Conversas em série— Emmi Pikler # 1

“A pedagogia dos detalhes”

Emmi Pikler redefiniu o que se sabia sobre a primeiríssima infância e devolveu a criança e o cotidiano a um lugar de destaque

O bebê é sujeito capaz. Não é o adulto quem ensina. Biologicamente, o bebê está pronto para aprender e pesquisar por conta própria. Com um rigor quase científico. Em seu ritmo, de acordo com seus interesses.

Precisa de segurança e vínculo. O toque, a fala respeitosa, o cuidado diário realizado sempre de um mesmo modo são essenciais para o bebê sentir-se seguro e conquistar autonomia. É primariamente pelo corpo que ele percebe o mundo e percebe-se psíquica e fisicamente. É no corpo que precisa sentir a segurança da mão firme e amorosa para saber-se amado e amparado.

Deve estar livre para movimentar-se. Mas não pode ser colocado em uma posição que ainda não sustente sozinho. Rolar, virar-se, sentar-se, alongar e firmar os membros, ficar sobre o apoio pernas e mãos, engatinhar, erguer-se são conquistas do bebê; não podem ser “adiantadas”, estimuladas, “ensinadas” pelo adulto.

Vem dessas constatações da pediatra húngara Emmi Pikler, sintética e superficialmente citadas no parágrafo acima, o que se chamaria, depois, de “abordagem Pikler”, conjunto de premissas no cuidado com os bebês que pode ser resumido em três princípios básicos: 1) segurança afetiva, 2)ambiente previsível e 3) movimento livre.

São justamente esses fundamentos da “abordagem” pikleriana os temas dessa reportagem, com a qual o blogue Ateliê Carambola inaugura uma série sobre Pikler, publicada mensalmente. A partir da teoria, do olhar de especialistas e partindo do cotidiano e das experiências concretas da escola, pretende-se investigar a potência do bebê e as ideias da médica húngara, que autodefiniu seu olhar -tão sensível e revelador- não à toa como “pedagogia do detalhe”.

SEGURANÇA AFETIVA

A segurança afetiva se dá primariamente pelo toque, pelos cuidados diários, pela alimentação, pelo colo, pelo sono, pela higiene. Pikler talvez tenha sido a primeira pediatra a lançar luz científica sobre os cuidados com os bebês, considerados -ainda hoje- atividade “menor”, “menos nobre” ou pouco importante. Na verdade, é o contrário.

Diz Sylvia Nabinger, presidente da oscip Acolher, de Porto Alegre, doutora em Direito de Família, terapeuta familiar e estudiosa de Emmi Pikler:

“A primeira coisa que o bebê encontra quando sai do útero são mãos. Se são mãos brutas, fortes, inseguras, ele sente rapidamente. E são essas as imagens que ele terá. As mãos têm de ser tranquilas, pacientes, cuidadosas, seguras, decididas”.

É preciso considerar que o bebê vivencia e experimenta seu corpo e suas sensações físicas de modo muito diverso do modo de um adulto. As sensações físicas e as emocionais e psíquicas são compreendidas pelo bebê praticamente como uma experiência única. Um toque pouco cuidadoso, por exemplo, gera insegurança, medo, uma sensação emocional desagradável que acaba por desestabilizar o bebê.

Da mesma forma que percebe suas emoções por seu corpo e vice-versa, o bebê também é capaz de notar alterações sutis de humor e (in)tranquilidade em seus cuidadores através do toque, da postura corporal, de um leve franzir de sobrancelhas. A linguagem não-verbal é muito aguçada nessa faixa etária.

Crédito: Fabricio Remigio/Acervo Ateliê Carambola

Pikler notou, portanto, que, para dar segurança aos bebês, era importante um toque tranquilo e seguro, uma voz respeitosa, autorização do bebê para que o adulto manipulasse seu corpo, antecipação daquilo que o cuidador faria.

Atender prontamente os pedidos do bebê e da criança, responder ao choro e jamais ignorar são também preceitos importante piklerianos.

“O adulto não reconhece a dor do bebê”, lembra Nabinger.

Basta ver quantas vezes uma mãe ou uma educadora são instadas a ignorar o choro, não pegar no colo; quantas vezes o choro do bebê é compreendido como “manipulação” e “manha”.

O pediatra catalão Carlos González, autor do livro “Besame mucho”, é um crítico feroz desse silenciamento dos bebês e das crianças. Diz ele que uma criança pequena é incapaz de bolar estratégias para manipular os adultos; ainda não aprendeu tais mecanismos, mas, mais importante, seu cérebro não desenvolveu fisicamente estruturas para tal.

Além disso, por “menores” que pareçam os motivos das crianças, para elas, eles são verdadeiros. Grandes. Do tamanho dos choros e explosões emocionais que causam. Não há falseamento. Quando choram copiosamente porque queriam vestir os chinelos, mas terão de usar sandálias, a dor que sentem é genuína e precisa ser respeitada, acolhida. Por mais que um adulto não consiga compreendê-la.

Nabinger lembra que é um esforço descomunal para o bebê, vindo de um mundo aquático, acostumar-se a esse ambiente aéreo. E isso é só uma primeira etapa em uma longa jornada de adaptações, que justificam uma série de comunicações (choros, gritos, descontroles) que, para o olhar adulto, parecem fora de propósito.

Ao adulto, cabe facilitar esse processo de adaptação.

