Sociedade pede paz na Maré e o fim da violência em favelas do Rio

Matéria escrita pela jornalista voluntária Alice Bidone e fotos do fotógrafo voluntário Fernando Tribino e do Gabriel de Faro.

Foto: Fernando Tribino.

Os números são alarmantes e crescentes: apenas de janeiro a março de 2017, foram registrados 13 mortos e mais de dez operações de forças de segurança pública na Maré, enquanto em 2016, durante todo o ano, 17 pessoas foram mortas. A violência atingiu a educação e a saúde: crianças ficaram muitos dias sem aula e os moradores semanas sem acesso a postos médicos. Esses dados são só um exemplo de uma realidade que se repete em outras favelas do Rio. Para exigir uma solução ao poder público, na tarde de 24 de maio, mais de 4000 pessoas de diferentes regiões e setores da sociedade foram às ruas da comunidade. O Atados Rio apoia a Marcha Contra a Violência na Maré, que representou a união da população pelo fim da violência em favelas da cidade.

A Organização

Foto: Fernando Tribino.

Essa é a primeira ação organizada pelo Fórum “Basta de Violência! Outra Maré é Possível”, que reúne sociedade civil e instituições públicas em torno da causa. O movimento questiona uma estratégia de segurança pública que, segundo eles, traz consequências graves para a população e resultados pouco efetivos. Moradores, líderes comunitários e religiosos, representantes de organizações, artistas e jornalistas — de locais próximos ou distantes — coloriram as ruas com suas camisas do fórum, amarelas e brancas. Uma imensa bola rosa trazia os dizeres: ‘Amor é Maré’, frase facilmente ilustrada pela atitude dos manifestantes. Muitos carregavam flores, adesivos no peito e cartazes que pediam paz. Gritos de ‘Basta violência” e “A Maré resiste” ecoaram pelas vielas.

Alguns rostos conhecidos também participaram. Foto: Fernando Tribino.

“Nós precisamos ser vistos como cidadãos, mas ‘cadê’ nossos direitos? Moradores unidos, jamais serão vencidos”, repetia ao microfone, como em um grito de guerra, um dos representantes do movimento. O engajamento foi imediato. Das janelas, as pessoas, orgulhosas do que viam (e ouviam), tiravam fotos e filmavam a marcha. Outras, contagiadas pelo pedido de mudança, aceitavam o convite e se juntavam aos demais — uma espécie de reconhecimento de um movimento feito de morador para morador, apoiado pela sociedade em geral.

Thais de Jesus Custodio. Foto: Gabriel de Faro.

“A violência precisa acabar. Na Maré, pessoas ficam com medo de ir ao trabalho e serem alvejadas no caminho. Se vamos até a Praia de Ipanema numa boa, também deveríamos andar livremente por aqui, não é mesmo?”, questiona Thais de Jesus Custodio, de 27 anos. Envolvida na realização do evento, a recém-formada em Economia mal tinha tempo de conversar, mas poucas pessoas poderiam falar pelos moradores como ela: membro do Fórum “Basta de Violência!”, é uma das representantes da Redes de Desenvolvimento da Maré e residente da comunidade.

Defensora da divulgação boca a boca, ela conta que foi pessoalmente às escolas, conversar com os pais, e aos postos de saúde. Foram distribuídos cartazes e mensagens em carros de som. Até lambe-lambes foram colados ao longo da Av. Brasil para falar sobre a marcha: “Isso é necessário porque esse é um movimento de todo mundo que está nesse espaço, sofrendo”. E era mesmo: a cada passo, Thais era abordada por um novo morador, que estampava no rosto o alívio de finalmente acreditar que uma mudança é possível.

João Felipe Brito. Foto: Gabriel de Faro.

