Jaume Plensa | © Tony Hisgett/Wikicommons

Memória e conhecimento — a oralidade, o livro e a digitalização

A memória e as técnicas de conservação da informação mantêm uma relação estreita com a forma de entendermos o mundo.

Antes do desenvolvimento da escrita, quando a transmissão de conhecimento era exclusivamente oral, não existiam formas de materializar e registrar a informação de forma perene. Informação e conhecimento eram tomados por uma eterna re-escritura, estando diretamente ligados às capacidades de memorização e de transmissão do ser humano. Com a escrita e, mais tarde, a impressão, o discurso pode se separar de seu autor e a informação pode se inscrever no tempo. Junto com a escrita, surge o entendimento ocidental de história, de passagem do tempo, de evolução. A digitalização do conhecimento emerge de um misto da oralidade — principalmente de sua característica de constante mutação — e da impressão, pelas características na construção do conhecimento e pelo distanciamento entre discurso e autor.

Com estes — já não mais tão — novos meios de produção e compartilhamento do conhecimento, crenças como o progresso irrefreável, a individualidade, a autonomia do sujeito perante a história, vão cedendo espaço a um entendimento muito mais flexível da sociedade. Somos testemunha de um resgate do eterno retorno — característico das comunidades que não possuíam escrita — , da mudança na concepção do sujeito como fruto de uma realidade que o precede e que, portanto, é membro indissociável de uma coletividade. Assim, entidades como o autor, que acompanham o homem desde antes da Idade Média, começam a ruir, para ceder lugar a uma constituição muito mais flexível da construção coletiva do conhecimento.


Memória e conhecimento: um breve histórico

O desenvolvimento intelectual da humanidade está baseado no acúmulo e na evolução do conhecimento, e estes mantêm uma relação indissociável com a memória. Sem o desenvolvimento de técnicas que permitam a permanência da memória de longo prazo, o conhecimento fica refém das capacidades de memorização do indivíduo e de sua coletividade.

A memória nas comunidades ágrafas — que não possuíam escrita — caracterizava-se por uma presentificação da vida, em que o futuro e o passado eram noções enuviadas e a vida era feita de um eterno retorno, de uma evolução circular. Um discurso que não fosse periodicamente retomado acabaria por desaparecer.

O desenvolvimento se dava insensivelmente, pois a transmissão do conhecimento era sempre recriação. Na oralidade primária, a palavra tem como função básica a gestão da memória social, e não apenas a livre expressão das pessoas ou a comunicação prática cotidiana. Numa sociedade oral primária, quase todo o edifício cultural está fundado sobre lembranças dos indivíduos. A inteligência, nestas sociedades, encontrava-se identificada com a memória, sobretudo com a auditiva.

Neste sentido, a oralidade primária é o tempo do mito, já que o saber, para perdurar, utilizava-se dele como estratégia de memorização.

As representações deveriam estar ricamente interligadas por diferentes tipos de imagens e pelos “problemas da vida” para se tornar parte da memória de longo prazo. Assim, a dramatização e a parábola não tinham um caráter puramente de entretenimento, mas constituíam-se como formas de enriquecer as relações para a memorização. Durante muito tempo, a arte da memorização se utilizou de espaços como teatros e palácios como forma de treinamento e armazenamento das memórias. Esta metáfora não servia apenas como forma de salvar as informações do esquecimento, mas também para determinar como a memória era entendida.

Mesmo depois do surgimento da escrita, este tipo de relação com a memória não desapareceu, já que muito de nosso aprendizado ainda se dá de forma oral, através da comunidade e da família. Porém, a escrita inscreve-se no tempo, materializa o passado, permite seu acesso e, então, o discurso pôde ser separado de seu autor.

Em tempos de oralidade primária, o discurso poderia ser adaptado aos seus receptores, moldando-se às circunstâncias, ajustando-se ao público, pois todos partilhavam do mesmo momento.

Com a escrita, o leitor é exposto a contextos distantes, a sentidos não tão claros, a um texto dado, estático. Assim surge a necessidade da interpretação, da hermenêutica.

A memória de curto prazo esteve totalmente ligada à oralidade humana, em tempos em que ainda não havia sido inventada a escrita. A escrita vem a ser uma forma de estender indefinidamente a memória de curto prazo. Linguagem e escrita nos permitem conceber e modular o tempo.

A partir do desenvolvimento da escrita, a memória pode separar-se do sujeito. Até o fim da Idade Média, o texto e o livro ainda eram muito devedores da oralidade, ainda que seu processo de aprimoramento tenha começado muito antes, através de inovações no campo da escrita e dos processos artesanais envolvidos em sua manufatura. O alfabeto foi um destes desenvolvimentos e sua invenção, aproximadamente em 700 a.C. na Grécia, foi fruto de um processo de evolução na tradição oral, que terminou por separar a comunicação oral e a escrita. Porém, foi só com o desenvolvimento das técnicas de impressão que a alfabetização se tornou imprescindível e se difundiu.

