A história itinerante do Atelier Livre

Lucas L. Borghetti
Dec 12, 2019 · 5 min read

O Atelier Livre completa 60 anos em 2021 e mantêm ao longo da sua trajetória um papel fundamental como uma escola de formação artística. Segundo Francisco Dalcol, isso acontece em dois aspectos. “Como uma alternativa a formação acadêmica e também como uma formação complementar. Foram muitos os artistas que estudavam no Instituto de Artes da UFRGS, mas buscavam uma formação complementar no Atelier Livre. Muitas vezes como uma dupla jornada.”

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Funcionários do Atelier Livre de 1961 até 1991. Foto: Reprodução do livro “Atelier Livre: 30 Anos”

O Atelier Livre surge no contexto das discussões sobre arte que aconteceram na cidade no final dos anos 1950. O cenário entrou para a história sintetizado em uma frase marcante de Iberê Camargo, que não morava mais em Porto Alegre, mas de tempos em tempos voltava para a cidade, fazia falas contundentes e oferecia cursos de formação. Iberê disse que Porto Alegre vivia um marasmo cultural. A frase saiu no jornal e repercutiu no meio artístico.

Junto com outros artistas, o grupo que mantinha o Teatro de Equipe desafiou Iberê a debater tal afirmação. Entre as pessoas que acompanharam o debate, estava Istelita da Cunha Knewitz. No final do evento, ela convidou Iberê para outra conversa, dessa vez, na galeria recém instalada em cima do abrigo dos bondes, na Praça XV.

Os debates ao redor de Iberê Camargo foram fundamentais para germinar o que seria o Atelier Livre. Houve uma exposição das pinturas realizadas pelos participantes dos debates e inspiradas nas ideias discutidas com o pintor gaúcho. Na inauguração da mostra, Iberê propôs para o Secretário Municipal de Educação, Carlos de Brito Velho, a criação de um Atelier, já que aqueles encontros haviam sido produtivos. Assim que Iberê saiu da cidade, Francisco Stockinger assumiu a direção do projeto. Xico tinha uma relação pessoal com Iberê e participou dos debates quanto à necessidade de Porto Alegre ter um espaço de discussão e formação artística alternativa e complementar ao Instituto de Artes, que oferecia uma formação acadêmica.

Francisco Dalcol analisa que o Atelier Livre permitiu dar vazão a uma série de práticas e processos artísticos que valorizaram bastante a pesquisa da linguagem. “Esse caráter mais aberto demonstra a diferença da metodologia, do espírito do Atelier Livre, em relação ao ambiente acadêmico, onde a gente sabe que há certas exigências por ser acadêmico, cumprir uma certa obrigação, alguns compromissos, que são necessários no ambiente universitário. Por isso que o atelier livre é pensado como uma alternativa, para ser diferente, não ser mais um espaço de formação acadêmica, mas um espaço aberto, mais livre e também, acho muito importante, experimental. Ou seja, onde havia essa maior liberdade de arriscar mais, de não estar muito preso ou vinculado a certos modelos, dessas convenções artísticas.”

Ainda em 1961, o Atelier muda para cima do Mercado Público e a partir do ano seguinte começa a crescer, tanto no número de alunos quanto em atividades oferecidas. Nas décadas seguintes, é notável os nomes de artistas que se somam a causa e, em seguida, passam a ser professores. As técnicas oferecidas eram desenho, com Paulo Peres; entalhe em madeira, com Anestor Tavares; e gravura, com Danúbio Gonçalves.

Em 1972, o Atelier muda para uma casa na Rua Lobo da Costa. A mudança possibilitou oferecer novas oficinas, como a de cerâmica, inaugurada pelo professor Wilbur Olmedo. Nessa época, era pouco expressivo o número de galerias de arte na cidade. Os espaços existentes eram restritos a nomes conhecidos do meio. Abrindo espaço para exposições, o Atelier ajudou na divulgação das obras de jovens artistas.

