Janelas abertas e a resistência diária pela empatia nas grandes cidades.

por André Cervi ft. Luiz Pecora


Vejo, logo julgo

Tarde agradável, clima ameno, fecha o semáforo. Um carro não consegue passar. “Que droga”, pensou, antes de suspirar. Olhou para o lado, a janela estava aberta. Passou um homem de meia idade, de olhar cansado e roupa gastas. Subiu a janela. Ângela não se arriscaria, escutou de sua irmã que o cunhado do sobrinho havia sofrido um sequestro relâmpago aquela semana. “Essa cidade é impossível”, conclui.

Ângela é um personagem fictício, mas poderia ser qualquer um de nós. Alguns comportamentos são tão automáticos em nossa rotina que nunca pensamos sobre eles. Fechar a janela quando um “estranho” se aproxima é um desses rituais diários do paulistano (isso se abrem a janela, num descuido). Faz parte de uma série de julgamentos cristalizados em nossas atitudes. Fazemos isso o tempo todo, em muitas situações:

Vejo um morador de rua, logo julgo: Perigo!
Vejo um estudante barbudo, logo julgo: Maconheiro!
Vejo uma mulher segura de si, logo julgo: Puta!
Vejo um jovem de camisa polo, logo julgo: Coxinha!
Vejo um homem sensível, logo julgo: Bichona!

Ver e julgar são verbos que andam lado a lado. Toda a vez que somos forçados para fora de nossa zona de conforto levantamos nosso arsenal de ideias pré-concebidas. E isso tem sua razão de ser: é uma resposta simplista para nossos medos, de lidar com nossas inseguranças de forma fácil (Ângela tem medo, ela escuta histórias assustadoras de violência o tempo todo e tenta se proteger afastando do convívio qualquer um que reconhece como ameaça). É normal. Todos julgam, o tempo todo, queiram ou não. O erro está em não reconhecer que fazemos isso. Se não estivermos atentos aos julgamentos que fazemos na nossa rotina, corremos o risco de repetir preconceitos e injustiças sem nem se dar conta.

Convivo, logo compreendo!

Costumo dizer que grande parte das pessoas que vivem nas cidades está em uma “bolha em U”. O início da bolha é o apartamento com cercas elétricas, elevadores tecnológicos e inúmeras trancas. A ida para segunda bolha é o elevador, que representa a primeira perna do U. Do elevador, direto pro carro: a segunda bolha (principalmente se estiver com ar condicionado ligado e vidros fechados). Nesta bolha buzinante, vamos até a garagem do escritório. Subimos pelo elevador até andares altíssimos de prédios luxuosíssimos e chegamos na terceira bolha, onde permanecemos por 8, 9, 10, 11 ou mais horas de trabalho. Completamos o “U”. Na volta para casa, a mesma lógica. Repita o procedimento todos dias de semana e chegamos na bolha em U.

Seguir essa rotina gera uma falta de vivência na rua com pessoas diferentes (pessoas “estranhas” ao nosso dia-a-dia), que aliada a rotinas de trabalhos incessantes nos torna alheios aos problemas da sociedade. Somos menos empáticos à diferença: todos são estranhos. Os normais são as pessoas do meu pequeno círculo: a minha família (minha casa) e o meu trabalho.

Quando meu colega de apartamento se assumiu gay, eu só conseguia pensar em como ele estava sofrendo com esta situação. Na época, ele estava pensando em como ia contar isso para sua família, bastante conservadora. Ele nunca tinha problemas na barriga, mas estava com uma gastrite pesada só de imaginar como seria esse momento. Como heterossexual, eu não teria a dimensão de como é difícil para um homossexual lidar com a discriminação se não tivesse acompanhado meu amigo nesse processo. Quando convivemos com pessoas diferentes de nós, começamos a entender suas realidades, se aproximar delas e de repente aqueles julgamentos lá de cima vão desaparecendo, junto com antigos preconceitos.

Quando começamos o Atados, passamos por muitos mundos e conversamos com todo tipo de gente, que não estávamos acostumados a nos relacionar em nosso cotidiano. Pessoas com deficiência, em situação de rua, crianças distantes de suas famílias, ciclistas, idosos… não demorou para deixarem de ser estereótipos em nossas pequenas cabeças. Logo entendemos que eram seres humanos, pessoas como qualquer outra, cada uma com sua peculiaridade, com seus problemas próprios, seus defeitos e qualidades.

Alguns podem pensar: “mas eu sou super educado com os porteiros do meu prédio, com as faxineiras da minha casa e com os garçons dos restaurantes que freqüento”. Que bom, mas essa relação é diferente: trata-se de uma relação de cliente e prestador de serviço e não uma relação entre cidadãos, entre iguais.

O voluntariado muitas vezes é visto como uma relação vertical, em que o benfeitor ajuda o carente. Acredito em um outro tipo de voluntariado, em que ambas as partes aprendem, recebem e dão.

Obviamente o voluntariado não é a única forma de nos tornarmos empáticos, mas é um belo convite de vivenciarmos outras realidades e, quem sabe, começar a entendê-la.

Veja, logo cuspo!

Este texto tem como objetivo instigar as pessoas a saírem da sua zona de conforto. Saírem da sua “Bolha em U”. Ele também tem um tom solidário, de nos aproximarmos uns dos outros como humanos, de entendermos e resolvermos nossas diferenças por meio do contato.

Cuspir não te parece um verbo tão adequado neste contexto? Hei de me explicar! O cuspir acima empregado não tem um sentido tão literal, mas sim um sentido mais figurativo: ele representa o desserviço que grandes veículos midiáticos prestam ao estimular estereótipos e incitar o preconceito, cuspindo opiniões com o mesmo desprezo que se cospe (aqui, sim, literalmente) em outro ser humano. Não vou medir palavras: esse desserviço me causa nojo.

Infelizmente, baseamos grande parte de nossas opiniões e julgamentos nestas mídias e não na nossa vivência e experiência. Um exemplo tão claro quanto polêmico é a redução da maioridade penal. Não vou me posicionar sobre o tema, não é a intenção desse texto, mas quero lembrar esse debate para demonstrar o risco de assumir de forma acrítica a posição irrefletida da maior parte da mídia sobre questões sensíveis. Todos têm uma opinião, mas poucos conhecem o sistema prisional brasileiro ou já conviveram com um menor infrator. Como podemos tomar uma decisão justa sem estarmos atentos a isso, sem reconhecer que pouco sabemos do que está em jogo em pautas desse tipo?

Por isso, me despeço de vocês com um apelo: reconheçamos a nós mesmos como preconceituosos e, antes de sairmos cuspindo nossas opiniões, procuremos viver a diferença, vivenciar e conviver. Só assim é possível se posicionar politicamente com um alguma qualidade e visão própria.


André Cervi é ciclista, mas quando anda de carro adora deixar o vidro aberto. Nunca foi assaltado.
Luiz Pecora é formado em Direito na USP. Trabalha pela reintegração de refugiados em São Paulo como coordenador do Abraço Cultural e dedica seus estudos aos direitos humanos. Faz várias coisas que não dão dinheiro..