Com as técnicas de impressão, o progresso adquiriu novas nuances, já que a comparação e o acesso a textos antes inacessíveis foi possibilitado. A impressão corrige as imperfeições entre os diversos desenhistas, autores, e elimina o copista, sendo produto e promotora da busca pelos melhores indivíduos, pelo gênio, pois é perene e replicável. A crescente valorização da objetividade e de uma pretensa neutralidade tem uma forte relação com esse momento.

A interface do livro, padronizada em páginas, índices, referências, acaba por torná-lo universal, porém, só se torna uma mídia popular quando tamanho e massa atingiram um valor suficientemente baixo. Os grandes tomos, característicos da Idade Média, foram pouco a pouco dando espaço às edições in folio, em que a folha é divididas em duas partes, às edições in quarto — a folha sendo dividida em quatro -, e, posteriormente, in octavo — dividindo a folha em oito. Além disso, a tipografia foi evoluindo para tipos mais leves, como o itálico, o que incentivou a diminuição dos volumes. O livro e as bibliotecas acabam por se tornar centros do saber objetivo, e a biblioteca pôde ser considerada um mega-documento, que, através de pouco treinamento, possibilitou encontrar facilmente aquilo que se procurava.

Ocorreu, então, uma inversão de sentido: enquanto a escrita era um registro que deveria ser absorvido, com o tempo, ela passa a funcionar como meio de externalização das nossas capacidades intelectuais. O conhecimento não necessariamente precisa estar introjetado, digerido, precisa apenas estar disponível. Além disso, o livro seria um dos agentes e dos reflexos do isolamento do indivíduo, tornando-o incapaz de expressar ou compreender suas experiências, ao contrário do que acontecia durante o primado da oralidade, quando o saber nascia da troca, da interação, da experiência.

Com o pensamento tecnológico e informático, o caráter de disponibilidade e de isolamento tornam-se ainda mais presentes, já que a memória enquanto aprendizado tende a se perder no mundo da informação.

A informática cria um híbrido entre a oralidade e a escrita, herdando a capacidade de armazenamento da escrita e a fluidez e flexibilidade do sistema oral.

A informática funciona como um módulo externo e suplementar de nossa mente, absorvendo funções que antes eram próprias da alma, e depois da consciência.

Enquanto para Platão a memória era uma placa de cera, para os hermetistas era um teatro ou um palácio, e para nossos quase contemporâneos foi uma chapa fotográfica, com a popularização dos meios digitais, a concepção da memória torna-se computacional. Estas metáforas são importantes para compreendermos o entendimento acerca da memória ao longo da história. Só interpretando-a através da metáfora do palácio — na qual os conhecimentos eram guardados em salas e em móveis, como estratégia mnemônica -, tentaremos resguardar nossas lembranças de uma forma espacial, e só interpretando-a através da metáfora do computador começamos a pensar em deletar esta memória do suporte do cérebro. Do mesmo modo, enquanto “inteligente” era um adjetivo exclusivamente usado para se referir ao homem, ele é mais e mais utilizado para artefatos, como a casa inteligente, o carro inteligente, etc.

Além do entendimento sobre a memória, estas tecnologias intelectuais instauram novas formas de conceber o saber. A interação entre computador e memória não só promove uma tecnificação da memória, como pretende humanizar o computador. Na máquina de calcular, as operações aconteciam metaforicamente no seu “armazém”, enquanto no computador, acontecem na sua memória, como Alan Turing foi um dos primeiros a acreditar.

Henri Bergson foi um dos primeiros pensadores a questionar a memória como atributo exclusivo da mente humana, rejeitando a sua associação exclusiva à consciência e a sua redução a reações mecânicas (ou químicas, se preferirmos) do sistema nervoso. Bergson problematizar conhecimento e memória enquanto fatores sociais, e não particulares de um indivíduo. O conhecimento só se daria em sociedade, já que todo desenvolvimento se dá no coletivo, e não no individual. Desta maneira, podemos vislumbrar uma das primeiras reflexões que deram origem ao pensamento do computador e da internet. Culturas variam segundo o grau pelo qual impõem clichês na experiência e na memória.

Do que se alimentou esse texto

BRIGGS Asa, BURKE Peter. Uma História Social da Mídia: De Gutenberg à Internet. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Editor, 2006.

BURKE, Peter. Uma história social do conhecimento: de Gutenberg a Diderot. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Editor, 2003.

BURKE, Peter. Uma história social do conhecimento: de Gutenberg a Diderot. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Editor, 2003.

MAFFESOLI, Michel. A transfiguração do político: a tribalização do mundo. Porto Alegre: Sulina, 1997.