Técnica tem momento e lugar

ou “Isso nem sempre funciona”

Aprendendo a usar chaves de fenda, não só martelos

Já havia ouvido (e lido) essa lição em muitas fontes diferentes — livros, aulas e palestras dos mais variados temas — acredito que só aprendi realmente durante um treino de judô.

Era uma quarta-feira à noite. Após o aquecimento, o Sensei (professor) chama os judocas para fazer a demonstração da técnica que deveria ser treinada. Todos observavam, formando um círculo ao seu redor. O Sensei convida um faixa marrom para receber o golpe e, durante a explanação inicial, percebe o desânimo e desinteresse de muitos da turma. Era uma técnica bastante simples, e com uso muito pontual. Assim o Sensei comenta:

“ — Sei que muitos de vocês não gostam de treinar essa técnica, pois acham que não tem muita utilidade durante uma luta. Na verdade pessoal, técnica tem momento e lugar. Não adianta tentar aplicar a mesma o tempo todo e não vai aparecer nenhuma que sirva para todas as situações. Por isso é importante que vocês entendam quando aplicar a técnica e também que aprendam muitas outras, para usar quando necessário”

Uma técnica para a todos dominar

Essa pequena história (anedota) ilustra a nossa eterna busca pela bala de prata. Ansiamos por respostas, meios definitivos de resolver nossos problemas. Seja no judô ou em nossa atuação profissional (caso você não seja um atleta profissional de judô), queremos encontrar meios concisos e inquestionáveis, métodos que poderemos confiar e ter como verdade.

Esta ânsia poder ter o papel de força propulsora, de busca contínua, a clássica utopia, onde almejamos tanto encontrar soluções que passeamos por muitos lugares. Mas também pode nos levar a acreditar em soluções mágicas, meios infalíveis com regras simplificadas e que prometem acabar com nosso tormento.

Acreditamos nisso quando adotamos o mesmo software que aquela grande empresa utiliza, ou seguimos aquele post bacana no Medium que fala sobre as 5 coisas que você tem que fazer para mais produtivo ou esperto, ou quando cremos que se utilizarmos post-its na empresa as pessoas ficarão mais criativas. Nesses momentos esquemos que para sanar nosso problema temos que buscar novos conhecimentos, entender como fazemos, refletir e mudar nossos modos de pensar e agir.

Não que exemplos sejam ruins. Eles estão aí para nos mostrar possibilidades, atalhos, mudanças de paradigma, mas não verdades únicas e infalíveis. Aprendemos com exemplos, copiando, testando e repetindo. E devemos fazer isso de modo contínuo. O que contesto é o amor pelas soluções finais: lemos aquele livro, aprendemos aquela ferramenta na faculdade, e pensamos que ela deverá funcionar. Sempre.

Como as rodinhas da bicicleta

Métodos, guias, frameworks são como as rodinhas da bicicleta — servem para nos ensinar como proceder em uma situação inicial para depois andarmos sem elas. Com rodinhas não fazemos manobras legais, não conseguimos subir uma montanha ou andar em um half-pipe, mas sabemos como começar. Ninguém utiliza rodinhas na bicicleta depois que aprende a andar de verdade.

A simples aplicação técnicas ou tecnologias novas a reveria, dispensando o contexto e o aprendizado, só rende decepções. É quando dizemos que tal ideia não funciona, tal método é balela, só funcionou para aquele cara ou é papinho. Esquecemos que aprender e apreender é uma crucial na adoção de técnicas.

Uma técnica, método, tecnologia ou ferramenta não é nada mais do um apoio, o que não substitui processos, reflexões, análises, aprendizado contínuo. Quanto mais aprendemos novas técnicas, maior nosso arsenal para enfrentar problemas e situações. Quanto mais refletimos, reformamos e adaptamo-as, mais aperfeiçoadas e eficazes elas ficam.