Nill Santos é exemplo de superação para as mulheres da AMAC

Vítima de violência doméstica reconstrói a própria vida ao ajudar outras mulheres.

Nill junto ao artesanato produzido nas oficinas da AMAC.

Quem vê o sorriso largo no rosto de Nilcimar Maria Santos, de 47 anos, ao falar dos projetos da Associação Mulheres de Atitude com Compromisso Social — AMAC, não imagina o que ela passou.

“Fui vítima de violência doméstica por dez anos. Violência física, psicológica e sexual. Em 2007 eu já estava esgotada. Quando cheguei ao meu limite, conversei com minha mãe, que não sabia de nada, e decidi sair de casa”, revela Nill, como é carinhosamente chamada. Com o apoio da família, ela conseguiu tomar a atitude mais difícil de sua vida: fazer as malas e ir embora com dois de seus três filhos. Apenas os filhos do casal — Ana Beatriz, atualmente com 25 anos, Gabriel, de 19, e Sara, de 13 — eram testemunhas da violência. “Hoje eu dedico minha vida ao próximo. Poderia nem estar viva. Fiz da minha dor a bandeira para seguir em frente. Quando você se torna canal de transformação é muito lindo”, afirma.

O caminho até o trabalho que a tornou uma referência na proteção à mulher foi longo. Um ano depois da separação, Nill entrou em depressão. Os amigos, então, insistiram para que ela participasse da implementação do projeto de uma escolinha de futebol. Isso ajudou a adquirir novo ânimo para a vida. Mas as dificuldades ainda não tinham terminado. “Em 2010 perdi a minha mãe”, relembra. “Como a vida estava difícil, tive que entregar os dois filhos que estavam comigo para morar com meu ex-marido”. Apesar da tristeza, ela não podia parar. A chuva na Região Serrana do Rio de Janeiro, em 2011, que provocou 506 mortes, deixou Nill muito abalada. Ela não perdeu tempo e foi imediatamente para Friburgo, onde passou 15 dias trabalhando como voluntária.

Depois de uma experiência tão forte, voltar para casa significava fazer mudanças. “Percebi que ao falar sobre o assunto, encorajava outras mulheres a procurarem ajuda. Assim surgiram as rodas de conversa. Agentes de saúde viram o nosso trabalho e convidaram para fazer um projeto em conjunto. Eu ainda não tinha certeza, mas à noite sonhei com isso e achei que era um sinal”, diz. Ao seguir seu coração, Nill começou um trabalho de formiguinha para atender as mulheres do município de Duque de Caxias. O boca a boca foi trazendo mais e mais mulheres de várias regiões.

Desde 2014, Nill Santos dedica sua vida a ajudar outras vítimas de violência doméstica na ONG AMAC, que funciona de segunda à sexta, de 9h às 17h. A ONG oferece cursos de artesanato, capacitação para o trabalho, exames médicos e ginecológicos, atendimento psicológico e auxílio jurídico. Mas o que Nill faz questão de destacar é o trabalho de acolhimento.

“Nosso trabalho é acolher e escutar. Uma hora esta mulher percebe que pode sair da situação de violência doméstica. É preciso ter paciência se a vítima tiver recaídas, porque foram muitos anos para construir uma relação. Então, quando não sai da relação, ela resgata o casamento, porque se coloca como protagonista. Isso muda tudo”, reflete Nill. É isso mesmo: ela acredita que os homens podem mudar. “Se a gente não acreditar, perde a esperança de lutar. Quando os maridos aceitam tratamento, eles são encaminhados para o psicólogo para entender de onde vem essa agressividade. Senão, vão encontrar outras mulheres e repetir o comportamento. Aqui têm a possibilidade de reconstruir a vida”.

Nill acredita também que o investimento em educação seja o caminho para impedir a reprodução da violência. “Deve haver um trabalho de prevenção com as crianças. Hoje em dia não se vê campanha para discutir violência doméstica em sala de aula”. Além disso, Nill ressalta que é preciso denunciar a violência doméstica, sempre! Procurar a delegacia da Mulher mais próxima ou ligar para a Central de Atendimento à Mulher, número de telefone 180.

Para ela, a prioridade da AMAC é proteger as vítimas. Ao saberem que uma mulher precisa de ajuda, principalmente para deixar o parceiro, a ONG mobiliza sua rede de ajuda para oferecer acolhimento, móveis, alimentos e, depois, oportunidade de trabalho.

A associação tem uma sede onde trabalham 14 pessoas e conta com uma rede de voluntários para ajudar em oficinas e em eventos especiais. Também faz parcerias e estabeleceu uma rede com outras 30 organizações para compartilhamento de informações, materiais e experiência.

E o trabalho começa a dar frutos e a ganhar visibilidade. Em 2016, Nill foi finalista no 21º Prêmio Claudia, indicada através do Prêmio Acolher da Natura.

Já em 2017, o destaque foi para a organização da 1ª Corrida e Caminhada contra o Câncer de Mama para conscientizar sobre o Outubro Rosa, em Caxias. Mesmo sem ter experiência. Nill e um grupo de voluntários passaram cerca de 3 meses na organização, confecção de kits, divulgação e realização. A corrida contou com a participação de 3 mil pessoas e o alimento arrecadado foi doado para as mulheres ajudadas pelo projeto e para famílias de outros projetos sociais da região. A corrida trouxe uma nova possibilidade de renda para a sustentabilidade do projeto: Nill foi chamada para organizar outra corrida na cidade.

Foto: Acervo

Junto com o crescimento e fortalecimento do trabalho na AMAC, Nill conseguiu superar o medo e a baixa autoestima e se casar novamente, desta vez com um amigo de infância. “É importante as mulheres saberem que elas podem encontrar um parceiro que as respeite. Elas vão conseguir reconstruir a vida”.

E quem está buscando por um trabalho voluntário, a ONG necessita de voluntários para trabalhar no atendimento psicológico e na área jurídica. Os interessados podem entrar em contato com a AMAC pela página no Facebook: https://www.facebook.com/atitudeamac/