigos, ônibus pintados a mão e caminhões tipo pau de arara brigam entre si e esquecem dos pedestres, que correm para atravessar ou passar entre os veículos.

Chamam atenção as crianças no caminho da escola, com uniformes tradicionais e impecáveis: meninas de vestido, meninos de calça e camisa.
 Elas, por sua vez, não escondiam a surpresa (ou espanto) ao cruzar com este homem branco curioso. Mas um joia de cada lado e o sorriso já normalizava a cena.

Quer tentar arriscar o francês?

Esqueça, aqui se fala criolo haitiano.

Ou ànfóm?

(Gabriel Nardelli/Arquivo pessoal)

A ida para a parte interior do país revelou cenas que minha vó contava como “antigamente no Brasil”: galinhas e cabras penduradas vivas para fora do pau-de-arara.

Um porco gritava ao ser transportado na moto, depois de ser comprado na feira que encontramos no caminho, onde não havia nenhuma barraca, tudo fica no chão e no sol forte.

Ao final das compras, as mulheres, em grande maioria, equilibram sacos em suas cabeças ou carregam as costas do seus burrinhos para fazer a longa caminhada.

Passamos ainda por uma linda cachoeira, que tem um significado importante para a religião vudu, muito forte no país. Alguns levam velas para fazer suas preces e chegamos a ver até pessoas em transe.

O Haiti é aqui.

(Gabriel Nardelli/Arquivo pessoal)

Quarta-feira, 21 de junho de 2017

ENCONTRO COM DEPUTADO

Hoje encontramos o deputado Wolf, que nos recebeu em sua casa de camisa, calça, chinelos e muita simpatia. Mas isso depois de passar por dois seguranças que o acompanham diariamente.

Wolf nasceu no Haiti, já estudou no México e na Bélgica, onde conheceu sua esposa, mas voltou ao seu país para tentar mudar a realidade da região onde morava: Bernagousse, exatamente onde queremos construir a escola.

(Gabriel Nardelli/Arquivo pessoal)

Quando voltou, em 1999, sua primeira missão foi levar energia elétrica para a região. “It was unbelievable” exclamou ele sobre a falta de energia até aquela época. Fiz uma pausa para contar que até 2005 algumas regiões do Brasil ainda sofriam com o mesmo problema que eles. Lembrei da ilha de Canárias, no Maranhão, que visitei em 2014, quando os moradores ainda comemoravam esse feito.

Mas, voltando ao deputado, Wolf contou que seu grande desafio neste primeiro ano de mandato foi de melhorar as condições da estrada de acesso ao local. O trajeto levava até 7 horas para ser feito e isso, claro, dificultava a chegada de qualquer mantimento.

Amanhã, a expectativa é de levar 2 horas no caminho de ônibus. E depois talvez uma parte de moto (confesso que ainda não entendi).

Vamos ver como é o trabalho do deputado, porque ele será fundamental na construção​ da escola. Já nos indicou uma possível doação de terreno, um engenheiro para o projeto, e mais para frente, um possível apoio com os professores. Será?!

A classe política também não tem muito prestígio aqui no Haiti. Mas costumo dar crédito para quem me recebe em casa de chinelos e oferece uma cerveja para conversar…

Lá vamos nós para Bernagousse!

(Gabriel Nardelli/Arquivo pessoal)

Hoje tivemos a reunião com Techo Haiti.

Fomos muitos bem recebidos pela diretora local, Carol, da Nicarágua, que já mora aqui há 3 anos.

No escritório, a sala cheia de comida, água, inchada, pás e carvão indicam que está tudo pronto para a saída de 80 voluntários que vão construir 10 casas em uma comunidade neste fim de semana.

Infelizmente o gerador está quebrado e o escritório está sem luz e internet. Fomos até um café, tomar um suco de US$5,00.

Gabriel e Gene (Gabriel Nardelli/Arquivo pessoal)

O Techo Haiti já construiu escolas no país, mas o foco neste momento está em comunidades de Porto Príncipe, então não conseguem nos ajudar diretamente na construção, mas vão nos conectar com voluntários engenheiros e com a organização América Solidária, que pode nos ajudar com a formação dos professores.

Após algumas reuniões aqui, está na hora de tomar uma decisão: nossa grande dúvida está entre investir todo valor arrecadado na reconstrução da escola ou dividir isso, reduzindo a reforma para investir no salário de professores por pelo menos um ano.

Saímos do Brasil convencidos da segunda opção, após pesquisar e visitar referências.

No Haiti, depois do deputado Wolf, Carol é a segunda pessoa a nos indicar a primeira opção. Eles alegam que aqui a infraestrutura é o que mais falta, e que se construirmos isso (claro, envolvendo a comunidade), aí sim teremos algo concreto para mostrar e buscar mais apoio.

Visões diferentes para realidades diferentes.

Falta agora uma opinião fundamental: Marjorie, a atual “coordenadora” da escola que será reconstruída.

Tivemos que adiar a viagem em um dia, mas amanhã partimos para Bernagousse. E lá vamos ouvir sua opinião.

(Gabriel Nardelli/Arquivo pessoal)

CONTINUA…