“Matei a gravidade”

Ao erguer torres fantásticas, castelos de princesas e outras obras, crianças constroem teorias sobre o mundo que as cerca

MINI-HISTÓRIA

Protagonistas: A., 2 anos e 11 meses; E., 3 anos e 2 meses; G., 3 anos e 3 meses e R., 2 anos e 5 meses.

Educadora: Vivi Cukier.

Havia meses que as crianças estavam explorando materiais diversos em todas as suas possibilidades. Tampinhas plásticas coloridas, bobinas, papelão, cilindros plásticos, pregadores.

A pesquisa já tinha contemplado encaixes (1), construções mais simples (2) e outras mais complexas (3), erguer-derrubar (4) e até criações maiores (5) que, para se manter em pé, exigiram das crianças aprofundamento na investigação sobre equilíbrio, profundidade, peso e tamanho.

(1) As crianças testam todas as formas possíveis de se encaixar as tampas: qual é a maior? E a menor? Quanto uma contém a outra? O que posso fazer a partir da combinação delas? (2) Estabilizando as tampas com paciência, uma sobre a outra, surge um “castelo de princesa”. (3) Combinando cilindros de papelão de diversos tamanhos com pregadores, ampliam-se as possibilidades, e a pesquisa torna-se mais complexa. (4) Depois de pronta a construção, o prazer é derrubar, demonstrando que, nessa fase, estruturar é tão importante quanto desestruturar. (5) A pesquisa do grupo vai tornando-se mais profunda e sofisticada. A educadora passa a propor investigação com materiais maiores e mais diversificados entre si: mais possibilidades e também mais desafios para erguer e manter erguidas as construções.

Chegando um dia na sala referência, A., E., G. e R. encontraram o espaço organizado com materiais diversos, tais como: cilindros plásticos, tampas e círculos de papelão. A combinação de todos eles oferece infinitas possibilidades de construções e de pesquisa: de que forma é possível conseguir estabilidade com tantas variáveis diferentes?

Logo concentraram a pesquisa e a exploração nos cilindros plásticos. Uma das possibilidades exclusivas desse tipo de material tem relação com a sua transparência. As crianças recolhem na sala pequenos objetos e os soltam dentro dos cilindros, observando o tempo de queda, a velocidade e a trajetória.

“Sou livre para o silêncio das formas e das cores.”, Manoel de Barros.

A transparência facilita a observação.

Começam, então, a erguer uma torre, coletivamente. Com cuidado, encaixam um cilindro sobre o outro e observam o comportamento do material. Se fica estável, adicionam mais um cilindro à obra.

Pesquisam, dessa forma, a estabilidade e o equilíbrio dos objetos. Quantos cilindros conseguimos equilibrar um sobre o outro?

A torre fica alta e, ainda enquanto constroem, desestabiliza-se e cai.

“Por que caiu?”, pergunta a educadora.

“Por causa da gravidade!”, diz E.
“Por que ficou muito alta”, sugere G.

A resposta à pergunta mostra que eles estão elaborando explicações para as torres com base no que experimentam, observam, no que ouvem e nas próprias tentativas e erros. Ao experimentar, criam teorias provisórias que serão testadas e testadas inúmeras vezes.

A torre cai não porque ficou muito alta, mas porque não estava estável. No entanto, como nota G., há uma relação entre a altura e a instabilidade: quanto maior a construção, mais fácil que uma das peças não esteja bem encaixada, desestabilizando o conjunto.

Eles recomeçam a construção e erguem uma nova torre. Dessa vez, a obra permanece em pé, mesmo sendo tão alta quanto a primeira. “Por que não caiu?”, provoca a educadora.

“Por que eu matei a gravidade!”, conclui E.
“Não sei. Tá alto e não caiu. A torre é diferente…”, G. reflete.

E. usou a palavra “gravidade” no contexto ao responder a primeira pergunta. Mas demonstra que ainda está elaborando seu conceito e não o compreende bem; a “gravidade”, para E., é antropomorfizada, como se dotada de intencionalidade. O que é exatamente a gravidade que “derruba” torres? Se as coisas não caem, o que aconteceu com a gravidade então?

Para facilitar a reflexão e sempre respeitando a pesquisa da criança, sem oferecer “respostas” que inibam a construção teórica infantil, a educadora propõe um desenho de observação com a torre que não caiu. O que mantém a obra em pé?

Ao desenhar, eles se concentram em observar o fenômeno — a torre em pé — e representar aquilo que veem e que pode, portanto, ajudar a entender por que a obra segue estável.

A quantidade de bobes, as cores e como eles estão empilhados, além do formato, circular, são as características mais marcantes para o grupo nesta pesquisa. A partir desse olhar, as teorias provisórias seguirão sendo testadas em diversas outras oportunidades.

“Os meios de expressão da criança (…), quando tiverem sido retomados deliberadamente por um artista num verdadeiro gesto criador, nos darão a ressonância secreta pela qual nossa finitude se abre ao ser do mundo e se faz poesia”, Maurice Merleau-Ponty, A prosa do mundo.

O blogue:

O blogue Ateliê Carambola é mantido pelo Centro de Pesquisa e Documentação Ateliê Carambola e tem como principal objetivo informar sobre a infância à luz de teorias, práticas e ciências que devolvam à criança seu lugar nobre no mundo. Dar voz às crianças e a seu pensamento singular é, em última análise, a razão de ser do veículo.

Para pais, educadores, pesquisadores, artistas e interessados, o canal pretende apresentar discussões aprofundadas, exemplos cotidianos e pontos de vista únicos sobre temas críticos na contemporaneidade quando o assunto é criança, educação e maternidade/paternidade.

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