Em 1978, é inaugurado o Centro Municipal de Cultura, onde é destinada uma área para o Atelier Livre. O Atelier inicia suas atividades na nova sede com cerca de 700 alunos. Nesse período, o Atelier já desenvolve um trabalho de interlocução com outros meios artísticos, convidando artistas de outras regiões para ministrar cursos em Porto Alegre. Um exemplo de atualização e circulação artística é o Festival de Arte Cidade de Porto Alegre, cuja primeira edição aconteceu em 1986.

Blanca Brites, professora e pesquisadora do Instituto de Artes da UFRGS, escreve no livro “Atelier Livre: 30 Anos” que a mudança para a atual sede marcou um ruptura com os sonhos utópicos dos seus iniciadores. “A partir de então, o que era um espaço alternativo passava a ser um espaço oficial, encaminhando-se para uma organização administrativa que iria institucionalizar a sua atuação.” Perdeu-se o clima de informalidade e intimidade, que marcou a época em que o Atelier permaneceu na Rua Lobo da Costa. Por outro lado, ganhou-se condições materiais, equipamentos e subvenções.

Nos últimos anos, as condições materiais garantidas na chegada ao Centro Municipal diminuíram, assim como o número de professores concursados. O Atelier vem operando com recursos limitados e está na iminência de uma nova transformação, que consiste em compartilhar a administração do espaço com uma organização social. O diretor do Margs observa que as dificuldades estruturais da instituição, não são só do Atelier Livre, mas, de certa maneira, dificuldades que as instituições de ensino e museológicas vem passando nas últimas décadas, sobretudo por estarem vinculadas ao setor público. Apesar das dificuldades, o atelier é um importante espaço de formação e vem criando estratégias para manter o espírito em pé. O Festival das Artes, foi retomado em anos recentes, por exemplo, com objetivo de realizar o intercâmbio com outros meios artísticos, trazendo profissionais e artistas, para ofertar, não só cursos, mas também, outras atividades.

O Atelier oferece atividades para todos os níveis de habilidade. Circulam pela instituição alunos com conhecimentos e com formação artística avançada. Muitos professores de artes plásticas ainda frequentam o Atelier como alunos, “vão lá beber da fonte”. A secretária observa que vem sendo difícil manter um padrão de alto nível, que o Atelier desempenhou ao longo de sua história. Jacques Souza, secretário no Atelier, lembra da história do curso “Obeliscos Contemporâneos”, realizado por meio de edital. O curso, ministrado pelo ceramista Rogério Pessoa, oferecia ao participante compor o seu obelisco, um objeto que representa o interior do indivíduo, utilizando técnicas de cerâmica. “Divulgamos o curso assim, para quem quer fazer um trabalho de arte, desenvolvendo o seu objeto pessoal, o seu obelisco.” O interesse pelo curso, contudo, foi pouco. “Então conversamos com o Rogério e decidimos baixar a expectativa. Em vez de ‘Obelisco Contemporâneo’, colocamos ‘Curso de Cerâmica’ e pedimos para o Rogério abrir a possibilidade para outras atividades.” Depois disso, o interesse aumentou e registrou 28 inscrições.

Confira os momentos marcantes para a história de quase 60 anos do Atelier Livre:

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Atelier Livre: do sonho à realidade

Reportagem realizada por Danillo Lima, Lucas Borghetti e…

Lucas L. Borghetti

Written by

Estudante de Jornalismo na Faculdade de Biblioteconomia e Comunicação da Universidade Federal do Rio Grande do Sul.

Atelier Livre: do sonho à realidade

Reportagem realizada por Danillo Lima, Lucas Borghetti e Luiz Felipe Medeiros, alunos de Jornalismo da Fabico/UFRGS. O trabalho foi atividade da disciplina Ciberjornalismo III, sob orientação do Prof. Dr. Marcelo Träsel.

Lucas L. Borghetti

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Estudante de Jornalismo na Faculdade de Biblioteconomia e Comunicação da Universidade Federal do Rio Grande do Sul.

Atelier Livre: do sonho à realidade

Reportagem realizada por Danillo Lima, Lucas Borghetti e Luiz Felipe Medeiros, alunos de Jornalismo da Fabico/UFRGS. O trabalho foi atividade da disciplina Ciberjornalismo III, sob orientação do Prof. Dr. Marcelo Träsel.

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