Refugiado e ex-Malhação, o cantor congolês Musipere grava música falando da paz

Texto escrito pela jornalista Cristina Cople e fotos do fotógrafo Fernando Tribino, voluntários do projeto Comunicadores do Atados Rio.

Musipere gravando. Foto do fotógrafo Fernando Tribino.

O cantor Musipere ficou conhecido no Brasil depois de atuar na novela Malhação ao lado de Isabela Garcia e Tuca Andrada na temporada de 2013. Na ficção, ele também era um refugiado, papel que ele conhece bem. Musipere deixou o Congo depois de ver sua casa e família despedaçadas. Ele chegou ao Brasil como bolsista de um curso de economia, mas precisou trabalhar muito para se sustentar. “Foi muito difícil aprender a língua. Não tinha como voltar para o Congo e tinha que me virar. Fiz curso de modelo e consegui fazer um comercial. Depois, eu me dediquei à atuação em Curitiba. Primeiro fiz um filme com o diretor Alexandre Moretson e, em 2013, tive a chance de fazer teste para a novela Malhação”. Para se familiarizar com o idioma, Musipere decorou as canções do rei Roberto Carlos. “Além de as músicas serem lindas, ele canta um português de fácil compreensão”, conta.

A Cristina conversando com o Musipiere. Foto do fotógrafo Fernando Tribino.

Depois de aparecer na TV, a carreira como músico também ganhou impulso. “Desde criança eu queria muito ser músico. Eu cantava e dançava com os amigos. Em Curitiba, na época em que estudava interpretação, eu comecei a compor. Quando fiz Malhação, o cantor Thiaguinho, que namorava a Fernanda Souza, postou o clipe da minha primeira música — Tequila — no Instagram. Muita gente gostou. Então, a autora da novela escreveu uma cena em que eu tinha que cantar em um sarau. Essa foi a grande oportunidade de mostrar o que eu sabia fazer. Escrevi a música ‘Vamos causar’, que passou a fazer parte da trilha sonora. Só tenho o que agradecer a este país porque por causa dele estou realizando vários sonhos”.

O Congo e o Passado

Em maio de 1997, a vida do cantor e ator Musipere mudou para sempre. Na época, com apenas 11 anos, ele levava uma vida confortável ao lado dos nove irmãos em um bairro de classe média alta. Filho de um militar, ele não tinha com o que se preocupar. Mas uma noite, o pai entrou com o carro na garagem a toda velocidade, correu pela casa nervoso e exigiu que todos pegassem apenas o essencial. Musipere não sabia ainda, mas a família toda estava fugindo da ameaça de serem mortos de forma violenta por opositores ao regime que vigorava no país há 32 anos, pelas mãos do ditador Mobutu Sese Seko, a quem seu pai era subordinado.

Quando o líder guerrilheiro Laurent-Désiré Kabila tomou a capital Kinshasa, civis e militares ligados de alguma forma ao ex-ditador passaram a ser perseguidos.

Foto do fotógrafo Fernando Tribino.

Do paraíso ao inferno

A família foi deixada em uma cabana abandonada na área rural e passou frio e fome para sobreviver. O pai nunca mais foi visto. Anos depois, Musipere ficou sabendo que ele estava morto.

“A gente não tinha nada. Minha mãe roubava mandioca para a gente comer. Não tinha telefone para saber como meu pai estava. Um dia, minha mãe esbarrou com o padre da região e ficou com medo de que ele fosse um estuprador, mas ele se ofereceu para ajudar. Eu aprendi a pintar paredes, a fazer jardinagem e voltei para a escola”, lembra com tristeza. “Eu não conhecia a fome… Mas quando meu pai fugiu, a gente dormia apenas com água na barriga. Se eu não tivesse passado por isso, talvez não desse valor ao ser humano da forma como eu dou hoje. A dor nos ensina”, diz.

Por que o Brasil?

Musipere já fazia pequenos trabalhos para ajudar a sustentar a família, quando um amigo surgiu com a possibilidade que mudaria sua vida. “Um amigo ficou sabendo que estavam dando bolsas de estudo no Brasil e perguntou se eu não queria tentar. Ele insistiu muito. Então, eu fiz a inscrição. Eu passei na prova e ele não”.

Foto do fotógrafo Fernando Tribino.

Mensagem de paz

Em todo o mundo, o Dia Mundial do Refugiado — celebrado em 20 de junho — é uma oportunidade para celebrar a força, a coragem e a perseverança das pessoas que foram forçadas a deixar suas casas e seus países por causa de guerras, perseguições e violações de direitos humanos.

Foi pensando em pessoas que também tiveram que enfrentar o drama do refúgio que Musipere gravou a música “La Paix au Monde”, ou “A Paz no Mundo”, contando a sua história. Ele também conta com uma participação especial: o refrão é cantado por um coro de crianças refugiadas que vivem em São Paulo.

“A música vai passar essa mensagem de amor ao próximo. Se eu passei tudo isso, tem gente que já passou coisa pior. Gente do Paquistão, do Sudão, da Síria. Eu não tinha voz quando tinha 11 anos e meu pai me deixou e foi embora. Se a gente não fizer alguma coisa, outras crianças podem morrer”.

Encontro através da arte

Da esquerda para a direita, Renato Alscheer, Clemente Magalhães, Áureo Gandur, Nathalia Serra. Foto do fotógrafo Fernando Tribino.

A voz que Musipere tanto queria expressar ganhou reforços quando ele conheceu o produtor musical Clemente Magalhães. O profissional percebeu que o trauma vivido pelo cantor poderia resultar em uma obra importante. “Fiquei alguns dias sem conseguir dormir. Ninguém fala desta guerra. Eu disse para ele: eu entendo que não queira fazer disso um calvário. Mas se você não tiver uma música na sua obra que conte a sua história, você vai ter que contar mil vezes”, relembra Clemente.

A partir daí outros músicos experientes foram se juntando ao projeto para fazer a música acontecer. Áureo Gandur compôs a melodia e harmonia. Fred Sommer, o refrão. Com Rick de La Torre, na bateria, Guila no baixo, Iuri Nascimento na Guitarra, Leo da Montanha nos teclados e Claudio Bess, a banda estava formada. Musipere gravou em estúdio pela primeira vez na vida e se emocionou. Tudo isso só foi possível com a ajuda e incentivo dos produtores Clemente Magalhães e Renato Alscheer, que cederam o espaço e o próprio tempo para ajudar.

Clemente, Áureo e Christian. Foto do fotógrafo Fernando Tribino.

O compositor Áureo Gandur conta como foi participar de um projeto humanitário: “Para ser um artista verdadeiro você paga um preço caro. Você ganha em outras coisas. Viver aquele dia para mim foi com certeza um dos maiores pagamentos pela vida que eu escolhi. Foi um encontro de artes e de histórias, muito mais do que um serviço”.

Christian Monassa, diretor do clipe e amigo pessoal de Musipere, foi um grande incentivador do trabalho. “Desde o início, a gente entrou em um consenso de que ele deveria falar o que tem mais importância para ele”, conta.

O próximo a ser realizado por Musipere é rever a família. “Faz nove anos que não vejo a minha mãe. Eu perdi gente da minha família, mas agora eu caminho para frente, para esquecer o que eu já passei. Mas eu queria muito trazer minha mãe para cá. Eu penso nela todo dia”.