Foto/montagem: De boas na revolução - Facebook

Preto no Branco

Rodrigo Barradas
Jul 26, 2017 · 2 min read

É Apartheid nas ruas, nos prédios, nos presídios. Poucas gramas de drogas, mas muitos quilos de ódio prendem preto e o encarcera no mais profundo esquecimento. Assim foi com o carroceiro Rafael Braga. E duas semanas atrás, dois tiros serviram para silenciar a existência de Ricardo Nascimento, também carroceiro, miserável e preto.

Nascimento - sobrenome que tantos negros carregam e que de nascimento só deveria vir o orgulho de suas origens africanas, herdou também a miséria, o esquecimento e o ódio ao que se é, por séculos de escravidão. E não é de hoje que parte da Polícia Militar vem fazendo o serviço de garis de corpos indesejados. O que vai muito além de um capitão do mato. Aqui é serviço de limpeza humana/campo-urbana, mesmo.

Até porque o preto que aceita a servidão, mesmo que humilhado, torturado e por muitas vezes assassinado em suas comunidades - Sowetos tupiniquins - ainda tem um tiquinho a mais de chances, afinal são catraca na linha de produção e carvão que faz o forno da economia girar. Mas preto que ousa não ocupar os cargos legais de nossa neo-escravidão, vão para o saco mais rápido.

Do outro lado da fronteira de nosso Apartheid, temos Breno Solon Borges. Muitos quilos de drogas, armas e munição apreendidas. Mas isso não serve para manter preso os brancos e ricos, pois brancos e ricos nos parecem puros de coração. Como pode um “menino” desses, tão “bem apessoado”, ostentando motos e carrões, ser bandido? Não! Não pode, não. Ainda mais um “garoto” bem criado, filho de uma desembargadora da Justiça.

JUSTIÇA! Que linda palavra. Na justiça dos homens, moldada e convencionada sempre pelos que tiveram e têm poder, o seu significado foi respeitado, de fato, poucas vezes. Então, justiça real é exceção. Aqui todos dizem acreditar na democracia, mas acreditam mesmo é numa releitura de um feudalismo pós-moderno, pós-industrial, estatal e financeiro. O senhor feudal virou juiz e rentista do mercado financeiro internacional.

E para os que caem nas “agruras da inconsequência de uma impetuosidade juvenil eterna”, existem clínicas caras, spas e campos de golfe, para salva-los. Enquanto ao preto o poste serve mais, lembrando os troncos das senzalas e as peles negras açoitadas, corpos mutilados e mulheres negras estupradas.

Aqui no Brasil o papo é reto, preto no branco: preto pobre, miserável, torturado, preso e chacinado e, o branco, sugando até as últimas o que o negro pode dar.

Somos um país completamente apartado.

Aurora Coletivo de Comunicação

Direitos Humanos, Política & Cultura

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