O pesquisador e sociólogo do Observatório de Favelas, João Felipe Brito, confia nessa transformação. Na organização, que apoia a marcha, eles mapeiam ações da sociedade civil que contribuem para a redução de homicídios na América Latina. A meta aqui é reduzir o índice de casos pela metade em dez anos. “Parece um objetivo ousado, mas é possível: há cidades que tiveram uma redução ainda maior em um período mais curto. É preciso incorporar algumas dessas estratégias em políticas públicas para termos um resultado expressivo em médio e longo prazo”, explica.

Os Moradores

Enquanto a realidade não muda, a escalada da violência é crescente. Regiane de Souza Barreto, mais conhecida como Galega, mora na Maré há 30 anos e há três meses foi uma das vítimas de bala perdida. Para acelerar a sua recuperação, moradores apareciam para dar um abraço e ela não escondia a gratidão: “Não moraria em nenhum outro lugar, aqui conheço todo mundo”, dizia, feliz. Seu marido, há 17 anos, também foi atingido na Maré, o que dá a ela uma percepção de que isso é natural: “Foi um acidente como outro qualquer”, afirma, apesar de reconhecer, quando questionada, que um caso assim não deveria ser ‘normal’. “Não desejo que ninguém passe pelo o que eu passei”, falou emocionada.

Mães que perderam seus filhos para a violência. Fotos: Fernando Tribino.

Infelizmente a vivência de Galega não é única, e ela sabe disso. Eram inúmeras as faixas que traziam pedidos de justiça e fotos de vítimas da violência entre facções e policiais. A mãe de Davison Lucas Galdino, de 15 anos, assassinado em janeiro quando ia comprar pão, revela que há centenas de pais na mesma situação que ela, isso apenas na Maré. “Muitos têm medo até de vir à manifestação, com receio de sofrer represália. Há crimes que aconteceram há 20 anos e a família ainda aguarda a resolução do caso”, afirma Dilma Xavier Galdino. Em um palco erguido para a marcha, outras mães, ao microfone, pediam ajuda: “Nós não podemos ter nossos filhos de volta, mas pedimos o mínimo: uma justiça que não seja racista e parcial”.

Violino assinado por todos os integrantes da Orquestra da Maré vai ser entregue para o Papa. Foto: Fernando Tribino.

Em meio a tanto grito de dor, há esperança: o projeto Orquestra Maré do Amanhã e a organização Luta pela Paz, que investem no poder da música ou do esporte, fizeram apresentações para mostrar que há outros caminhos possíveis: “A música vai direto ao coração. Essa possibilidade de se emocionar e fazer emocionar quebram barreiras. Conheço pessoas que eram próximas ao tráfico que hoje estão prestes a se tornar músicos profissionais”, comemorou, com um sorriso, Carlos Eduardo Prazeres, diretor da orquestra, que agora se prepara para tocar no Vaticano para o Papa.

Basta de Violência

A coordenadora de Liderança Juvenil da Luta pela Paz, Lola Werneck, aproveita ações como a Marcha Contra a Violência na Maré para aumentar a articulação com moradores: “Nós dialogamos muito, ajudamos a ‘desnaturalizar’ o que acontece aqui, mostramos que ninguém deve se acostumar com isso”. Para ela, a passeata é uma forma de acabar com o silêncio e dar voz a um sofrimento que é coletivo.

Muro cravejado por balas e com flores nos buracos. Primeira foto: Fernando Tribino; segunda: Gabriel de Faro.

As apresentações aconteceram em um ponto simbólico do complexo onde há muitos conflitos entre facções rivais e policiais. No local, havia um estabelecimento que comprovava o que muitos relatavam ali: uma parede repleta de marcas de tiros, mas que em cada buraco havia uma flor. Talvez um pedido de socorro dos moradores, cansados da violência que gera ainda mais violência — ou uma metáfora de quem acredita poder preencher as lacunas das agressões com educação, arte e amor.

Basta de violência! Foto: Fernando Tribino.
Fotos: Fernando Tribino.
Foto: Fernando Tribino.