Crédito: Ângela Maria Henrique Rodrigues/Acervo Ateliê Carambola

O bebê precisa, portanto, de vínculo e de um ambiente com poucas mudanças (é preciso estabelecer padrões) para sentir-se mais seguro e confortável para suas pesquisas, descobertas e para ter condições emocionais de enfrentar todos os outros muitos momentos de incertezas, inseguranças, incompreensões.

AMBIENTE PREVISÍVEL

Por esse motivo, Pikler defendia que, ao invés de tomar os bebês nos braços para trocá-lo sem que ele tenha a menor ideia de porque era pego, o adulto deveria avisá-lo, pedir sua licença, compartilhar com ele esse momento.

Pikler define um modo preciso -quase uma balé, quase uma coreografia- para a higiene dos bebês, sempre arquitetado e em parceria com a mesma pessoa (ou as mesmas pessoas), o mesmo cuidador. É preciso que os cuidadores avisem o que vão fazer, pedindo permissão para manipular os corpos das crianças, tocando sempre da mesma forma e fazendo a higiene segundo uma mesma sequência.

Diz Nabinger:

“Ela [Pikler] orientava a começar a trocar a fralda do lado esquerdo, com jeito, começando de um lado e indo para o outro. Aos poucos, a criança tornava-se colaboradora desses processos e mais autônoma neles conforme crescia, porque já os conhecia, podia e queria fazê-los por si mesma”.

Ao antecipar a movimentação dos adultos, o bebê vai se apropriando do processo. Vai compreendendo-o, dominando-o, ficando à vontade para participar ativamente daquilo que sente-se seguro para fazer. O ganho de autonomia paulatino e a partir das conquistas da própria criança é uma marca da abordagem de Emmi Pikler.

MOVIMENTO LIVRE

Tanto é assim que o chamado “movimento livre” -talvez a ideia mais característica pikleriana- tem esse mesmo fundamento: a criança deve conquistar e “construir” ela mesma seus movimentos, desde o nascimento, pois o faz na barriga.

Ao adulto cabe preparar um ambiente seguro e adequado para uma exploração livre, em que a criança, aos poucos, conseguirá mais e mais destreza, força e autonomia com seu corpo.

Portanto, colocar a criança em uma posição a que ela não tenha chegado por si só é altamente não-recomendável. E uma prática infelizmente comum.

“Colocar em posições inadequadas dá ao bebê sensação de desamparo, de não dar conta do mundo”, explica Nabinger.

Por exemplo, os adultos, seja no ambiente público seja no privado, costumam colocar os bebês de barriga para baixo para “estimular” que se movam antes que eles consigam girar por si sós.

Crédito: Ângela Maria Henrique Rodrigues/Acervo Ateliê Carambola

Para Pikler, ao invés disso, o cuidador deve deixar o bebê que não gira com a barriga para cima, oferecendo a ele aliados em suas explorações. Nabinger lembra, por exemplo, que o bebê começa sua exploração do mundo pelas próprias mãos e pés e que, para essa exploração, estar de barriga para cima é bastante confortável.

Quando começa a segurar objetos, o adulto pode prover ao bebê materiais para explorar. Não tanto brinquedos. Mas elementos que possam ser segurados de diversas formas, que tenham texturas diferentes, que sejam macios e seguros (os bebês experimentam muito com a boca).

Por conta própria, o bebê consegue rolar, depois rasteja, vira-se. Até alongar bem as extremidades, firmar-se e alcançar posturas mais autônomas e confortáveis para explorar o mundo, como sentar-se, erguer-se, locomover-se sem necessidade de ajuda.

Para esse ganho de autonomia, o adulto deve ceder espaço à criança. Ceder o protagonismo. Resistir a estimular. A criança não precisa de estímulo, mas de apoio. Para avançar em seu tempo, respeitosamente.

“Temos problemas muito sérios com hiperatividade e falta de concentração por superestímulo. Uma criança brasileira assiste a cinco mil horas de telas até chegar ao primeiro ano do Ensino Fundamental”.

Nabinger lembra que Pikler foi precursora de muitas reflexões que a sucederam na ciência, inclusive no campo da neurologia. Sabe-se, por exemplo, que a primeiríssima infância é fundamental para o desenvolvimento. E que, ao contrário do que se supunha, o cérebro do bebê é muito mais ativo do que o de um jovem ou de um adulto.

Para Nabinger:

“A infância passa rápido, mas dura para sempre”.

OLHOS PARA ENXERGAR

Emmi Pikler, médica húngara, talvez tivesse uma trajetória profissional tradicional. Formada pediatra em Viena, na Áustria, atendia bebês e crianças em casa, momento em que orientava as famílias com informações genéricas sobre alimentação, sono e noções básicas de desenvolvimento infantil.

Logo após a Segunda Guerra, no entanto, Pikler interessou-se por um orfanato localizado na rua de sua casa, a rua Lóczy. O orfanato levava o mesmo nome e abrigava bebês e crianças. Foi nesta instituição que a pediatra, ao se deparar com como os bebês eram tratados, inciou sua pesquisa que culminou com as propostas inteiramente novas de tratamento e abordagem da primeiríssima infância.

O orfanato posteriormente se transformaria em Instituto Lóczy e, depois, no atual Instituto Emmi Pikler, que segue em atividade pelas mãos da psicóloga Anna Tardos, filha da fundadora.

“É preciso perceber que os bebês e as crianças não são objetos, mas sujeitos. Precisam de respeito, de relações respeitosas”, Sylvia Nabinger.