Como as crianças aprendem # 2

As cem linguagens: arte, brincadeira, corpo, movimento, intelecto, afeto e pesquisa na infância

O post anterior discutiu o processo de aprendizagem das crianças, especialmente à luz da abordagem de Loris Malaguzzi, educador que ajudou a refundar, no pós-guerra, a educação em Reggio Emilia (pequena cidade italiana que seria conhecida, a partir dos anos 90, pela qualidade de sua educação).

Esse aprendizado, segundo Malaguzzi mas também a partir do ponto de vista de outros pensadores que vieram antes e depois dele, como Montessori, Rebeca Wild e Humberto Maturana, é construído pela e a partir da criança. Ao adulto, cabe ajudar, oferecendo escuta, atenção, presença e meios para que o aprendizado aconteça.

Se o educador é aquele que principalmente escuta, como é que a criança fala? Para Malaguzzi, a criança tem “cem linguagens”, ou seja, expressa-se de infinitas formas –não só verbalmente — , entre elas através da arte: do desenho livre, da pintura, da escultura, da música, da dança, da fotografia, da fruição artística.

“Pular e rolar é dança pra mim”, explica F., 4 anos. O corpo em movimento é poderosa ferramenta de expressão e apreensão do mundo, além de elaboração emocional e psíquica. Do que um corpo potente é capaz? De comunicar e expandir, mas também de aprender e ouvir. (Foto: Raissa Cintra/Acervo Carambola)

O olhar, o sentir e o fazer artísticos são inatos. Crianças e artistas expressam-se de modo parecido; subjetividade é a força motriz da expressão artística, assim como da infantil. E o aprendizado está sempre muito claramente vinculado às emoções, à possibilidade de expressão em todas as suas formas, ao sentir com o corpo todo, à brincadeira.

A artista plástica dinamarquesa Anna Marie Holm, que esteve na Ateliê Carambola em 2015, tinha um trabalho sólido com crianças, inclusive três livros publicados documentando esse trabalho e, não à toa, dizia que arte e brincadeira são parte do mesmo processo criativo/pesquisador.

“A atividade artística e a brincadeira são partes do mesmo. As crianças são muito boas para isso. Ouça o que elas têm a dizer! Esqueça as formalidades e o desejo de sucesso. Remova as camadas superficiais da aparência. De que se trata a arte, no fundo?”. Anna Marie Holm. Eco-Arte com crianças.

Como forma de expressão máxima, subjetiva, natural da infância, a arte tem papel central nas escolas reggianas –assim como naquelas que seguem as diretrizes reggianas, tal qual a Ateliê Carambola.

Malaguzzi imaginou um profissional que pudesse ajudar o educador na tarefa de ouvir a infância pela arte e facilitar os processos de aprendizagem e expressão em suas “cem linguagens”. A esse profissional, chamou de atelierista.

As crianças usam o corpo para se expressar. Sentem com o corpo também. A tinta vai facilmente parar na barriga, nas mãos, no rosto. O giz aguça os sentidos táteis. A dança se constrói através de movimentos diversos: pular, girar cair, correr. Brincar é arte na infância, e as escolas de infância precisam oferecer essas experiências e essas possibilidades, livremente. O brincar livre ocupa uma grande parte do dia das crianças nas escolas reggianas.

F., 4 anos, brinca e pesquisa a areia sob a sombra da caramboleira. “A atividade artística e a brincadeira são partes do mesmo”, dizia a artista plástica Anna Marie Holm. (Foto: Fabricio Remigio/ Acervo Carambola)

“O quintal é local privilegiado, nobre da nossa escola”, avalia a diretora da escola Ateliê Carambola, Josiane Del Corso.

Malaguzzi, além de propor o protagonismo da criança, rompe com o senso comum mais uma vez quando pontua que cabe ao adulto se comunicar com a criança nas diversas linguagens dela. Não é, portanto, a criança que precisa aprender a se comunicar verbal e racionalmente como o adulto para então ser ouvida. O adulto pode e deve ser aquele que compreende as múltiplas e sensíveis formas de expressão infantil para comunicar-se com o rico universo da infância.

“As coisas que não têm nome são mais pronunciadas por crianças.”, Manoel de Barros, Uma didática da invenção.

De sem voz às cem linguagens

Foi no norte da Itália, no período imediatamente após a Segunda Guerra, que um jovem professor resolveu ajudar um grupo de pais que encontrou por acaso e, quase sem planejar, desenvolveu uma nova abordagem educativa que, quarenta anos depois (em 1991) seria eleita pela revista americana Newsweek como o “melhor método escolar do mundo”.

Depois do conflito mundial que terminou em 1945, a Itália –assim como toda a Europa — estava arrasada. Preocupados em reconstruir suas casas e o “tecido social” de sua cidade, um grupo de mães e pais da cidade italiana Reggio Emilia (pequeno município localizado na província de Emilia Romagna, cuja capital é Bologna) começou o esforço por re-erguer uma escola, a “25 Aprille”, ainda hoje em atividade.

Em um dia qualquer, por acaso, um jovem educador passou pela escola. “O professor Malaguzzi, andando de bicicleta encontrou esse grupo de cidadãos e tomou parte na construção daquela experiência educativa”, contou, em uma reportagem da Univesp TV, Claudia Giudici, presidente da organização Reggio Children, companhia de capital misto, fundada pelo próprio Malaguzzi, que gerencia iniciativas internacionais relativas à abordagem reggiana.

Foi desse encontro narrado por Giudici que começou a floresceu um conjunto de teorias e práticas que, mais tarde, viria a ser chamado de abordagem Reggio Emilia, não apenas por ter surgido naquela cidade, mas inclusive por compor a base da educação pública e privada do município italiano –hoje, mais de 60% das escolas de educação infantil reggianas integram uma rede que segue as ideias e os princípios educativas malaguzzianos.

Influenciado sobretudo pelas ideias então bastante recentes de teóricos, pesquisadores e educadores como Jean Piaget, Malaguzzi inaugurou uma nova forma de olhar a criança e relacionar-se com ela e, daí, propôs um forma radicalmente outra de proporcionar aprendizado nas escolas de infância. Deu voz não apenas ao pensamento infantil, mas validou a forma como as crianças o comunicam.

O blogue:

O blogue Ateliê Carambola é mantido pelo Centro de Pesquisa e Documentação Ateliê Carambola e tem como principal objetivo informar sobre a infância à luz de teorias, práticas e ciências que devolvam à criança seu lugar nobre no mundo. Dar voz às crianças e a seu pensamento singular é, em última análise, a razão do blogue.

Para pais, educadores, pesquisadores, artistas e interessados, o canal pretende apresentar discussões aprofundadas, exemplos cotidianos e pontos de vista únicos sobre temas críticos na contemporaneidade quando o assunto é criança, educação e maternidade/paternidade.

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